14.10.11

Sobre o discurso do PM

A luz ao fundo do túnel era uma mota.

8.10.11

Trinta páginas

Como escrever para que ninguém nos leia? Escrevendo pelo menos trinta páginas. Mais do que trinta e vacilaremos, sofreremos a tentação de ser lidos. Para que ninguém nos leia há que escrever trinta páginas e ser depois – sobretudo – capaz de destruí-las.

7.10.11

No feriado

Levantámo-nos à hora da insónia e fomos dar os bons dias a Almeida. No regresso deu-me o sono. Passei razoavelmente essa noite—levantei-me às seis. Hoje deitei-me cedo e dormi até quando quis. Decerto não foi do comprimido novo que o meu analista me receitou; antes terá culpas o jet-lag. Que Almeida, mais do que a quatrocentos quilómetros, fica numa dimensão que ninguém se lembrou ainda de inventar.

4.10.11

É movendo-nos

que chegamos onde queremos ir. Mas—e se não queremos ir a lugar nenhum? Bom, nesse caso teremos que dar uma volta maior.

3.10.11

Somos um povo de poetas

porque não temos dinheiro para tintas.

30.9.11

Mínimas

Antes trocar cromos que palavras de circunstância.

12.9.11

Receituário

Tomo estes comprimidos porque são baratos, sabe.

3.9.11

Toponímia nortenha

Acabo de passar Rio Cabrão.

31.8.11

Autocrítica (crítica no automóvel)

"Sabes, pai, embora não pareça, tenho gostado imenso destes dias a passear contigo. É que nós, adolescentes, temos de fingir que achamos tudo uma seca."

5.8.11

Um ecg

é um conto curto escrito pelo coração.

23.5.11

Recapitulação VIII

Um homem recapitulava toda a sua vida enquanto a maca que ocupava deslizava pelos corredores; e pensou que não a havia vivido na sua plenitude. O rio em que não nadara em criança com medo das cobras de água. O primeiro beijo que não dera com nojo da saliva. As namoradas com quem não namorara porque não queria ter que tomar banho todos os dias. A mulher que não pedira em casamento porque não estava seguro de que ela tomasse banho todos os dias.

Então o momento chegou. O bem-estar, o túnel, a luz muito branca, as vozes chamando. A maca deteve-se. Mãos voaram como pássaros sobre o seu corpo inerte. Mas ele, como sempre, hesitou; e acabou tendo uma experiência de quase-morte.

18.5.11

Recapitulação VII

Numa remota região da China, tão remota que ali os rios desaguam uns nos outros por desconhecerem a existência do mar, habita um povo do qual jamais houve notícia. O que mais o distingue dos outros povos é a sua estranha língua: cada indivíduo pode pronunciar cada uma das palavras do léxico uma única vez. Talvez por isso, existem – de acordo com a última contagem – 271 palavras diferentes para significar «facécia», 6525 para «pórtico», 895477 para «linda» e 9003226635910 para «não».

Os habitantes desta região remota da China possuem nomes ainda mais compridos do que os dos reis de Portugal.

Reestruturação orgânica dos serviços

O departamento das tiras e cartoons passou para aqui, num edifício mesmo ao lado (muito obrigado a todos os que deram notícia). O das fotos, esse, o daguerreotípico leitor já sabe onde fica. Aqui no BV estarão sobretudo os textos, hahaha, a sério, um destes dias eu volto a escrever.

26.4.11

Recapitulação VI

A intervenção era de rotina. Mas a mulher do cirurgião fugira nessa mesma manhã com o proctologista, e ele, que era apenas humano, operou para esquecer.

O paciente acordou na madrugada seguinte com o ventre rígido, dores agudas e vontade de dançar slow. Tiraram radiografias, entraram em pânico e ligaram para o telemóvel do cirurgião. Ele não demorou dez minutos. Tinha aspecto de quem passara a noite a vender as mágoas aos pombos no relvado do hospital. Olhou a radiografia e a queixada por barbear tombou-lhe no peito. Esquecera um velho single de 45 rotações no interior do paciente. «A nossa música», gemeu chorando, e encostou o ouvido à barriguinha dele.

24.4.11

Recapitulação V

Um velho muito velho e estragado encontrou o rei de França junto a um Mercúrio em bronze e entabulou conversa com ele. Sentaram-se nas conchas de uma fontezinha rococó com peixes encarnados e tritões de pedra e contaram as suas vidas um ao outro. O velho falou das imensas provações por que havia passado na sua muito longa existência; o rei, do seu extraordinário poderio. Quando já não tinham mais nada para dizer um ao outro, o velho perguntou ao monarca se trocaria de vida com ele. O rei de França respondeu: «O diabo seja cego, surdo e mudo!» E o pobre diabo ficou cego, surdo e mudo.

22.4.11

Recapitulação IV

Disputava o príncipe com o rei a única casa de banho do palácio:

“Precisamos de fazer a barba”, dizia o príncipe.
“E nós queremos tomar um banho de imersão”, retorquia o rei.
“Mas nós vamos passar a noute fora com uma cortesã gaiteira”, insistia o príncipe.
“Pois ide como estais, e tende o cuidado de tornar perfumado ao paço”, arreliava-se o rei.

Desta forma encostado aos azulejos, o príncipe permitiu que o rei entrasse na vetusta banheira; após o que lhe afogou a majestade sem grande dificuldade.

Ultrapassada alguma comoção inicial, o povo aclamou o matante como seu governante; e, em sinal de agradecimento à Divina Providência, o novo monarca não voltou a tomar banho de imersão em toda a sua longa vida – ainda hoje luzem no palácio o duche e polibã doirados que em lugar da real banheira ele mandou fossem instalados.

20.4.11

Recapitulação III

“Pode tirar-me tudo menos o Direito à Indignação”, indignava-se um Homem Indignado. “Não posso tirar-lho, mas posso taxá-lo”, respondeu o Governante Insensível. E quanto mais o Homem Indignado com isto se indignava, mais o Governante Insensível, com a ajuda de um Indignómetro, via o lado da receita subir.

18.4.11

Recapitulação II

O inspector dobrou a gabardina, poisou-a cuidadosamente sobre as costas da cadeira, encheu o peito de ar e disse, ao mesmo tempo que expirava:
«Foi o Marcelo.»
«O Marcelo, inspector…?», escandalizou-se o guarda Caetano.
«O Marcelo, Caetano.»
Tomás entrou de rompante no gabinete, corado ainda do opíparo almoço.
«Viva, inspector! Viva, Caetano!»
«O Américo, Tomás?», perguntou o inspector.
«Pensei que estava consigo.»
«Comigo? Não o vejo desde ontem. Preciso que você vá com ele e com o Caetano.»
«Fazer o quê, inspector?»
«Buscar o Marcelo», suspirou o guarda. Tomás voltou a sua incredulidade para o cívico:
«O Marcelo, Caetano?»

17.4.11

Quatro seguidas

Ontem suportei tormentos de prazer na Gulbenkian. Se o barítono Thomas Hampson e as canções orquestrais de Mahler me deixaram em êxtase e com vontade de passar o resto dos meus dias comendo salsichas e manuseando, com os dedos pingando gordura, gramáticas da língua alemã, a tensão da 1ª do Gustav, a Titã, espertou o lado rancoroso da minha hérnia discal. Durante o resto da noite não pude virar a cabeça para o lado esquerdo. Já no dia anterior havia assistido a um bom concerto, o inaugural dos Dias da Música, no CCB. Pela orquestra de, veja bem, Brno. Como se existisse na Terra algum sítio chamado “Brno”, hahaha. Tocaram Paraísos Artificiais, de Freitas Branco (alucinogénios opcionais), Rhapsody in Blue, de Gershwin – deixe-me dar um grande uau ao pianista, Jorge Moyano – e, para rematar, a 9ª de Dvořák, cadência de índios caçando búfalos em vastas planícies. Hoje vem o Adágio da Décima de Mahler e a sua Canção da Terra. Mais sofrimento, que os miúdos da Jugendorchester sabem tocar e fazem-no com cruel arrebatamento. Mas amanhã, ah, amanhã é Bach. Para expulsar esses demónios que teimam em ficar dentro nós quando nos expomos a Mahler tempo de mais.

16.4.11

Recapitulação I

Eu costumava tomar café com Sandokan nos intervalos entre as suas façanhas, aquelas na selva, no Índico ou num qualquer desses lugares exóticos por onde ele andava sempre, enfrentando sozinho dúzias de temíveis ursos pardos, centenas de tigres de Bengala, milhares de piratas cruéis, sabe como era. Ele ficava sempre pelo meu bairro alguns dias, recuperando das dores crónicas no tornozelo que partira em criança ao brincar a saltar ao eixo com Pamurundirajira, o elefante-filósofo indiano bebé.

Mas eu mentiria se dissesse que os cafés com Sandokan eram interessantes. Ele achava que as suas proezas eram trabalho, e “em férias”, dizia, “não se fala de trabalho”: eu que esperasse pelo livro. Ficávamos os dois calados, olhando para as chávenas e brincando com as colheres, eu morrendo de vontade de lhe perguntar quantos canibais ou bestas selvagens chacinara da última vez, ele pensando em como extorquir-me novamente dinheiro para pagar a conta do hotel Lutécia. Em Alvalade, eu era o seu único amigo.

Um dia foi apanhado por mil e quinhentos fiscais do metro sem um título de transporte válido, e morreu.

Nix

15.4.11

Bandeira de Papel

Bandeira de Canto, JN, 15.4.2011

14.4.11

Bandeira de Papel

Cravo & Ferradura, DN, 14.4.2011

12.4.11

Bandeira de Papel

Cravo & Ferradura, DN, 12.4.2011

15.3.11

Hiperbolezinha

Acho que não dá para se ser mais bacoquinho do que quando se diz de Aveiro que é “a Veneza de Portugal”. Mas essa minha convicção vacilou um tanto quando li uma brochura recolhida ao balcão de um hotel alentejano. Ali se avança, sem medos, que o Pulo do Lobo é “o pequeno Grand Canyon português”.

6.3.11

O Satanás de Telheiras

Mastigando um bife com molho de mostarda no Oh! Lacerda, o meu filho diz que agora é “satânico”. Eu e a D. rindo muito por entre garfadas de arroz de garoupa. E ele admirando-se, “Digo-vos que vou para o Monte dos Misantrópicos e vocês respondem ‘leva um casaquinho!?’”. Com dificuldade contemos as lágrimas. Eu, didáctico: “Sabes onde aparece o Satanás pela primeira vez?”, e ele, “No Dragonball…?”. Dez minutos de cachinada. Depois conto-lhe a história de Job, o homem que tinha tudo menos sentido de humor.

Autores em dificuldades

“[O Livro Verde] Debruça-se igualmente sobre a solução do problema das minorias e dos pretos, de modo a estabelecer os princípios firmes da vida social para toda a Humanidade.”
(Do texto da contracapa)

5.3.11

Pássaros adejando

Raras vezes me apetece escrever sobre algum livro que tenha lido. Espere, espere, não são tão raras assim. Agora que penso nisso, acho que são até muitas, as vezes em que me apetece escrever sobre livros que li, mas dá-me uma preguiça, hmmm. Resolução para este ano: escrever sobre livros que li. Como se eu cumprisse as minhas resoluções, hahaha.

Entretanto: venho lendo a tradução de António Miguel de Campos do Tao Te King, de Lao Tse – uso a grafia daquele – e estou fascinado, não tanto pelo Tao Te King, que já conhecia de outras (bem piores) traduções, mas pela minúcia e excelência do trabalho de Campos. Antes de ler esta tradução, eu pensava que entendia o Tao; não entendia nada, claro. Agora continuo a não entender, mas não entendo muito melhor. Quero muito ser amigo de António Miguel de Campos. Para exalar um perfume verdadeiramente oriental, um livro escrito na China há mais de dois milénios e meio (a tradição di-lo e eu não a desdirei) teria forçosamente que ser traduzido por um investigador na área da engenharia electrotécnica. E se o leitor assim mais moderno acha que obra lavrada há já mais de 2500 longos anos nada pode ter para lhe ensinar (afinal, desde então o homem foi à Lua, clonou a Dolly e inventou o temporizador de luz de WC público), lembre-se de que foi mais ou menos por essa altura, tire-lhe um século, vá, que o Sócrates viveu, o Platão escreveu e o Demócrito arengou sobre como o universo é composto de átomos e tal.

Pare de encolher os ombros: esta não é apenas mais uma versão bilingue do Tao Te King. Ela inclui explicações sobre os caracteres chineses do poema original (a propósito, Campos recusa-se a acentuar "caracter", kudos para ele, serei o primeiro a assinar petição a favor) e observações muito pertinentes sobre a filosofia que subjaz ao Tao. A edição é da Relógio D'Água. Corra a comprar para que depois possamos ter longas conversas caladas, olhando belos pássaros adejando por sobre canas de bambu.

24.2.11

Eiafeméride

Há precisamente trezentos anos, o alemão Händel estreava a ópera italiana Rinaldo num palco inglês. O clip em baixo é do filme Farinelli, de Gérard Corbiau (se tem mesmo de saber, belga). Quem cantou esse Lascia ch’io pianga na estreia de 24 de Fevereiro, contudo, não foi o idolatrado castrato italiano, mas uma tal Isabella Girardeau; um estrondo, apesar das críticas mete-nojinho nos jornais do dia seguinte.

Almirena, filha do Godofredo – o líder baixinho da Primeira Cruzada, o leitor lembra-se – canta o seu desgosto por as coisas não estarem a correr muito bem com o namorado, o valente cruzado Rinaldo, sobre cujas largas espaldas se joga o sucesso (na verdade, foi um massacre) do cerco e subsequente assalto a Jerusalém. Não me peça para explicar a roupinha. O pavão, esse é autóctone da Terra Santa. Ou então eles levavam para lá – sabe, para dar um pouco de cor ao deserto.

Mas o que importa mesmo é o parabéns a ele, ao Händel, quero dizer, e ao Rinaldo também.

23.2.11

Prova clínica

Tem os melhores rissóis de Alvalade e os clientes mais obtusos: o Júlio de Matos é mesmo ali à mão. Hoje, encostado ao balcão para não cair, um homem arenga em voz muito alta. Quer mais um uísque, mas o patrão nega-se. Que melhor não, que assim vai à consulta cheio de álcool no sangue. “É precisamente por ir à consulta que tenho de beber”, retorque o sujeito, “para provar que sou bêbado”.

18.2.11

Pensamentos do Exílio

Não sinto grandes melhoras com as lentes progressivas. O mundo continua igual.
Não ando desaparecido, apenas tenho dias em que não acredito em mim.
Sou tão céptico que não acredito em S. Tomé.
Deus fez o mundo em apenas seis dias. Não é estranho? Porquê tanta pressa?
O ateu prudente usa chapéu.
Sartre, vá lá dizer numa perfumaria que a existência precede a essência.
Espiral é uma recta vivendo em clima muito húmido.
Rica galinha, põe ovos de Fabergé.
Todo o suburbano é um excêntrico.
Sempre quis ser autodidacta, mas nunca havia alunos suficientes para formar uma turma.
Mantenha a cabeça fria e ela durará mais tempo.
Ninguém com dois dedos de testa usa um boné com pala.
Não perder a cabeça é importante, em particular se já não se é uma pessoa alta.

9.2.11

Mínimas

O verdadeiro céptico não é o que duvida de tudo; é o que procura a solução depois de a ter encontrado.

8.2.11

Impressão: Sol Nascente

“O John Locke acha que o povo detém sempre o direito de derrubar um governo injusto e repor o seu estado de liberdade original”, disse Camille. Ela vinha acompanhando com paixão, pela Internet, os acontecimentos no Oriente Médio. “Ele diz que numa revolução justa o verdadeiro fora-da-lei é o governo, não o povo”.

Claude Monet não se deixou impressionar. Como Hobbes, tinha pouca fé nesse estado de liberdade original. “E então? Nada de novo debaixo do Sol. Vou pintar. Há um salgueiro que…”. “Mas o que há de novo aqui é esse ‘o povo’, Claude!”, entusiasmou-se Camille. “Até o John publicar o tratado dele, houve muito quem defendesse o direito à revolta – desde que não partisse da rua”.

“Mas todos os governos, de uma forma ou de outra, são injustos, ma belle. Se isso fosse o suficiente para justificar a revolução, o que impediria as massas de se rebelarem por dá-cá-aquela-palha? Seria impossível tomar um absinto no café ou uma carruagem a horas”, brincou Claude, tentando aliviar a tensão. Camille tomou-lhe as mãos papudas. “O John diz que o povo não é assim tão revolucionário. Que só mesmo após uma longa sucessão de abusos um governo corre o risco de ser deposto pela rua. Olhe o que está a acontecer no Egipto, meu querido. Há trinta anos que esse Mubarak vem esticando a corda”. Monet cofiou a longa barba. “É certo que os egípcios tiveram uma paciência de múmia”, admitiu. “Mas suponha que instalam ali um regime pior ainda do que o actual, uma teocracia, sei lá. Que dirá o seu amigo John então?”. “Se isso acontecer, o povo terá mais uma vez o direito de se revoltar”, respondeu Camille, olhando um ponto indefinido para lá da janela. “Nem que seja apenas daqui por outros trinta anos”.

Claude fez que sim com a cabeça. Achou-se tonto por imaginar que a mulher pudesse ter um caso com Locke: demasiada diferença de idades. Depois veio-lhe à mente o que Cioran escrevera sobre como não existem mudanças de regime, apenas de polícia, mas não disse nada. Camille deu-lhe um beijo apressado e voltou para o portátil. Então ele calçou as galochas, colocou o chapéu e saiu para pintar nenúfares.

7.2.11

Ciclo ontogenético

D.: Vais ao ciclo da Sofia Gubaidolina?
C.: Não! Ela está viva, pelo amor de Deus!

Coisas do Mundo

Ainda preciso de alguma prática com o iPhone: fui avisado às 18:45 de que tenho um almoço hoje, às 20:45, com um amigo de juventude.

Se quer saber, correu bem (se não quer saber, correu bem à mesma). Ele é húngaro e encontrámo-nos num restaurante gerido por nepaleses que serve comida italiana. O vinho era português, o uísque, da Irlanda, e na parede havia uma dessas cascatas luminosas chinesas.

Como é natural, falámos de coisas do mundo.

1.2.11

As Nuvens

Vai-se ao campo e não se tem electricidade. Aprende-se que é porque “caiu um relâmpago muito grande” mesmo no centro da aldeia. O leitor não quereria estar por perto de um acontecimento como este. Para lhe dar uma ideia de quão perturbador pode ser, numa área de cinco metros em redor teria sido muito difícil usar o seu telemóvel.

Por uma vez, é bom não ter de culpar o governo. Mas o homem que ficou com a casa destruída não concorda. Ele acreditara que um corisco saberia distinguir um pára-raios das suas góticas antenas de TV. Quer muito poder imputar responsabilidades a alguém (isso revela, é claro, um desejo reprimido de dormir com a mãe e matar o pai). Mas quando é assim, diz o senhor da luz que vem dar apoio psicológico e substituir o disjuntor, quando é assim, quer dizer, a Natureza ou Deus ou seja lá quem for que lança os raios, é muito difícil: eles alegam causas naturais e pronto.

Agora já há electricidade no campo. Dou graças. Uma hora sem energia numa noite glacial, aqui, é equivalente a cinco horas de uma actividade divertida, como a lipoaspiração ou um telefonema de marketing. E para o raio também não deve ser fácil. Já pensou? Ele tem tão pouco tempo para si.

25.1.11

Não Há Crise

Keynes está de volta, avise a mulher dele
Por José Bandeira, especialista

 Instruções para a Economia portuguesa (válidas desde 1995 até KLR650).

Voz: Bem vindo à Linha Economia. Para saber se a TAEG é uma companhia aérea low cost, pressione “1”. Se pretende uma entrevista para emprego, pressione “2” noutro telefone qualquer. Para falar com o presidente do Banco Central Europeu, pressione “3”. Para conhecer o valor do défice, digite “1129745084534781,21”. Para insultar um representante da Moody’s, pressione “*****”. Para falar com um técnico, pressione a sua tia. [Eu pressionando a minha tia]
Técnico: Bom dia. Eu dizia-lhe como me chamo, mas nem isso sei. Em que posso ajudá-lo?
Eu: Eh… bom dia. Aqui Bandeira. Parece-me que tenho a Economia avariada.
Técnico: Estou a ver. Posso saber de onde está a ligar?
Eu: [indo até à janela e olhando para os Pais Natal pendurados nas varandas desde o ano passado] Portugal, tenho quase a certeza.
Técnico: Por favor indique o 13º e o 1298º dígitos do seu código de acesso.
Eu: O que é isso?
Técnico: Correcto. Senhor Bandeira, verificou se a Economia está ligada?
Eu: Julgo que sim. Pelo menos tem um monte de luzes vermelhas acesas, ou talvez se trate de um pequeno incêndio.
Técnico: Muito bem. Experimentou clicar em “A Minha Economia” no Ambiente de Trabalho?
Eu: Sim. Aparece aquele jogo das minas.
Técnico: Hmm… ok, parece-me bem. Clique por favor no ícone “Painel de Especialistas”.
Eu: [clicando no ícone] Não acontece nada.
Técnico: Parece estar a funcionar correctamente. Dê-me a sua morada que nós far-lhe-emos chegar um gráfico com toda a informação de que necessita. [nota: consultar gráfico nesta página]
Eu: Mas preciso da minha morada, não tenho outra onde viver.
Técnico: [com um tom de algum desdém] Compreendo. Talvez consigamos resolver a coisa apenas com o seu endereço. [Eu fornecendo o meu endereço]
Técnico: Com o gráfico segue uma foto da Scarlett Johanson nua. Fazemos isso para que os utentes não prestem atenção ao gráfico. Se preferir, temos uma versão com o Brad Pitt. Posso ajudá-lo em mais alguma coisa?
Eu: Bem… quero dizer… então a Economia está em condições? Posso ficar descansado?
Técnico: Sim, sim. Não há crise. [Clic]


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(Texto publicado no nº 4 da revista Companhias.)

24.1.11

Bandeira de Papel

Cravo & Ferradura, DN, Janeiro 2011

21.1.11

Une petite histoire bourgeoise

A FNAC, ou Fédération Nationale d’Achats des Cadres, foi fundada em 1954 por André Essel e e Max Théret, dois membros do movimento Jeunes Socialistes. O seu intuito expresso era o de permitir aos operários a aquisição de bens de retalho a preços acessíveis (soube isso por obscuros documentos que consultei, dias e noites a fio e durante vinte anos, na Bibliothèque Nationale – ou talvez por uma rapidinha na Wikipédia, não me recordo bem). Todos os produtos eram testados num centro independente e aqueles que não atingissem os padrões mínimos iam para uma “lista negra”. Os funcionários eram treinados de forma a conhecer a fundo a sua área e poder fornecer aos membros da classe trabalhadora todas as informações de que estes necessitassem.

Hélas, todos sabemos o quanto os operários mudaram desde então.

Aníbal e os elefantes

Como são bonitas, as famílias grandes. Olhe a da mulher de Ben Ali, o ex-governante de Tunísia. Cada um daqueles irmãos, tios, primos, sobrinhos, cunhados, enteados, genros e noras vivia chupando alegremente o seu pedacinho do país. Agora perseguem-nos: 33 acabam de ser presos. Caso para intervenção do braço cartaginês da Associação de Famílias Numerosas.

20.1.11

Convitação

(Clique para aumentar)

19.1.11

Bandeira de Papel

Bandeira de Canto, JN, Janeiro 2011


17.1.11

14.1.11

Manifestamente

Jamais coagirei alguém a fazer seja o que for. Seria ir contra um dos meus princípios mais queridos: o que diz que todo o ser humano tem o direito de decidir o que fazer da sua própria vida, ainda que isso implique tornar-se, sei lá, francês, membro de um clube de vídeo ou (the horror, the horror) filatelista.

Dito isto, reparei que um par de blogueiras iniciou uma greve de fome (no caso em apreço, atrevo-me a sugerir a expressão alternativa greve de apetite) pelo retorno do Lutz ao nosso, dos blogueiros, convívio. É com juvenil entusiasmo que me junto à sua, delas, corajosa luta. Saiba que este seu criado se absteve, hoje mesmo, de consumir o ensopado de cabrito que abrilhantava a ementa do popular Retiro do Chico; e que se contentou com um banal bacalhau à Brás, seguido de robusta fatia de pudim Molotov – não, não por concupiscência, acerbo leitor!, mas para que no doce se afogasse a amarga dor da renúncia.

E não se atreva a ver nisto uma forma de pressão ou outras coisas que manifestamente não existem.

12.1.11

A 5ª de Schubert



O fantasma de Mozart apareceu um dia a Schubert. Ambos falavam alemão, mas apesar disso cada um entendia o que o outro dizia. E ao cabo de algumas horas de boa conversa, Wolfgang perguntou ao colega:

“Não tenho mãos para o fazer eu mesmo; escreverias uma sinfonia por mim?”

Soubesse Schubert que morreria ainda mais novo do que Mozart e talvez não tivesse dito que sim.

8.1.11

Bandeira de Papel

Cravo & Ferradura, DN, Janeiro 2011

6.1.11

Questões de Moral

A minha filha, que faz vinte anos daqui por uns dias, diz-me que está “velha”. E pergunta-me: “Achas que já tenho idade para mentir sobre a idade?”

4.1.11

Ditongo Alentejano

“Sou uma mulher simples, mas não sou cega nem surda, Manel. É essa moça da cidade que veio morar aqui para a aldeia. Está fazendo de ti um tonto.”
O pastor afundou-se um pouco mais na samarra.
“Não digas disparates, Dores.”
“Estás vendo? Já nem pronuncias o –e em posição átona final como –i.”
“Tolice. Estou chupando uma azeitona.”
“E o –i em lugar do –e pretónico? E a ditongação de –e em –ei?”
Manel dobrou-se devagar e aconchegou as achas da lareira, tentando ganhar um pouco de tempo. Como não se apercebera que andava ditongando o –e?

29.12.10

Bandeira de Papel

Bandeira de Canto, JN, Dezembro 2010


24.12.10

Aaaaaaah.

Feliz Natal.

Bandeira de Papel

Cravo & Ferradura, DN, Dezembro 2010

18.12.10

Os escritores

Os escritores haviam de ser sujeitos a controlo anti-doping. E todos sabemos por quem deviam começar.

13.12.10

Dedicatórias de Paris

Librairie Eug. Rossignol, infelizmente fechada ao Domingo. Dedicada ao Valkirio.

Basquiat no Palais Tokyo. Dedicada à Io.

Opéra Comique em noite de Lully. Dedicada ao Luís M. Jorge.
 
O boulevard Saint Germain no início de um nevão. Dedicada à Tinta da China.
 
Vélos sous la neige. Dedicada ao Pipoco mais Salgado.


Bandeira de Papel

Cravo & Ferradura, DN, 13.12.2010

12.12.10

Mínimas

Todos os aforistas generalizam.

Barriguinha

O gozo começou assim que experimentei a t-shirt. Quando é que nasce o poneizinho, hahaha e coisas do mesmo calibre. Só pararam quando os ameacei de que, se persistissem, faria as minhas compras noutra loja.

Conto curto

Um Homem Seguro de Si passeava pela avenida e pensava para com os seus botões: “Um Arquitecto Famoso desenhou-me a casa; um amigo, Designer de Interiores, mobilou-ma; visto apenas a roupa que um Estilista Premiado desenha para mim e não como senão em restaurantes aconselhados pelo meu mordomo. Sou finalmente uma Pessoa de Bom Gosto”.

Vivendo comigo

Dois tipos entram num bar. Ou seriam três? Agora perdi­-me.

Crueldade civilizada

Conversar fazendo pausas embaraçosas.

Para quê?

Os parisienses de seiscentos não sabiam construir com tijolos. Quando Luís XIII (acho que foi Luís XIII, está lá uma estátua dele) ordenou que se erguesse uma praça com prédios em tijolo, eles construíram-nos em pedra e pintaram rectângulos vermelhos nas frontarias. (Entrámos na velha Place des Vosges já de noite. Percorremos as arcadas ataviadas com sedutoras galerias de arte, mas não nos aproximámos das paredes. Para quê? Deixá-los pensar, aos empertigados dos parisienses, que nos enganaram bem enganados.)

10.12.10

C'est dommage.


Ao contrário do que por cá foi noticiado, não houve nenhuma situação atmosférica de excepção que nos impedisse de regressar de Paris.
Rezámos toda a semana para que acontecesse, mas não aconteceu.

9.12.10

Não me tenho

com a excitação de saber que vou assistir ao debate entre Cavaco e Alegre. Devia haver, nas entradas de todas as cidades do país, contadores luminosos decrescentes.

30.11.10

Bandeira de Papel



Bandeira de Canto, JN, Novembro 2010


À lareira

De partida para Paris, onde estão – só vimos ontem – temperaturas máximas negativas.
Ok, talvez deva levar antes duas t-shirts.

29.11.10

Bandeira de Papel



Revista Obscena, Julho 2008



25.11.10

Um livro 5 estrelas


É já no próximo Sábado, dia 27, impaciente leitor, que vai ter lugar o lançamento de O Fio à Meada, uma colectânea de textos sobre o programa espacial russo (Russki Spasski Progriama), ou talvez de diálogos com personagens famosos, agora assim de repente não me lembro bem. Só sei que os cosmonautas, ou os autores, são dez; e que eu também vou lá dentro, provavelmente para ser sujeito a experiências sobre a capacidade de resistência dos corpos no espaço.

Cada membro da Assistência (reparou na inicial maiúscula?) terá direito a um lançamento contra os contistas presentes, entre os quais se inclui este seu criado. Os volumes que acertarem no alvo serão, naturalmente, assinados. Eu estarei disfarçado de Adriana Nogueira, professora de Estudos Clássicos na Universidade de Faro. A Adriana irá mascarada de marmanjo de barba grisalha e ar de quem não entende muito bem qual o seu lugar no Universo. Poderá desmascarar-me forçando-me a falar: não sei camuflar a minha voz de barítono. O Miguel Neto, editor, servirá guardanapos de papel para os croquetes que poderá adquirir no bar a um preço escandaloso.

Quase me esquecia de dizer que o lançamento do Sputn… perdão, do livro será às 17 horas, na FNAC do Vasco da Gama, em Lisboa. A organização deste evento obrigou ao término da Expo 98. Após as 18:30, o local passará a chamar-se “Parque das Nações” (achámos que era um nome com pintarola).

Apareça, vá lá. O que é que eu tenho de fazer? Hã?

Bandeira de Papel: A Greve Geral

Cravo & Ferradura, DN, 24.11.2010

21.11.10

Sem palavras

Conheci o Pedro Beça Múrias. Não chegámos a ser próximos: estivemos juntos mais do que uma vez e conversámos longamente certo dia, durante um almoço/entrevista que foi muito mais cumplicidade, riso e boa conversa do que entrevista propriamente dita.
E hoje senti a falta do tanto que poderíamos ainda conversar.

Bandeira de Papel

Um diletante e um jardim entraram um dia num bar

A minha mãe sente-se mais só aos fins-de-semana, quando na avenida fecham as lojas e os cafés e a lufa-lufa esmorece. Quando o meu pai era vivo, ela não sentia essa solidão, claro, ele era um homem tão activo. Até ter bem mais do que sessenta anos, divertiu-se saltando de curso em curso: de Medicina para Línguas Clássicas, daí para a Petrologia, passando pela Álgebra, pela Botânica, pelas Belas-Artes. Sem meios de subsistência, sobrevivia pintando e escrevendo sebentas que os outros alunos lhe compravam.

A minha mãe assinou hoje a petição a favor do Jardim Botânico. E escreveu lá na caixinha para comentários que aquele era o jardim favorito do meu pai. Faz sentido, pensei, fica mesmo ao lado da Faculdade de Ciências, que ele frequentou. Mas comovi-me, caramba. Não fosse eu o céptico que sou e estaria explicado por que razão me sinto ali como em casa.

20.11.10

Please refund

Livros áudio têm os seus contras. Entre outros, o de não se poder abri-los numa página ao acaso para, por exemplo, saber em que língua estão, eh, lidos. E no entanto, ele há coisas que faz sentido comprar em alto e bom som, como a celebrada prelecção do Dr. Yossi Ben Tolila sobre Heinrich Heine que, tanto quanto julgo saber, hélas, não existe em papel (aproveito para perguntar: para quando uma edição comentada dos discursos de Jorge Sampaio e Aníbal Cavaco Silva?).

Eu não ouço realmente essas coisas, note o nefelibata leitor, apenas as passo na aparelhagem para tentar impressionar a cara-metade. Eis a razão pela qual não fiquei incomodado quando me apercebi de que o Dr. Tolila fizera toda a sua prelecção em hebraico. Agora que os livros áudio têm os seus contras, isso têm.

Bandeira de Papel

18.11.10

O Botânico

E que tal

…assinar a Petição em defesa da Missão do Jardim Botânico e da sua sustentabilidade ambiental, social e económica a longo prazo. Revisão imediata do Plano de Pormenor do Parque Mayer, Jardim Botânico, Edifícios da Politécnica e Zona Envolvente? Apesar do nome, é uma Coisa Boa. Funciona assim: o leitor, cómoda e rapidamente, assina; os responsáveis, alertados, apercebem-se de que existem muitas pessoas preocupadas com o que eles estão a planear fazer na zona do Parque Mayer e Jardim Botânico; por fim, lavados em lágrimas, arrependem-se e alteram os seus pontos de vista, salvando as árvores e outras plantas nossas amigas de um destino cruel. Hum? Vá lá.

16.11.10

Bandeira de Papel


Cravo & Ferradura, DN, Outubro/Novembro 2010

15.11.10

[...]

A tristeza é um estado de calma.

13.11.10

Turner y los Clic

É proibido tirar fotografias na maior parte dos museus e mostras de arte. Não gosto, mas compreendo a interdição. Eu não quereria visitar uma exposição de, digamos, Matisse ou Gauguin com todos aqueles flashes convertendo a experiência numa performance estroboscópica e transformando em cores vivas a subtil paleta pastel característica das obras deles (é uma verdade cientificamente comprovada que a maioria dos utilizadores de câmaras digitais não apenas não sabe desligar o flash como acredita que se trata de um relâmpago caindo num momento de sorte). Além do mais, os museus e as galerias precisam desesperadamente de vender os seus próprios produtos de merchandising. Onde encontrar hoje uma reprodução da Mona Lisa numerada e assinada pelo autor a não ser na lojinha do Louvre (desça as escadas, primeira porta à direita logo a seguir ao WC das senhoras, a senhora Gagnebin tem a chave)? As que andam por aí são todas piratas e, desde que um tal Duchamp teve a ideia, muitas vêm com bigodes e pêra bem maiores do que os do original.

Muito mais alto do que a solidariedade para com galerias e museus, porém, fala a minha costela libertária. Na visita que recentemente fiz ao Prado para ver a pintura de Turner e seus mestres, não tive mão em mim e atrevi-me. Houvesse o leitor assistido como eu assisti à humilhação a que um iracundo funcionário (iraconde fonctionnaire) sujeitou um pobre turista mochileiro (touriste mouchilier) apenas porque ele apontou o telemóvel à namorada, houvesse assistido a isso, dizia, e teria tido, como eu tive, vontade de fotografar a exposição inteira. Pois foi o que fiz. Há coisas a que um português solidário não pode assistir e simplesmente ficar quieto.

“Mas, mas, já viu o que arriscou? Podia ter ido parar à Bastilha, onde o manteriam para sempre, comendo coxinhas de rã e bebendo Château Lafitte!”, ouço angustiar-se o afectuoso leitor. Bom, é certo que os gauleses não têm sido meigos para com os seus estrangeiros, mas note que eu estava em Madrid.

J. M. W. Turner
Tempestade de neve: Aníbal e o seu exército atravessando os Alpes,
óleo sobre tela, 146 x 237,5 cm, Londres, Tate.

J. M. W. Turner
Roma vista do Vaticano: Rafael prepara os seus quadros para a decoração da Loggia
(ao centro, em baixo). Óleo sobre tela, 177,2 x 335,3 cm, Londres, Tate.

Claudio de Lorena
Porto com embarque de Santa Úrsula, 1641, óleo sobre tela,
112,9 x 149 cm, Londres, National Gallery.

10.11.10

Uma relação que deu em nada

A Netcabo deslargou-me. Melhor dito, que a língua e a culpa são duas coisas importantes para manter a sociedade coesa e tal, eu é que a deslarguei a ela. Por conseguimentemente, o endereço de e-mail que eu lá tinha será insultado por um deputado, feito em cacos e por fim atirado ao Trancão. Daqui por diante, quem enviar e-mail para bandeira[obaoba]netcabo.pt será sujeito a uma inspecção da Direcção-Geral de Contribuições e Impostos e verá a sua viatura coimada pela EMEL, mesmo que tenha estacionado em Bragança ou conduza apenas uma prancha de bodyboard.

Depois não diga que eu é que sou sacaninha, que não avisei e não sei que mais.

E este é para oferecer em qualquer ocasião.

Nazareth, linda praia de banhos (II)

Adenda
Mal as espreito no ecrã do PC, percebo que as fotos em baixo são, à excepção talvez da primeira (fosse este blogue um catálogo de exposição e eu escreveria que
convoca um universo maludiano e tal e tal), clichés. Mil perdões, mas publico-as na mesma. É difícil não se ser banal quando o vento insiste em empurrar-nos para o lado oposto àquele para onde queremos ir (prefere que visitemos o da falésia, decerto bem mais interessante), quando nos apercebemos de que, mesmo a cento e cinquenta metros acima do nível da água do mar, a chuva é salgada, ou quando olhamos a impressionante massa líquida sofrendo espasmos lá em baixo e imaginamos que toda aquela brutalidade pode ser contida num ridículo cartão Sandisk.
Em ocasiões como esta, haverá sempre fotógrafos atoleimados registando clichés. Eia, eia, viu aquela onda? Fotografei.
(Clique para aumentar)

4.11.10

Máquina do Tempo

Bandeira de Canto, JN, 2004/5

3.11.10

A República e a Modernidade



Daqui até aos Açores é um pulinho (mas a nado é esticado, depois não diga que não avisei). Que o facto de eu participar não o coíba de ir, prometo ser breve, não falarei mais do que cinco horas. Seguidas. Diz-me a experiência que esse é o limite a partir do qual a plateia começa a partir para a violência. Hahaha, estou a brincar, é logo a partir da meia hora. Ok, quinze minutos. Mas o meu é um caso especial.

O Sábat merece

Escrever “pechinas”, “saco azul do IKEA” e “manipansos” (duas vezes, mesmo se uma delas citando Pessoa) no mesmo texto; e sair uma coisa assim. Mas ok, o Sábat merece.

2.11.10

Os sapatos de um homem

Dizem que para compreender um homem devemos andar um quilómetro com os seus sapatos. É uma posição filosófica razoavelmente segura: se ainda assim não o compreendemos, estamos a um quilómetro de distância e temos os sapatos dele.

31.10.10

Tempo agreste

Disse ao barbeiro que o cheiro da espuma no pincel me fizera lembrar o do meu pai, pela primeira vez desde que morrera, há já quinze anos. Também ele usava pincel e navalha.
“Morava ali em cima da papelaria, não era?”
“No prédio ao lado. Vinha sempre aqui cortar o cabelo.”
“Lembro-me muito bem.”
Guardámos silêncio durante alguns minutos. Depois comentámos o tempo agreste que se estava a levantar.

30.10.10

Todos os livros são iguais? Mmmhbem...


Na contracapa de um livro que tenho em mãos (não importa que livro, é sobre sexo, ok?), pode ler-se (tradução caseira, realçados meus):

“UMA EDIÇÃO DOVER CONCEBIDA PARA ANOS DE USO!
Não nos poupámos a esforços para fazer deste o melhor livro possível. O nosso papel é opaco, com um grau de transparência mínimo; não descolorará nem ficará quebradiço com o tempo. As páginas são encadernadas em fascículos, no método tradicionalmente usado para os melhores livros, e não se separarão. Os livros permanecem facilmente abertos para eficaz consulta. A capa não criará fendas nem se destacará. Este é um livro permanente.”

Emocionei-me, chorão leitor. Examinei demoradamente a capa. Assentei o volume numa mesa para averiguar se era capaz de se manter aberto num local contendo a reprodução de uma foto… ahm… interessante. Estudei a lombada, a textura das folhas, a sua opacidade. Lembrei os tempos, não tão longínquos assim, em que o papel era fabricado a partir de algodão ou linho: na I Grande Guerra, Londres ainda pedia roupa velha para o fabrico de panfletos e qualquer outro produto que contribuísse para o esforço de guerra, como mortalhas de cigarro e cartas de jogar. A coisa durava os conflitos regionais e mundiais que fosse preciso.

Depois, a celulose; e com ela, o papel de desgaste rápido. No processo, alterou-se o carácter das nossas florestas e fauna. Simpáticos koalas preguiçam hoje um pouco por todo o nosso lindo país de eucaliptos (ninguém os vê, mas isso é porque serão koalas, mas não são parvos). Papel feito a partir do pinheiro possui razoáveis qualidades, mas a nobre árvore leva o seu tempo a crescer; eucalipto é bem mais rápido. Não, tem toda a razão, experimentado leitor, de facto o papel não fica tão bom, mas isso é coisa para as crianças mais tarde terem alguma coisa para resolver para além do défice, da Segurança Social ou das alterações climáticas, não queremos que fiquem com a vida demasiado facilitada, queremos? Por todas as vezes que nos obrigaram a levantar da cama às quatro ou cinco da madrugada, não, um categórico NÃO.

Enfim, se acha que vale a pena deixar uma pequena biblioteca aos rebentos mas não tem espaço e a vizinha do lado não permite que instale mais estantes em casa dela, reflicta um pouco. Há por aí uns discos baratos que levam monstrabytes de livros digitais e duram, quê?, uma eternidade (desde que mantenha os seus filhos longe do teclado e o Universo não seja finito). E não me venha com a conversa de que não consegue ler num computador. Livros digitais podem sempre ser passados a papel. Pelo menos os que não estão protegidos contra impressão por essas empresas amigas do… eh… meio ambiente, digamos assim.

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Nota: Scott Vile (quem é Scott Vile? Não faço a mínima ideia) leu um panegírico muito parecido com o meu mas parece ter os “livros permanentes” da Dover em não tão boa conta (perdoe o litotes, mas é perfeitamente legal: já passa das cinco da tarde).

26.10.10

Bandeira de Papel

Cravo & Ferradura, DN, 25.10.2010

24.10.10

O que eu gosto de Mussorgski (aquilo é uma peruca?)

Acabo de chegar da Gulbenkian, onde assisti a uma ópera russa transmitida em directo do Metro de Nova Iorque, a tanto chega a crise, hahaha (desculpe, tentarei não repetir). Como é hábito, tive azar com os lugares. Os costumeiros candidatos à manobra de Heimlich estavam em qualquer outro local da plateia (senti-lhes a presença sobretudo no início do terceiro acto, quando ouvi um caroço de azeitona fazer ricochete na calva de um septuagenário sentado na terceira fila); em substituição daqueles, porém, a pessoa que me odeia na administração da Fundação enviou duas senhoras cuja característica mais notável era a de serem tecnicamente incapazes de parar de falar. Estavam sentadas mesmo atrás de mim e passaram o tempo todo na conversa. Para dizer a verdade, aquilo nem era conversa. Entrava A, uma dizia “olha A”. Saía B e a outra assinalava o facto: “Vês, o B saiu”.

Olhei para trás e constatei, não sem alguma surpresa, que se tratava de freiras. Surpresa porque não costumo ver freiras na ópera, em particular depois de apagarem as luzes, mas também porque Boris Godunov não é propriamente uma ópera popular nos corredores do Vaticano (sempre quis escrever “nos corredores do Vaticano”, mas agora que o fiz não sinto nada de especial). Não esqueça que os russos são um povo ateu de fé ortodoxa e por isso é que não há maneira de o país deles andar para a frente, o que decerto aconteceria se aqueles teimosos ao menos pensassem na hipótese de se converterem. O cenógrafo também não deve telefonar muito para Roma: o jesuíta envolvido com Marina (vá ver a ópera que aqui há limite de caracteres) mais parece um adepto de uma qualquer seita satânica, com a sua roupa de inspiração gótica, o seu penteado de corte diabólico e o seu par de enormes luvas vermelhas. Não fiquei com qualquer dúvida de que ele tem responsabilidades no défice.

Cedo se tornou claro que a condição de religiosas das duas senhoras influía na quantidade e qualidade dos seus comentários. Elas não se limitavam a constatar que “A entrou” ou “B saiu”; emitiam até opinião, sobretudo versando questões de índole litúrgica. Por exemplo, os ortodoxos benzem-se da direita para a esquerda, pormenor que não escapou às freiras no último acto, quando alguém do coro obrigou um jesuíta (que tencionava mais tarde, quando tivesse tempo, enforcar) a fazer o sinal da cruz às avessas. Foi uma emoção. De cada vez que alguém erguia as mãos para os céus e orava, o que um russo do século XVI fazia cerca de dez vezes por minuto (e até um pouco mais do que isso, quando a barba o permitia), elas cantavam, baixinho mas cantavam (como diria Dave Barry, juro que não estou a inventar isto). O maior frisson, porém, vinha-lhes quando o patriarca de Moscovo – para os menos versados em questões religiosas, uma espécie de papa mas usando barba grisalha e roupa da Zara – entrava em cena. Aí era uma festa, com dúzias e dúzias de comentários comparando a pose e a indumentária do patriarca com a do bispo de Roma. Pelo menos nesse ponto, convenhamos, elas ficam a ganhar.

“Mas por que carga de água é que não lhes pediu simplesmente para se calarem?”, ouço desabafar o ímpio leitor. Ora, não é assim tão simples mandar calar uma freira, acha que sou o quê? E se para um português é muito difícil mandar calar uma freira, que dirá duas e com mais de sessenta anos. Cada uma.

Tirando isso, adorei a ópera.

20.10.10

Familiaridades

A Citadina escreve que “Sabes que estás velha quando alguém com quem praticas desporto semanalmente é incapaz de te tratar por tu, não importa quanto lhe peças”. Conheço tão bem essa sensação. Enfim, não propriamente quando estou a “praticar desporto”, tenho apenas uma noção muito vaga do que isso significa, li em livros e assim. E quando começam a dizer que é “por respeito aos cabelos grisalhos” e coisas de semelhante jaez (a propósito, sabes que estás a ficar velho quando te apercebes de que já ninguém senão tu escreve “jaez”), dá vontade de matar. Ok, às vezes mato mesmo, mas não pode ser sempre, dá nas vistas. Então começo a desferir pontapés enquanto emito guinchos à Bruce Lee (a propósito, sabes que estás a ficar velho quando te apercebes de que já quase ninguém sabe o que é um guincho à Bruce Lee).

Enfim, mas o que eu queria mesmo dizer era que, regra geral, ao terceiro pontapé guinchado já estão a tratar-me por tu. Ou pior.