11.11.09

Doutor Magnífico

Não sou do género de celebrar a morte de ninguém antes de passado pelo menos um milénio sobre a lutuosa ocorrência, mas para Anselmo de Cantuária, dito Doutor Magnífico e santo defunto faz este ano precisamente novecentos, abrirei excepção. Não tanto porque sejamos compadres ou isso, mas porque é provável que daqui a cem anos eu não esteja em posição de celebrar coisa alguma. Quero dizer, pelo menos não em pé e com um uísque na mão.

Anselmo achou que não lhe bastava ter provado definitivamente a existência da Divindade com o seu Argumento Ontológico, aquele que parte da premissa de que Deus é algo maior do que o qual nada pode ser pensado (lembre-se, o centro comercial Colombo ainda não existia); ele teve que ir ao limite e demonstrar que Deus não pode sequer não existir.

[Eu fazendo uma pausa para pôr a tocar um CD de cantochão]

Traduzi este bocadinho do inglês para aquele leitor que não domina o latim e me envia sempre um e-mail quando eu escrevo “sic”. Voltei umas duzentas vezes atrás para conferir tudo, desculpe qualquer “que”, “qual” ou “Metropolitano de Lisboa” a mais:

“(…) de tal modo este ser tão verdadeiramente existe que não pode sequer ser pensado como não existindo. Pois é possível pensar algo como existindo que não possa ser pensado como não existindo, e este é maior que aquele que pode ser pensado como não existindo. Assim, se algo-maior-do-que-o-qual-não-pode-ser-pensado pode ser pensado como não existindo, então algo-maior-do-que-o-qual-não-pode-ser-pensado não é o mesmo que algo-maior-do-que-o-qual-não-pode-ser-pensado, o que é absurdo. Algo-maior-do-que-o-qual-não-pode-ser-pensado existe portanto tão verdadeiramente que não pode ser sequer ser pensado como não existindo.”

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[Não convencido? Insira o seu próprio argumento aqui]
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Tomás de Aquino riu-se um pouquinho e Descartes roeu-se de inveja, mas Kant estilhaçou uma chávena de porcelana com as mãos nuas, eurekando nesse acto que um objecto apenas pode ser percebido no Tempo e no Espaço e jurando que passaria a expor os seus próprios argumentos em parágrafos que tivessem um número fixo de caracteres aleatórios.

Kant tinha auctoritas e a vantagem filosófica de dominar o alemão, sobretudo se este fosse pequeno; o argumento de Anselmo parecia defunto e enterrado. Mas ainda há bem poucos anos encontraram na fórmula novas qualidades, furtivas subtilezas, que aquilo afinal não era tão manhoso quanto se dizia e não sei quê. E exumaram a coisa. Disse-se milagre, estava tal qual a tinham deixado tantos anos atrás, talvez só um pouco mais cabeluda.

Santo Anselmo, note, não era apenas o seu Argumento Ontológico, tenho pelo menos 544 páginas dele. Olhe aquilo da processão, super interessante. Pode algo proceder de si mesmo? Sim, desde que se conheça as pessoas certas, estou ainda a procurar uma forma suficientemente obscura de expor o pensamento do Doutor Magnífico. Destinava-se aos gregos que Anselmo ia mandatado para chatear no Concílio de Bari e que não acreditavam que do Filho pudesse proceder um Espírito Santo. Acho que não vai ser muito difícil.

Ok. A verdade é que eu gostava de ser convidado para Director da Cadeira de Estudos Anselmióticos – Anselmianos também pode ser, não farei finca-pé – na Faculdade de Belas-Artes, ou, não havendo espaço para o meu gabinete suportado por colunas egípcias com capitéis em forma de flor de lótus que se vão abrindo desde a porta até à minha secretária, na de Medicina, ou Agronomia, porque não. E para que isso aconteça, lembrar o aniversário é fundamental, sobretudo quando mais ninguém lembra, uma vergonha.

Uma alternativa seria a direcção dos Estudos Norrianos, mas, para além de “norrianos” soar mal às pessoas (fiz sondagem), Chuck Norris não tem, no seu monte de argumentos, nenhum que seja verdadeiramente ontológico.

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Nota: o original em inglês do texto citado é da edição da Oxford University Press e da Cadeira de Estudos Pamelandersonianos da referida universidade, que irresponsavelmente publicou Anselm of Canterbury: The Major Works, uma compilação das maiores obras do antigo arcebispo de Cantuária (e-mails com perguntas e pedidos de dinheiro devem ser endereçados para lá; grato). “Maiores” não é hipérbole, o livro tem mais de quinhentas páginas e aguenta-se em pé sozinho desde que não haja animais de estimação por perto. Mas, o Senhor seja louvado!, é barato, umas dez libras apenas.

11 hums:

antuérpia disse...

Podias ter transcrito em latim. Juro que tentei. Os «que» e os «qual» ainda lá vá... já o Metropolitano de Lisboa...
Não existirá esse livrinho que se põe em pé em versão reader's digest? :)

Gi disse...

Posso mandatar a gata Camila para derrubar o sempre-em-pé no próximo congresso, em Bari ou elsewhere?

Helena disse...

Li esse texto (a parte do: o que não pode ser pensado que não é pensado não pode ser pensado porque o que não é pensado não pode ser pensado) com toda a atenção e cheguei à conclusão que o rapaz da tipografia estava pedrado, ou então faltou-lhe um "que" ou talvez um "não". Inclino-me para a hipótese do q. Dado que essa letrinha não é muito usada, a gaveta onde reside é mais pequena que as outras. Dado o caso de um texto assim, bem podia acontecer de lhe faltar algum, e aí ele decidiu omitir a palavrinha num ponto qualquer. De onde se tira mais uma conclusão: o rapaz da tipografia era pateta, podia ter usado um b invertido. Não ficava perfeito, mas sempre seria melhor que nada.
Também concluí que a autora do Harry Potter não se limitou a copiar a Enid Blyton: com aquele seu aquele-que-não-deve-ser-nomeado alargou o campo do plagiato a outros séculos. Tudo está bem quando acaba bem: hoje, em todo o mundo, há muitos milhões de crianças que se iniciaram de maneira lúdica ao pensamento Anselmítico (sim, também haveria esta possibilidade de classificação).
Parece-me que repeti expressões, mas não faz mal. Prafrentemente não é um erro de estilo, é uma referência Anselmolítica.
(Ansiolítico...)

E por falar em tudo está bem quando acaba bem: o autor dessa frase não se chama Shakespeare, mas...
...Helena Araújo. (Hehehe, que fui eu que a escrevi agorinha mesmo.)
OK, agora a sério, li outro dia: Edward de Vere, Earl of Oxford. Como um nobre não podia vender a sua produção intelectual, ele arranjou um figurão qualquer para dar o nome.
(Algo me diz que revelar isto neste blogue é um bocadinho como ir para o De Rerum Natura falar de uma descoberta recente, um objecto circular que pode ajudar à deslocação de cargas pesadas)

DL disse...

É um argumento aparentemente lógico, mas que não resistiria ao escrutínio combinado dos jornalistas do Correio da Manhã e da TVI. Agora a sério (mesmo) faz lembrar o Princípio Antrópico. Fora isso, tudo bem. E o rapaz, já está bom?

Rita F. disse...

O post está mesmo muito bom, e gostei muito da referência a Kant, que me parece ter acertado em cheio com isso do Tempo e do Espaço, do fenómeno e do númeno, da razão e da sensação - rapaz esperto, equilibrado, e que arruma de vez com a questão do que pode ou não ser pensado.
Devo dizer, porém, que o que me matou não foi uma coisa, mas sim duas - "eurekando" e "pamelandersonianos". Bom, bom, bom.

drengo disse...

li, reli, treli... e rendi.

melhor, os neurónios renderam-se, com a rede neuronal transformada num nó cego, apenas tendo "pescado" referências a pronomes relativos, a Espaço e Tempo, e com o toque em alemão a fazer-me pensar no Rei Alberto, o Einsténio. quanto à sonoridade, parecia-me estar a murmurar um mantra tibetano, embora não possa confirmar porque devo tê-lo resmungado com sotaque de Yeti... e depois de ter terminado, a garrafa de oxigénio ao meu lado foi muito útil.

Anónimo disse...

ah ah ah... estes comentários :D
Também adorei o post, estamos sempre a aprender, neste blog.
Cumprimentos,
Sofia

Paulo Araújo disse...

É tocante como esses grandes filósofos medievais se entretinham com raciocínios aparentemente lógicos, vertidos à maneira euclidiana, que na verdade não passavam de pura retórica. Mas é o mesmo poder de sugestão que hoje permite que se fale de «ciências económicas» e de «ciências políticas» sem que as pessoas desatem às gargalhadas.

Já agora deixo aqui um pequeno quebra-cabeças, popular em cursos universitários de lógica. É um daqueles paradoxos que nos ensinam a desconfiar das palavras.

Considerem-se todos os números naturais que podem ser descritos por frases em portugês com não mais que cento e quarenta caracteres.

(Cada carácter ou é uma das vinte e seis letras do alfabeto - incluindo y, k e w -, ou um espaço, ou uma vírgula, ou um ponto final. «Frases em português» é um conceito elástico, sendo admitidas quaisquer inovações ortográficas ou sintácticas.)

Exemplos dessas frases são:

- O triplo de um centena acrescido de uma unidade.

- Setenta vezes sete.

Etc. etc.

Como o número de frases nessas condições é finito (é certamente menor do que 29^140) e há uma infinidade de números naturais, nem todos eles podem ser descritos por tais frases. De entre estes últimos, há um que é o menor de todos. Existe, pois, a seguinte entidade:

- O menor número natural que não pode ser descrito por uma frase em português com cento e quarenta ou menos caracteres.

Mas esse número acabou de ser descrito por uma frase com 117 caracteres. Onde é que está o erro?

Anónimo disse...

O erro é perder-se uma manhã de sol,um passeio com a namorada(o).
tiudózio

JB disse...

Antuérpia, o problema foi que ele não tinha boas amigas que lhe oferecessem os tratados do Aristóteles. Houvesse ele lido a Lógica do macedónio e tudo aquilo seria (mais ou menos) compreensível, hoje já traduziram tudo para silogismos. Também é verdade que, à data, as edições do Aristóteles em língua que se percebesse eram muito difíceis de encontrar ;o)
Gi, podes, claro, deves até. E adorei o ‘congresso’, imaginei os bispos nas Maldivas sendo inspirados pelo Espírito Santo enquanto chapinhavam com os pezinhos em límpidas lagoas azuis :D
Helena, eu tentei seguir a gralha que apontas, mas acho que só vou ser capaz de reler aquele argumento de novo daqui por um ou dois meses. ;o) E tens toda a razão quanto ao Harry Potter, eu e a D. levámos o puto a ver um filme dele e lá estava isso daquele-que-não-deve-ser-nomeado. Tenho um filho iniciado. Não sei o que pensar disso, mete um pouco de medo. No que respeita ao figurão, ah, sabes o quanto essa questão me perturba os neurónios. É certo que o epitáfio que fez questão de redigir (em tempos até traduzi isso, está num poste algures no BVI, se ao menos a pesquisa do Blogger funcionasse) e aquele testamento em que deixava a segunda melhor cama à mulher são mais dignos de uma Washingtonia robusta (olá RPL) que de um poeta e dramaturgo da craveira que se supõe a sua. Mistério dos mistérios.
DL, concordo em absoluto. Quanto ao Princípio Antrópico, aposto no Fraco. O rapaz tá óptimo, houve uns alarmes mas foram falsos, obrigado pelo interesse.
Rita, que prazer vê-la por cá. Muito obrigado. Também sou aficionado do Kant, adoro aquilo de ele só ter atrasado o seu passeio uma única vez, no dia em que se soube da tomada da Bastilha. E ainda bem que gostou dos meus neologismos, ando a ver se consigo aumentar em um volume o Dicionário da Academia (tem que ter três volumes para ser obra séria).
Drengo, partilho dessa saudável perplexidade. E grato pela ideia da garrafa de oxigénio, já não saio à rua sem uma. :D
Sofia, :o) para mim isto nem são comentadores, são comendadores. E grato pela gentileza.
Caro Paulo, arrisco coisa nenhuma embrulhando-me em paradoxos matemáticos (como dizia o taxista em Taxi Driver, I’m no Bertrand Russel); e como já não é de manhã e a namorada está a trabalhar :D, que se dane, sempre direi que me parece que o paradoxo (ou falácia?) resulta talvez de uma potencial ambiguidade da linguagem, provavelmente da palavra “descritos”. Uma frase que faz asserções a respeito de si mesma pode devolver conclusões logicamente inconsistentes, certo? Como o paradoxo, talvez mais fácil talvez de entender mas não de resolver, que resulta da afirmação “esta frase é falsa”. E por aqui me fico, mortificado com a minha ignorância e aguardando clarificação.

Paulo Araújo disse...

Caro Bandeira:

De facto é um paradoxo da mesma família de "esta frase é falsa", pois trata-se de uma afirmação que se desmente a si mesma.

Mas há outra maneira de considerar o problema. Podemos olhar para todas as frases em português com 140 caracteres ou menos, decidir que algumas delas descrevem números e outras não, e atribuir, às que achamos que descrevem números, os números que por elas são descritos. Podemos até forçar a coisa, atribuindo números a frases ambíguas ou a frases que, à partida, não descrevam qualquer número. A frase do paradoxo seria uma dessas a que poderíamos, se quiséssemos, atribuir um número ou não. Mas, depois de completada esta atribuição, o que está feito, está feito: não podemos voltar atrás e modificar os números atribuídos às frases. Assim, apesar de, depois de feita essa correspondência (e registada no notário para evitar falsificações), existirem números que não foram atribuídos a nenhuma frase, e existir portanto o menor deles, a frase paradoxal em causa não constitui uma descrição desse número. Porque, das duas uma:

- nenhum número foi atribuído a essa frase (e seria batota fazê-lo agora);

- ou, se foi atribuído algum número, ele obviamente não faz parte dos números que não foram atribuídos a frase nenhuma (e nesse caso não há qualquer relação entre o significado em português da frase e o número que lhe foi atribuído).

Não se isto ajuda, mas não consigo ser mais claro. E não quero privar ninguém da oportunidade de passear ao sol (que anda um bocadinho arredio por estes dias), com ou sem namorada(o).