9.7.09

Leiturazinha de praia

Agora que penso nisso, não percebo muito bem por que razão Dorrie (Charlotte Rampling) diz, em Recordações (Stardust Memories), não compreender nada do livro de Schopenhauer (Schopenhauer) que está a ler na praia. Logo ele, que nem é um filósofo difícil. Talvez a personagem estivesse a usar de humor, afinal o que importava naquela cena era o jogo de sedução; e essa atitude de achar que filosofia é incompatível com sexo não deixa de ser… ahm… sexy. Um pouco como a gestão de empresas, olhe Dias Loureiro, quão garbosamente ele diz que não entendia um quark do assunto.

Mas em O Mundo como Vontade e Representação, o magnum opus (gostou? É latim) de Schopenhauer, ele passa a maior parte do tempo a insultar outros filósofos, o que é bom, e Hegel em particular, o que é excelente. O espaço que sobeja, gasta-o queixando-se de ter um véu cobrindo-lhe as realidades (ele nunca conseguiu arranjar uma namorada) e de como isso é chato e sem remédio, o que o torna um pensador deveras interessante.

Lembrei-me, quando li O Mundo como Vontade e Representação, de sublinhar todas as frases em que Schopenhauer insultava alguém. Pela mensagem filosófica que elas continham, é claro, mas também porque isso me dava excelentes dicas para quebrar o gelo em reuniões de condomínio. Por exemplo, sobre Hegel encontro excertos tão elegantes quanto estes:

“Tornou-se o ponto de partida adequado para o ainda mais imbecil nonsense do desastrado e estúpido Hegel.”

“(…) a filosofia é reduzida a um simples processo combinatório, uma espécie de contabilidade que (como qualquer contabilidade) emprega e exige apenas as mais baixas faculdades. Dela resulta, por fim, um mero malabarismo com palavras, do qual o exemplo mais chocante é o oferecido por esse hegelianismo demolidor de intelectos, no qual é conduzida ao nível do mais puro nonsense.”

“Fichte é o pai da filosofia do logro, do método sem engenho que, através da ambiguidade no uso das palavras, de linguagem incompreensível e de sofismas, procura enganar, e tenta impressionar assumindo ares de importância; numa palavra, a filosofia que procura confundir e ludibriar todos aqueles que de facto desejam aprender. Depois de Schelling ter aplicado este método, ele alcançou o seu auge, como todos sabem, em Hegel, em cujas mãos se converteu em puro charlatanismo.”

“Na Alemanha era possível proclamar Hegel como o maior filósofo de todos os tempos, um charlatão repulsivo e estúpido, um escrevinhador de nonsense sem paralelo (…)”

Quer melhor que isso para uma leiturazinha de praia?

5 hums:

Anónimo disse...

No terraço,a toalha,deito-me.Trouxe o Ser e Tempo,o Anti-Duhring.O arranque dos elevadores,o zunir das antenas.Oh estimado e cordado Bandeira!Você merece todos os prémios!

Helena disse...

Estou cá com uma desconfiança que esse Schopenhauer não havia de ser bom vizinho.

JB disse...

Anónimo, Heidegger no terraço? :D Espero que tenha levado protector solar e óculos bem escuros. Percebo que leve também o Engels, há sempre aqueles momentos de maior descontracção. E obrigado, obrigado, a estima é recíproca.
Helena, conta-se que ele atirou uma vizinha barulhenta das escadas abaixo ou coisa que o valha (teve de lhe pagar uma pensão até ao resto da vida, e quando a mulher morreu ele tocou uma hora extra de flauta). Mas acautele-se, Schopenhauer ensinou na universidade em Berlim, bem pode ainda andar por aí – sabe-se lá sob que forma, huá huá huá. ;o)

Anónimo disse...

Só mesmo tu para me fazeres ler filosofia, mas esse schopenhauer promete.
GAL

Helena disse...

Pois, as escadas, também me constou.
A mãe dele é que morria de desgosto, coitadinha.
Tão boa senhora. Quando o Goethe casou com a Christiane, que já era sua há mais de 20 anos e cinco filhos ou assim, foi a única da sociedade de Weimar que se dignou convidar a senhora von Goethe para um chá.
Para se vingar de tal tolice, o filho foi e escreveu aqueles lugares-comuns que dão pelo nome de ... que chatice, esqueci-me do nome. Livros que se lêem na praia, é assim.