8.2.10

Etiqueta de Ópera

1. Por favor chegue a horas. Esteja no seu lugar antes que a cortina suba. Então levante-se e saia.

2. Não pateie nem apupe antes do início do espectáculo. Isso apenas fará com que pareça tolo. Espere pelo menos quinze minutos. Isso fará com que pareça entendido.

3. Tente não falar durante o espectáculo: aguarde o intervalo. Esta regra não se aplica, evidentemente, se conhecer a pessoa com quem está a falar. Se o leitor é um dos membros do elenco, experimente cantar em vez de falar.

4. Regra geral, a morte dá-se muito devagar nos espectáculos de ópera; caso se sinta mal, é seguro esperar pelo intervalo antes de chamar uma ambulância.

5. Se ocorrer uma morte em palco, por favor seja paciente: não se manifeste antes que as luzes se apaguem por completo. No teatro de ópera, os moribundos chegam a reanimar-se três ou quatro vezes antes de por fim se finarem, e não é invulgar que um homem a quem partiram as pernas e deram três tiros nas têmporas assuma de novo, e por vários minutos, a posição erecta. Se as luzes se apagarem por completo e continuar a ouvir música, consulte urgentemente um oftalmologista.

6. Por favor não trauteie nem acompanhe a melodia com sussurros, a não ser que se chame Glenn Gould.

7. Não use leitores de mp3, ou outros aparelhos de emissão de som com auriculares, durante o espectáculo. Isso pode dar aos artistas a sensação de que não está interessado no seu desempenho. Os auscultadores impedi-lo-ão também de tomar nota do que vai acontecendo de forma a poder, mais tarde, denunciar fífias ao maestro e ao encenador.

8. Desligue telemóveis, pagers e outros aparelhos produtores de ruído. “A minha mãe pode precisar de me ligar” não é uma desculpa aceitável. Nos maiores teatros de ópera de certos países, contudo, o uso de armas é permitido. Informe-se das condições com antecedência.

9. Faça as suas necessidades antes da subida da cortina, ou ficará exposto perante toda a assistência.

10. Leia o enredo da obra antes de ir ver o espectáculo. Isso deve demorar entre um e três minutos para uma ópera de três horas e meia, contando com o tempo para ir buscar os óculos.

11. Dê livre azo às emoções que a música e o enredo lhe suscitarem. Isto é muito mais fácil de conseguir num camarote.

12. Deixe-se enlevar pela história e pela música. Desfrutará melhor o espectáculo se conseguir uma suspensão da realidade. Por favor note que o tempo diegético e o tempo real não têm a mesma duração. É bem possível que, ao sair do teatro de ópera, perceba que passaram vários anos e lhe nasceu um sem-número de filhos.

13. Não atire garrafas de água e outros objectos para o fosso da orquestra. Há pessoas lá dentro.

7.2.10

Bandeira de Papel


Cravo & Ferradura, DN, Janeiro/Fevereiro 2010

5.2.10

O filósofo inexistente

De Pitágoras, o cujo se encontra hoje sob suspeita de jamais haver existido – facto que, a ser verdadeiro, deixaria o teorema que lhe carrega o nome numa situação, no mínimo, incómoda –, conta-se que morreu (se tivesse existido, vá) de duas formas que não podiam ser, o leitor adiante verá, mais díspares.

Porfírio, autor de uma Vida do Filósofo que se Pensa não Ter Existido, jura que Pitágoras foi morto quando, perseguido pelos sequazes de um tal Cilo (que andava desgostoso com a falta de deferência com que o ectoplasma o tratava), se viu travado por um campo de favas, tendo preferido deixar-se trespassar por lâminas muito afiadas a arriscar-se a esmagar, na fuga, a cabeça de algum antepassado.

Já o comediógrafo ateniense Hermipo alega que o filósofo inexistente foi chacinado por soldados de Siracusa durante a guerra que a cidade travou com Agrigento. Os pitagóricos, suspeitos primeiros da invenção de Pitágoras, terão alinhado com os agrigentinos e ditado com isso a sentença de morte do seu mentor imaginário que, entalado entre o inimigo e um campo de favas, não teve alternativa que não fosse deixar-se trucidar por aquele.

O filósofo inventado faz a sua aparição também nos Diálogos dos Mortos de Luciano, no acto de tentar sacar a Menipo, no Hades, qualquer coisa que se petiscasse (desculpe a adaptação demasiado livre, mas não importa, diz que o homem nem sequer existiu):

”Estava aqui a pensar, Menipo, se terás alguma coisa que se coma nessa tua sacola.”
“Só favas, meu amigo, e tu não comes favas.”
“Passa para cá. Os meus princípios alteraram-se com as circunstâncias. Descobri que, cá em baixo, as favas não têm qualquer relação com as cabeças dos nossos antepassados.”

Em Florença, pela Primavera,

acenderei um fósforo na Piazza della Signoria, onde as chamas ateadas pelo papa Bórgia consumiram o dominicano Savonarola, ele mesmo zeloso atiçador de fogueiras de livros e obras de arte, incluindo algumas de Botticcelli que (gabou-se) atirara ao fogo com as suas mãos rijas de ferreiro de Deus. Depois, em Ponte Vecchio, deitarei ao Arno o que restar do fósforo queimado; e como Maquiavel, que a tudo assistira, rirei com um esgar que pedirei emprestado a um diabo qualquer.

Há que tempos que aqui não escrevo

por uma excelente razão, a saber, nenhuma em especial. Esclarecido este ponto,

[eu corando um pouco]

avancemos com uma afirmação retumbante, mas auto-evidente – a de que 2010 vem sendo um annus horribilis. Tentarei mudar o estado das coisas. Ainda há espaço de estacionamento para a salvação, se a manobra for bem executada e o arrumador mostrar competência.

3.2.10

Meia dúzia de tâmaras

Disfarçado de peregrino, um rei cristão aproximou-se certo dia de um mercador no exterior das portas de Alepo, tencionando comprar meia dúzia de tâmaras. O vendedor, porém, vislumbrou sob o pano cru a cruz rubra de um cruzado e disse:

“Lamento, mas só vendemos por atacado.”

O rei agradeceu e retirou-se. Deu ordens para que se organizasse o seu exército, sitiou a cidade e, ao cabo de muitos anos de furiosos recontros e atrozes sofrimentos de parte a parte, declarou vitória.

O mercador vendeu então meia dúzia de tâmaras ao rei dos cruzados, após o que este se dirigiu a um porto próximo, onde o aguardava o navio que o transportaria até às propriedades que, anos antes, havia conquistado na Sicília por um processo semelhante.

Dois ou três séculos volvidos, Tamerlão estava às portas de Alepo, disfarçado de peregrino, para comprar meia dúzia de tâmaras; mas os mercadores, a quem os mais velhos haviam contado a já longínqua história do rei cristão, conheciam o estratagema e mantiveram-se em silêncio.

O terrível conquistador entendeu, contudo, arrasar a cidade, acto que a História, generosa, lhe perdoou.

30.1.10

Not Toulouse

Sabe onde vai estar amanhã, Domingo 31, pelas 11.30, lisboeta leitor? No jardim do Príncipe Real, anotando no seu bloco Castelo o que o Rui Pedro Lérias vai explicando sobre as características botânicas do local e, sobretudo, tentando perceber – não creio que seja fácil – o que está a CML a tentar fazer ali. Eu acho que tem a ver com candomblé, mas não estou seguro. Ontem à noite passei por lá e apercebi-me de que o espaço está rodeado de vedações, pelo que não há sequer garantias de que se possa entrar. Ou sair. A visita durará uma hora – ou um pouco mais, se fecharem os visitantes lá dentro – e, tal como o abate de tantas árvores por esse país fora, é completamente gratuita.

Passo a citar o e-mail que o entristecido mas heróico Rui Pedro Lérias me enviou:

”Os ‘Amigos do Príncipe Real’ consideram esta visita a melhor forma de explicar as razões que nos têm oposto e que nos continuam a opor à intervenção da CML, ao mesmo tempo que viajamos da Grécia à Nova Caledónia, visitando as árvores do jardim. Sabe, por exemplo, porque é o Cedro do Buçaco duas vezes mentiroso? [nota do BV: eu sei, eu sei mas não digo] E sabe que está previsto o abate de 62 árvores no jardim desde Janeiro de 2009 e que a CML quer plantar árvores cuja plantação é ilegal em Portugal?”

Por fim, uma outra nota triste, aqui.

29.1.10

Cliché



Nada como uma insónia e uma constipação para fotografar clichés. No caso, a alvorada sobre a Serra dos Candeeiros. Observe com atenção e talvez consiga ver Lúcifer, o portador da luz em tempos pré-cristãos, correndo com um archote à frente do carro de Eos, a aurora. Talvez consiga até ouvir Títono, o infeliz amante da deusa, a quem Zeus concedeu a imortalidade mas não a juventude eterna e se viu reduzido, com o tempo, ao monótono canto de uma cigarra.

Mamute de garfo e faca

Percebo tanto de restaurantes quanto um crítico culinário, pelo que evito dar alvitres sobre o assunto. Almoçar ou jantar num restaurante escolhido por mim – regra geral aleatoriamente numa rápida pesquisa do Google Maps – tem, vá, 50% de hipóteses de proporcionar aos convivas o benefício de uma lavagem de estômago nas 48 horas subsequentes ao repasto. Digo benefício porque (admita-o, estamos entre amigos) isso é coisa que o leitor passa por água tão raramente, não é? Pois, somos apenas humanos e tal.

Acresce que fico ansioso e começo a incomodar o telemóvel do meu neurologista quando dou por mim em ambientes apinhados de gente, pelo que tendo a favorecer locais menos concorridos ou até completamente vazios, os cujos, estão fartos de me explicar isso mas eu não aprendo, são pouco concorridos precisamente porque nem uma barata ali almoçaria ou porque – sucedeu-me mais do que uma vez – foram fechados há anos pela polícia.

Oh, ok, confesso-o. Tenho saudades daqueles bitoques repugnantes servidos em sebosos pratos de metal em snack-bars (ainda se diz assim?) e cervejarias insalubres. Já lá vão uns vinte ou trinta anos, “enologia” era uma palavra estrangeira, a única coisa que nos interessava a respeito da cerveja era se estava viva ou morta e haute cuisine era uma kitchenette que ficava num último andar.

Dos meus tempos de faculdade, as cervejarias de que guardo mais saudades eram mesmo as piorzinhas de todas, aquelas que por nos serem tão repugnantes nem pelo nome as conhecíamos: usávamos uma vaga referência geográfica ou um nome alternativo e invariavelmente insultuoso, como “o Mete-Nojo” ou “o Gregório”. Possuíam quando muito um balcão corrido com bancos, algumas mesas de madeira bem sólida com toalhas sujeitas a lavagem hebdomadária, empregados de linguagem colorida e, quase sempre, gente no exterior, aguardando um momento de equilíbrio que lhes permitisse transpor a entrada sem dar com a testa numa das quatro ombreiras da porta.

Amanhã, pelo meio dia, conto estar no Minho, degustando, por iniciativa de quem sabe mesmo destas coisas, um arroz de lampreia que adivinho digno dos deuses. Até lá, por favor mantenha segredo sobre esse meu passado gastronomicamente indigno. Nem toda a gente precisa de saber que sou um troglodita que come mamute cru de garfo e faca, ou precisa?

Glasnost

Quem, como eu, trabalha há tanto tempo com (não “em”) política, acaba por reter na memória alguns episódios hilariantes*. No período da Glasnost, por exemplo, Gorbachev sujeitou-se várias vezes a ser entrevistado por jornalistas ocidentais. Um deles lembrou-se de lhe colocar uma questão algo rebuscada, a saber, “Que rumo poderia a História ter seguido se, em vez de Kennedy, tivesse sido Khrushchev o assassinado em 1963?”.

Gorbachev pensou um pouco – não muito, ele era repentista – e respondeu,

“Não creio que o senhor Onassis tivesse casado com a senhora Khrushchev”.

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* Não é o caso deste exemplo, que li algures há pouco tempo e publiquei aqui apenas para fazer figura.

Pronúncia

Heywood Broun disse certa vez que “Se alguém corrige a nossa pronúncia em público, temos todo o o direito de lhe esmurrar o nariz”. A questão que de imediato se nos coloca: Quem raio é esse Einãoseiquê Brum?

25.1.10

La Musica

Noite de Sábado no Pequeno Auditório do CCB. Eu pedira um lugar junto ao corredor para, na eventualidade de um acometimento de tosse desses típicos da minha condição de constipado, melhor me pôr de pé e ser ouvido por toda a plateia. Não conhecia La Musica, a obra de Marguerite Duras que Solveig Nordlund (se eu escrevesse um conto em que entrasse, sei lá, um quebra-gelos, ou talvez uma beluga, dar-lhe-ia esse nome, “Nordlund”) agora adaptou para palco. “Obra” é uma palavra adequada, porque a maior parte do cenário – que incluía um pequeno hall de hotel com uma porta giratória, um tapete, alguns sofás, uma poltrona, uma mesinha de centro, um móvel para o telefone, uma cadeira para o eventual telefonante e uma barata de borracha, aliás muito difícil de ver – consistia em painéis de obras. Um pianista, imerso em sombras no lado esquerdo do palco, usava um fato-macaco pintalgado de tinta. Uma caixa de ferramentas parecia esquecida sobre a mesinha de centro, uma das pontas de fora, como esses operários são descuidados e tal, mas não estava mesmo esquecida, no teatro tudo tem um propósito. A ideia, de acordo com a encenadora, era sublinhar “a intemporalidade da peça”. Achei isso muito bom.

Em palco surgiram, em tempos diferentes, dois personagens. Um ex-casal que, parece, ainda se amava. O encontro no hotel, que era o mesmo em que a relação deles havia começado, tivera lugar para que se assinasse a papelada do divórcio e cada um pagasse a sua parte do imposto de selo. Ambos falavam ocasionalmente ao telefone com os seus amantes actuais que, manifestamente inseguros com a situação, insistiam em ligar. Os silêncios, que nestas ocasiões são sempre carregados de significado, iam sendo (muito bem) comentados pelo piano.

Foi pelo telefone, um antigo modelo em baquelite equipado com alta-voz, que soubemos que um tal Jacques vinha buscar a mulher e se demoraria cerca de uma hora.

“Uma hora“, pensei, “há-de ser o tempo que falta para acabar a peça”, e recostei-me na cadeira. Eu estava a gostar, apesar dos toques de telemóvel (agora faço questão de ligar para toda a gente que conheço – quatro pessoas, cinco se contar com a empregada – a perguntar se tencionam ligar-me e, após a invariável negativa, deixar o meu aparelho em casa), do pager de um provável médico que, compreensivelmente chateado, saiu a correr, de a senhora atrás de mim se ter entretido a torturar o tempo todo o que me pareceu ser um furão que trazia dentro da mala e do facto de toda a gente na sala tossir e fungar, afinal, mais alto e melhor do que eu.

Certo é que estava a apreciar a peça, não obstante alguns detalhes menores (sei que parece tautologia, mas alguns detalhes são mesmo maiores do que outros). E no entanto, não teriam passado uns vinte, vinte e cinco minutos desde o início – o furão parecia haver finalmente morrido – quando a personagem feminina se dirigiu, com grande determinação, para a porta giratória. As luzes do lado de fora aumentavam de intensidade, mostrando que, no tempo diegético (gostou?), era já dia. Pensei com muita força: “Não saias! Se sais, a peça acaba! Não sai…”. Mas ela saiu, e a peça, como eu previra, acabou.

A sala estava agora completamente às escuras – as luzes são, julgo, activadas por palmas –, mas a assistência demorou uma embaraçosa eternidade a perceber que tudo havia terminado. Claramente, poucos haviam já assistido a peças de Beck… espere, essa peça não era de Beckett, esqueça isso. Enfim, dizia eu, a assistência queria mais.

Não houve. E a propósito do título da peça, La Musica, ocorreu-me isso de os temas pop terem mais ou menos três minutos apenas por ser essa a capacidade máxima de um disco de 45 rotações.

Então saímos para o frio dos corredores exteriores do CCB e pensámos, cada um por si, no amor, nesses pequenos grandes mistérios que a vida tem e onde é que poderíamos ir beber um copo na noite que ainda mal começara.

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Errata: onde se lê “que Solveig Nordlund (…) agora adaptou para palco”, deve ler-se “sobre a qual Solveig Nordlund (…) agora trabalhou”.
Obrigado à leitora que, num comentário, chamou a atenção para a estultícia; este blogue reserva-se o direito, no entanto, de continuar a publicar disparates.

21.1.10

Ensaio sobre a cegueira

Sabe esse Allergodil de quem falo em baixo, comiserado leitor? Percebi hoje que tem um irmão gémeo. Idêntico nas feições, mas com nuances nas tatuagens e bem mais desenvolvido em altura. Na Távola Redonda da Medicina, o baixinho Allergodil é Cavaleiro dos Olhos, ao passo que o irmão mais alto é Campeão dos Narizes.

A farmacêutica que me forneceu o Allergodil é que parece não distinguir os galantes cavaleiros um do outro, e eu, desconfiado embora da forma pouco… eh… ergonómica do aplicador de gotas, vinha desde há dois dias sujeitando os meus olhos a uma espécie de desentupimento nasal. As dúvidas surgiram logo com os ardores, quase insuportáveis aquando da aplicação propriamente dita, e aumentaram com a total ausência de alívio. Quando subitamente comecei a ver you tubes de gatinhos nas paredes do escritório, decidi verificar as indicações que a farmacêutica escrevera na embalagem:

De 8 em 8 horas, uma gota em cada olho.

Então saltou-me à vista (hahaha, entendeu?”saltou-me à vista”, muito bom) o vocábulo “nasal”, bruscamente conspícuo no meio de uma qualquer frase no exterior da caixa. Retirei a bula do interior e li-a com as mãos trémulas de quem confere os resultados de umas eleições presidenciais.

Estava, agora sem sombra de dúvida, na presença do Campeão do Nariz.

Arrastei-me para outra farmácia, onde a estupefacta técnica confirmou a minha tese e me vendeu o produto correcto. Explicou-me que eu tivera até sorte, porque sabia de “um caso de cegueira por aplicação, nos olhos, de gotas para os ouvidos”. Felizmente as minhas vias estavam suficientemente desentupidas para que eu pudesse respirar bem fundo. À medida que os empregados e clientes da farmácia juravam que eu tinha bem mais que seis meses de vida e tentavam levantar-me do chão onde gemia e fungava, ia pensando que aquilo do livro de Saramago bem podia ter acontecido em virtude de um engano pateta como esse.

Até agora, não dei por sequelas resultantes do boticário equívoco – a não ser, talvez, essa singular impressão de sentir o cheiro das flores quando para elas dirijo o olhar, mesmo à distância, o que não deixa de ser, convenhamos, assaz aprazível.

20.1.10

Bandeira de Papel


Cravo & Ferradura, DN, 20/1/2009

Morre.

Conheço quem faça colecção de bichos esborrachados nas solas dos sapatos, mas isso não é para mim. Centopeias serão capturadas em copinhos de plástico e devolvidas ao exterior da habitação. Aranhas terão todas as hipóteses de fugir antes que eu destrua as suas teias, elas mesmas ardis letais. Caracóis escapar-me-ão sem qualquer dificuldade. Bichos-de-conta serão gentilmente depositados em arbustos frondosos. Moscas ver-se-ão enxotadas na direcção de janelas abertas. Inclusive melgas e vespas, só em defesa própria e após persuadir-me de que não conseguirei fazer com que entendam o erro dos seus modos. Mas vírus não é bicho: ele não tem sequer um metabolismo independente. Então, posso matar.

Dei ordem de ataque ao Proflox, ao Aerius, ao Allergodil e à Nimesulida.

Morre, vírus. Morre.

14.1.10

Todo um programa

Hoje fui chamado de “garboso e elegante jarro”. Concordo em absoluto com um dos apodos.

Não é snob quem quer

Gostei de saber que a Guerra e Paz deu ao prelo O Livro dos Snobs, de William Makepeace Thackeray, celebrado autor de Vanity Fair (A Feira das Vaidades). Não gostei menos de saber que a obra não foi amputada das ilustrações que para ela criou o próprio Thackeray. Sabia que o homem era feinho, barrigudinho, caixa-de-óculos e conhecia as irmãs Brontë? Só qualidades.

Há uma passagem no livro (compilado, acho, a partir de fascículos publicados na revista Punch, a mais séria e respeitável do Reino Unido e responsável pelo uso que a palavra “cartoon” tem hoje entre nós) que não resisto a traduzir. É certo que sem grandes esmeros: a consDiBação inibe-me o uso das minhas já de si exíguas faculdades mentais. Acresce que tenho de parar de dois em dois minutos para remover – por meios que o leitor, suspeito, desaprovaria, pelo que me inibirei de os mencionar – as excrescências que teimam em se me acumular nas cavidades nasais.

(Perdoe se a locução supra lhe mete nojinho, mas assim de repente não tive arte para me referir de modo mais elegante à tarefa de remoção amontoados de glóbulos brancos mortos em galhardo combate com micróbios, também eles, espero, completamente defuntos.)

Para encerrar de vez este aqui e ali desagradável mas necessário intróito, refira-se que o príncipe consorte a que Thackeray se refere é, naturalmente, D. Fernando II, o tal de Saxe-Coburgo etc., marido de D. Maria II:

“Dizem-me que num reino onde existe um príncipe consorte (há-de ser Portugal, pois a rainha desse país desposou um príncipe alemão, o qual é grandemente admirado e respeitado pelos nativos), sempre que o consorte se dá à diversão de andar aos tiros pelas coelheiras de Sintra, ou pelas tapadas de faisões de Mafra, ele tem, naturalmente, um couteiro para lhe carregar as armas, após o que são entregues ao camarista, e este fidalgo entrega-as ao príncipe, o cujo as dispara, e as devolve descarregadas ao fidalgo, que as entrega ao couteiro, etc.. Mas o príncipe não receberá as armas das mãos daquele que as carrega.

[Note as vírgulas antes das copulativas, que vergonha esse meu hábito, mas o William escrevia assim e em Inglaterra não são tão esquisitos com as vírgulas, é mais os infinitivos divididos]

Enquanto persistirem tais etiquetas monstruosas e anti-natura, têm que existir
snobs. As três pessoas envolvidas nesta transacção são, até ver, snobs.

1. O couteiro – o menos snob de todos, uma vez que se limita a cumprir os seus deveres diários; mas surge aqui como um snob, que o mesmo é dizer, numa posição de aviltamento perante outro ser humano (o príncipe), com o qual lhe é permitido comunicar apenas através de uma terceira pessoa. Um couteiro português livre que se confessa indigno de comunicar directamente com qualquer outra pessoa, é um snob.

2. O camarista é um snob. Se degrada o príncipe receber as armas das mãos do couteiro, não é menos degradante para o fidalgo aguardar que aquele execute o serviço. O fidalgo age como um snob em relação ao couteiro, prevenindo qualquer comunicação directa entre este e o príncipe, e como um snob em relação ao príncipe, a quem presta aviltante homenagem.

3. O rei consorte de Portugal é um snob por insultar os seus semelhantes desta forma. Nenhum mal lhe adviria de aceitar o serviço do couteiro de forma directa; mas indirectamente ele insulta as tarefas executadas, e os dois servidores que as levam a cabo; e assim, respeitosamente o afirmo, é um indubitável – real embora – snob.

E então lê-se no
Diario do Goberno [sic] – Ontem, Sua Majestade, o Rei, deu-se à diversão da caça nos bosques de Sintra, assistido pelo Honorável Coronel Whiskerardo Sombrero.

[Pausa para rir]

Sua Majestade regressou às Necessidades para almoçar, às, etc., etc..”

Bom, não é? E a filosofia da coisa, não lhe faz mesmo lembrar Hegel?

Prescrição

Tome esta constipação e uma insónia a cada duas horas.

13.1.10

Frases BV para o Dia dos Namorados (III)

Nada vejo no vasto oceano que se compare à tua beleza. Temos de voltar aqui de dia.

Pelos parcos cabelos

Há anos que venho pensando em deixar de conduzir. Depois apanho um táxi e isso passa-me.

12.1.10

Bandeira de Papel


Cravo & Ferradura, DN, 11.1.2010

10.1.10

A beira da falésia

Quando somos abalroados por um camião TIR – é de lei, informei-me, pensa o quê? – passamos a ter autoridade acrescida para demandarmos as Grandes Incógnitas do Universo e nos questionarmos sobre questões metafísicas do calibre de “Que é a morte?”, “Qual o objectivo da minha existência?” ou “Porquê eu e não o mete-nojinho do Almeida da contabilidade?”. Passaremos na rua com semblante meditabundo e as pessoas dirão, “ficou assim desde que foi arrastado três quilómetros por um camião TIR até à beira de uma falésia”, o que será falso, mas jamais negaremos, até porque não queremos que saibam que somos capazes de falar sobre o assunto: limitar-nos-emos a lacrimejar olhando o céu, temendo que as pessoas percebam que andámos a treinar para chorar sem rir.

Clube Treze

Em epístola que em tempos me endereçou, Oscar Wilde (para quando o Facebook, rapaz? Os correios estão com um atraso incrível) contou-me que havia sido formalmente convidado para jantar no Thirteen Club. O objectivo primeiro – e, julgo, único – da distintíssima agremiação consiste em combater e mofar-se da superstição sob todas as suas formas, incluindo isso de que não se coloca uma vírgula imediatamente antes de uma copulativa e que talher de peixe existe (quando na verdade apenas se distingue do de carne pelo cheiro). Nas mesas haveria treze lugares; da ementa constariam treze pratos; no final da refeição, teria lugar uma orgia de estilhaçamento de espelhos.

Diz-me o dear Boy, no entanto, que declinou o convite e que a vida lhe parece mais interessante quando apimentada com uma certa dose de arrebatamento místico. Não sei se concorde, por princípio sou até contra, mas a minha atitude face à superstição depende, em grande medida, das circunstâncias. Sabe aqueles funcionários de companhias de telefones e quejandos que assentam escadas no passeio? Em havendo espaço, sigo a lógica da aposta de Pascal (o cujo constatou que, havendo desvantagens em não acreditar em Deus e apenas benefícios em acreditar, mais valia ter fé e estava o assunto arrumado), passando pelo lado de fora da escada; não havendo espaço, ponho cara de quem acha tais crendices coisa de gente sem coragem para enfrentar os tornados dessa vida madrasta e passo por baixo (chego até a parar), peito feito e cabelo ao vento, não sem antes verificar se a escada está bem ancorada e o funcionário em estado de razoável sobriedade, é claro.

Oh, ok, talvez na passagem de ano devesse ter usado roupa interior azul.

Bandeira de Papel


Cravo & Ferradura, DN, Dezembro 2009 / Janeiro 2010

9.1.10

Colina acima

Anteontem, um furo; ontem, arrastado na EN8 por um camião TIR.
Hoje? Bom, hoje venho rezando para que o espaço aéreo esteja encerrado.

Eu devia ter suspeitado de que coisas bizarras estavam para me acontecer quando vi um lama

– um lama


na berma da estrada, em Porto de Mós.

Proibido proibir

Queria proibir a minha filha de continuar a celebrar aniversários atrás de aniversários, mas informa-me a minha advogada de que não posso, pelo menos não legalmente: a miúda já vai nos dezanove.
Parabéns, querida, apesar de insistires em negar essa vontade a teu velho pai.

99% de literassia, temos a gente

Calhou-me ontem usar a caixa Multibanco da estação de serviço de Torres Vedras para ver se conseguia transferir dinheiro da conta de alguém muito rico para a minha, o que infelizmente, e como sempre sucede, não foi possível, não sei quem foi o incompetente que programou aquelas máquinas. Do lado esquerdo do teclado, um autocolante prevenia os incautos:

ATM protegido
As notas serão inutilizadas em caso de abertura indevida.


Imaginei o meliante, imerso no seu indispensável barrete encardido, no acto de acorrentar a caixa à Ford Transit roubada; a cuja, traseira meio enfiada no lado ilegal da montra estilhaçada, aguardaria em delicadíssimo ponto de embraiagem a conclusão da tarefa. Então um colega de bando, notando o autocolante, interromperia a operação com desmoralizantes palavras:

“Lamento, mas este ATM está protegido, old sport. As notas serão inutilizadas em caso de abertura indevida.”

E ambos os vários assaltantes (queixas sobre o meu português para a Presidência da República, por favor) abandonariam, cabisbaixos e sentindo-se achincalhados pela Alta Finança, o objecto da sua cupidez, após o que procurariam uma mercearia que a essa hora ainda estivesse aberta, planeando rapinar o recheio da caixa registadora: frugal, na melhor das hipóteses, mas decerto não adulterável, ainda que em caso de abertura indevida.

8.1.10

Frases BV para o Dia dos Namorados (II)

Boas notícias! A minha queda de cabelo é reversível.

6.1.10

Há Neve no Cais (II)

(Clique para aumentar, mas só um pouquinho)









Casuística do Natal

A minha mãe ofereceu-nos uma Nespresso pelo Natal. Ficámos radiantes, naturalmente. Desde 25 de Dezembro que passamos as nossas noites em claro provando cafezinhos, tentando perceber qual dos cartuchos produz o efeito mais delicado, qual o mais intenso, qual o mais excitante, qual o mais exótico, tendo o cuidado de anotar tudo num caderninho. Trata-se de uma decisão importante: as recargas vendem-se em apenas duas ou três lojas e as senhas de atendimento pompeiam para cima de três algarismos.

Ontem tive consulta com o médico dos nervos.

Frases BV para o Dia dos Namorados (I)

És o cabide onde eu penduro a minha felicidade.

2.1.10

Há neve no cais

Vamos a caminho, vadio leitor, de Estradas Cortadas, extravagante localidade turística cuja maior – e única – atracção consiste em nunca se saber exactamente onde fica. Imagine o difícil que é conseguir uma reserva. O nosso maior problema nem é esse, porém, mas a gata Camila, que ficará três dias sozinha pela primeira vez nos dez anos que leva de vida. Lembre-se que dez anos de gato equivalem a bem mais do que isso num ser humano. Será como abandonar uma setentona em casa, fechada à chave, com acesso a apenas um copo de água choca e uma gamela de comida. Sem saber ler, escrever ou sequer usar o comando da TV.

E depois há essas histórias de horror que se ouve por aí sobre sofás eviscerados, picassos (temos uma pequena colecção com carimbos atestando que se trata de originais) convertidos em instalações de fibra óptica, vizinhos usando tampões de cera – não pergunte onde, fujo a cogitar no assunto – e parágrafos começando com conjunções. Ainda sugeri deixar o miúdo a tomar conta, mas o alvitre foi recebido com grande hostilidade. Quando a berraria esmaeceu, reflecti no assunto e achei que a contestação tinha alguma razão de ser (embora eu continue a desaprovar o uso de alimentos como arma de arremesso): seria razoável deixar para trás a razão primeira da nossa viagem? Até ali parecera-me evidente que sim, mas a parte da família que comanda achou que não. É certo que o seguro dificilmente cobriria a destruição do apartamento e que há um limite para o número de pizzas e latas de cola que cabem num frigorífico. E depois, temos a certeza de que o bicho pagaria para ter o rapaz bem longe dele. Podíamos recorrer a um veterinário, eu sei, mas é tão difícil encontrar um que aceite crianças nesta época festiva.

Assim, olhe, telefonaremos todas as noites para casa e pronto. A Camila não vai atender, é claro, mas pelo menos saberá que nos preocupamos. Espere… agora que penso nisso, se ela chegar a atender acho que ficaremos por lá.

31.12.09

Da conversão da Rússia

Em criança, eu pensava que a Rússia dos czares era uma nação atrasada porque aquilo a que chamamos “Revolução de Outubro” acontecera em Novembro. Sei agora que a décalage se deve a questões religiosas com não despiciendas consequências geórgicas, mas desde então tenho muita atenção com isso das datas. Jamais dou parabéns atempados a aniversariantes e nunca celebro uma efeméride sem antes proceder a uma investigação escrupulosa que, em regra, me toma vários anos e consome variadíssimos subsídios.
Compreenderá o benquisto leitor, tendo em conta o que acima escrevi, que me atrase um pouco nos desejos de felizes seja o que for, mas este ano abrirei excepção e gritarei à janela (fechada se a temperatura baixar dos oito graus),

Um 2010 supimpa para todos os leitores do BV!

Já o não-leitor do BV terá de esperar que eu conclua as minhas indagações e publique a monografia, mas previno-o desde já que a coisa está preta: tudo indica que hoje são, não 31 de Dezembro de 2009, mas 4 de Setembro de 1990, o que faz do dia de amanhã, quanta coincidência!, o do meu 27º aniversário. Estarei aceitando parabéns e lembranças entre as três e meia da tarde e as oito, após o que tentarei explicar aos meus filhos que, não tendo eles nascido ainda, inexiste qualquer justificação para alimentação, quanto mais para prendas e mesadas, as cujas exigirei de volta. Serei magnânimo, porém: não terei em conta, nem a inflação, nem compensações devidas por eventual estado de sucata dos objectos devolvidos.

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PS: Sei que estou atrasado nas respostas a comentários em vários dos últimos postes. Perdoe, que a época é propícia, perdoe. Assim que a ressaca melhorar um pouco, prometo, eu responderei.

28.12.09

Se não existisse comunicação, como calaríamos um insulto?

Hoje lembrei-me de como seria engraçado criar uma “rede social” (inventei agora a expressão, gostou?) na qual as pessoas pudessem ser amigas umas das outras sem se contaminarem mutuamente com vírus, bactérias e mau perfume. Pensei chamar-lhe “Rede Social onde as Pessoas Podem Ser Amigas Umas das Outras sem se Contaminarem mutuamente com Vírus, Bactérias e Mau Perfume”, mas depois achei isso um pouco pedante e decidi-me por Facebook, que é mais nosso, mais português. Pedi ajuda a um craque informático meu conhecido. O monstro nasceu. Para nosso grande espanto, após um ou dois segundos de vida já a rede tinha milhões de utilizadores. Não imaginava que as pessoas fossem capazes de digitar tão mais depressa do que eu, mas fico feliz pela aderência.

“Quer isso dizer que vai desdobrar-se entre o blogue e a sua página do Facebook?”, ouço perguntar. Não, não, inquietado leitor: estou terminantemente proibido pelo médico de fazer desdobramentos. Publicarei no Facebook essencialmente o que aqui for publicando. Nada mudará, a não ser o facto de passar a ter um monte de novos amigos que jamais terei o sumo prazer de conhecer.

24.12.09

Feliz Natal e tal

Acabo de despedir toda a equipa do meu Departamento de Comunicação (um gato) por não me ter prevenido de que hoje ia ser véspera de Natal. Como havia eu de ter adivinhado? Saindo à rua e olhando para as paredes? É muita incompetência.

Agora vai ter que ser assim, um pouco à pressa, prezado leitor, Feliz Natal e tal.

19.12.09

Passado o choque, darei pormenores

Este blogue passará a organizar, todos os 17 de Dezembro, o Jantar Anual dos Sobreviventes do Terramoto de 2009.

15.12.09

Aos Restauradores

Os autores do imprescindível Sintra, Acerca de, cujo conceito de “à volta de Sintra” é tão elástico que chega ao Buçaco (hahaha, desculpem, PV, eu tinha que escrever essa piadinha), alertaram-me para que o restauro do tecto da igreja do Santíssimo Sacramento, ao Chiado, estava concluído e pronto a inaugurar. Desloquei-me ao local, pedi um escadote e examinei o trabalho com toda a minúcia. Ficou um mimo.

As Autoridades solicitaram-me encarecidamente que cortasse a fita, mas foi-me impossível, dificuldades de agenda, sabe como é. Lá tiveram que pedir ao cardeal-patriarca. Coitado, ali nem há zona para fumadores.

Tirei fotos (apensas) para documentar a obra antes que aquilo tudo fique sujo com dedadas. Clique para as aumentar, mas por favor note que isso não aumentará a igreja propriamente dita nem é alternativa a uma deslocação ao local.

Não sabe qual das muitas igrejas do Chiado é a do Santíssimo Sacramento? Fácil: é a que tem o tecto mais bonito.

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O BV errou: Tarzan, estimado leitor de longa data, alerta-me para que as fotos que tirei da igreja do Santíssimo Sacramento são, afinal, da igreja dos Mártires. “Milagre!”, ouço gritar o piedoso leitor, mas não, pata na poça, mesmo. (De repente sinto-me muito confuso. Alguém tem Lexotan?)

Consultei os arquivos do Vaticano, examinei detalhadamente a questão e concluí que, se este poste tivesse sido escrito mais ou menos pela mesma altura do ano passado, bastaria trocar “Santíssimo Sacramento” por “Mártires” para os sinos repicarem certo, porque foi nessa altura que terminou a restauração da igreja dos Mártires e o cardeal-patriarca a inaugurou (eu estava em Florença, ou era Chamonix? São praias tão parecidas).

Fotografarei a igreja do Santíssimo Sacramento (à Calçada do Sacramento, veja a coincidência, Deus não dorme senão quando eu escrevo postes) para então decidir qual das duas tem o tecto mais bonito.

14.12.09

Espírito de Natal

Quem diz que o Espírito de Natal não existe, é porque não leu Dickens nem ouviu o senhor F., o meu mecânico, dizer-me que “vai ser um bocadinho caricato”, mas que o meu carrinho estará à portazinha da datcha daqui por uma horazinha. Avisei-o de que a campainha se ouve mal. Ele respondeu que accionará o claxon.

Dona Natércia

Dona Natércia olhou com tristeza o pombo que lhe ocupara o parapeito e pensou: “Mais um”. Queria abrir a janela e dizer-lhe “Existe sempre uma solução”, “Amanhã é um novo dia” ou qualquer outra frase inspiradora, mas para quê? Mal adivinhasse a mão dela na maçaneta, lançar-se-ia no abismo, o infeliz, como o haviam feito os outros antes dele.

O senhor Roberto

O senhor Roberto trancou o pequeno Opel. Era noite escura, o bairro perigoso, e, a meio dos cento e cinquenta metros que o separavam da entrada do prédio, teve um pressentimento:

“Vou morrer.”

Quarenta e dois anos depois, na Unidade de Cuidados Intensivos, uma enfermeira ainda chegou a tempo de ouvir as suas últimas palavras:

“Eu sabia.”

Anarquia

Um Rei Republicano fez um Golpe de Estado contra Si Mesmo e derrubou a Monarquia Absoluta; o Povo, agradecido, nomeou-o Presidente Vitalício. No dia da Tomada de Posse, porém, Conspiradores Monárquicos lançaram um Contra-Golpe e restauraram-no no Trono da Nação. O Povo, reconhecido, pediu ao Rei que mandasse decapitar o Cabecilha da Rebelião Republicana. Sua Majestade graciosamente acedeu ao desejo do Povo, instalando-se então uma Anarquia.

13.12.09

Bandeira de Papel


Cravo & Ferradura, DN, 11.12.2009

Halogéneo

O homem teria talvez uns dois metros; em altura, pouco menos que isso. Armava uma disputatio com uma senhora atarracada e larga o suficiente para unir as duas ombreiras da porta de entrada do Estabelecimento de Comodidades Eléctricas do bairro, obstruindo-a por completo. Não me restava senão, especado na rua estreita, aguardar pacientemente a minha vez.

“O patrão” – dizia o evidentemente empregado – “não deixa fazer essas coisas pelo telefone porque depois não fica como o cliente quer e então vem e diz que não era assim que tinha pedido e começa tudo á bulha” (assim mesmo, com o acento agudo no “a”, é engraçado como a troca de acentos afecta a dicção de uma pessoa), explicando que “estas coisas têm que ser tratadas cara na cara e com papel e làpis á frente”. Ela que ligasse “ás quatro, que è quando o patrão cà està”, adendando que ele, simples empregado, só havia condescendido “derivado á senhora ser doente”.

Esquadrinhei com circunspecção a maciça figura de vermelhão vestida. Levo a mal que outras pessoas exibam à minha frente a sua condição clínica, dá-me sempre ideia de que pretendem apoucar a minha. A senhora parecia-me tudo menos carente de saúde, mas diz quem sabe que certas maleitas insidiosas e furtivas são capazes de em 80 anos matar de forma irreversível uma pessoa perfeitamente saudável.

(Lembrei-me de dias atrás, o almoço com os meus dois filhos, o rapaz pedindo-me para lhe levar o casaco, a pronta repreensão da irmã mais velha:
”Tu não vês que o pai está velho e doente?”
Admito-o, leitor, afluíram-me aos olhos copiosas lágrimas, a ternura, a ternura.)

A senhora ia resistindo à argumentação como um arco de volta inteira à força da gravidade. Quando por fim se cansou, eu já precisava de um corte de cabelo. Proferiu alguns sons ininteligíveis e lá desimpediu a entrada, partindo na direcção da frutaria, onde decerto vagariam vizinhas prontas a conceder-lhe razão e refrigério.

Fui convidado a entrar e recebido com uma cordialidade que já só se vê em pequenas lojas de bairro e num ou outro manicómio em dias de palestra sobre a influência de Heidegger no pensamento contemporâneo (geralmente subordinadas ao tema “Se um nazi pode ser filósofo, por que estamos aqui fechados?”). Retirei do bolso do casaco uma lâmpada de halogéneo que, para não se partir, havia colado a um pouco de pastilha elástica usada. O pequeno objecto tinha uma aparência escura, mortiça, dando ideia de haver sucumbido a décadas de trabalho duro em minas de carvão, ou talvez grafite. Enfim, uma lâmpada de aparência apagada.

“Tem cá disto?”, perguntei no meu melhor português. O empregado mofou. “Pastilhas usadas não tenho, mas então não havia de ter as lampadazinhas? De 20, não è assim?”. Eu respondi que não sabia, que eram para uma fiada no topo do armário de uma cozinha. “Ah, então devem ser de 20”. Após uma pausa algo melancólica, acrescentou: “São sempre de 20”. Aceitei o dado como científico e solicitei dois exemplares. Retirou os pacotinhos de uma prateleira e preveniu-me: “Se lhes tocar com os dedinhos, limpe-as com um bocadinho de alcoolzinho embebido em algodãozinho”. Nesse momento apercebi-me de que ele, ao contrário do que sucedera quando argumentava com a matrona à porta, falava agora tal qual o meu novo mecânico, o senhor F..

O senhor F. usa o diminutivo em todas as palavras que o aceitem, e mesmo em algumas que o declinariam caso pudessem. Essa é a característica mais peculiar do seu discurso, mas não a única. Por exemplo, a forma… eh… caricata como utiliza o adjectivo “caricato”:

A minha senhora foi agora à cidadezinha para a gente ver se arranja a peçazinha para o seu carrinho, mas vai ser caricato arranjar isto antes da hora do almocinho.

E depois, o senhor F. mente. Não de uma forma que ele entenda como sendo mentira, note. Ele não percebe sequer que mente; mente naturalmente, e naturalmente crê que não mente. É capaz de dizer-me ao telefone

Pois eu estava à espera do seu telefonemazinho ontem pelas cinco, como era a nossa combinaçãozinha, e até pensei: que será que se passa que o senhor José não faz o telefonemazinho, e acabei por ir para o jantarzinho da empresazinha que nos fornece o equipamentozinho eléctrico, mas estou a trinta quilómetros, não lhe dá jeitinho passar amanhã de manhãzinha pela oficinazinha? É que é caricato sair daqui agora… Ai que pena, se ao menos o senhor José tivesse feito o telefonemazinho que a gente tinha combinado, eu estive à espera enquanto pude, depois pensei, bom, agora é caricato esperar mais…

Isto quando eu jamais havia acordado um telefonema e esperava que tivessem o carro pronto, como combinado, às seis da tarde.

“Ora, numa loja de artigos eléctricos há poucas probabilidades de me mentirem”, pensei. Que vão dizer? “A rede europeia passou a ser de 540 Volts, vai ter de trocar todas as tomadas de sua casa por modelos em ouro”? Possível, ok, mas caricato.

O empregado entregou-me as lampadazinhas num saquinho, devolveu-me o cartão Multibanco e agradeceu a preferência com um “volte sempre”. Foi o que fiz, mas ao evitar tocar em algum dos milhares de objectos estilhaçáveis em exposição no espaço exíguo da loja, deixei que as chaves caíssem. Baixei-me para as apanhar e o homem, notando o quanto o molho era avantajado, arriscou uma chalaça: “As chavinhas de São [não-percebi-que-nome-ele-disse], não é? Hahaha”. Eu ia gemer, dobrado ainda e fingindo que percebia a referência ao santinho, “Pois, mas o pior é isto das costas, sabe, a coluna…”

Não concluí sequer a frase. “Meu Deus! Em que me estou a transformar?”, pensei, “Um destes dias dou comigo a deixar placas de mármore no monumento ao doutor Sousa Martins”. A ideia aterrorizou-me e fez-me correr (coxear, vá) para a estrada – que naquela zona calha ser reservada a transportes públicos –, determinado a ser colhido por um táxi ou por um autocarro.

Como sempre acontece quando a gente precisa deles, não vinha nenhum.

Mercedes

“’Se ao menos’ é a expressão mais triste do mundo”, disse a escritora Mercedes Lackey. Para muitos portugueses, “Gasóleo: 1,099c” vem em claríssimo primeiro lugar.

9.12.09

Carreiras

Duas senhoras lindas no jantar de aniversário de um amigo (algumas mulheres mantêm a beleza muito para além da idade legal, mas eu jamais as denunciarei) enaltecem os respectivos filhos. A primeira explica que o seu rebento está a dar aulas numa grande universidade espanhola. A segunda, sem disfarçar o brio, conta que o dela faz nem percebi bem o quê de tão impressionado fiquei, projecta foguetões na NASA ou é hadrião no acelerador de partículas do CERN ou algo assim.
A mim, apenas me ocorreu dizer: “O meu filho tem gripe A”.
Foi um sucesso.

Bandeira de Papel


Cravo & Ferradura, DN, Novembro/Dezembro 2009

7.12.09

Fim de semana não prolongado

(Clique se quiser mesmo muito aumentar)



Que se dane o programa

No dia seguinte ao do concerto, reli o poste que escrevera sobre o Dudamel e apenas consegui perceber o sentido da rotação do orbe terrestre e de um ou outro artigo indefinido. Então tomei a decisão de,  pela calada da noite, regressar à Gulbenkian para demandar o programa no cujo, com desvelo apenas comparável ao de uma mãe ante o seu recém-nascido que bolça, garatujara as minhas relevantes impressões.

Alimentava a ténia, perdão, ténue (hahaha entendeu? "Alimentar a tén…"... ahm... desculpe) de que houvesse ficado preso nos interstícios de alguma das cadeiras; acarinhava, enfim, a secreta convicção de que nenhum frequentador daquele, como chamar-lhe?, templo de Terpsicore, sim, “templo de Terpsicore” é muito bom, teria sido capaz de furtar um programa de dois euros. Dois e meio ainda vá, sempre dava para um rissol na estação de serviço da A1 na Mealhada, mas dois, não, que absurdo, para mais enodoado com piadolas indignas de tão memorável ocasião.

De um momento para o outro, porém, o grande auditório enchera-se de gente tossindo; não podiam estar todos em busca do programa perdido. Mais uns minutos e no palco tocava uma orquestra, cantava um coro, sentavam-se solistas, esvoaçava a melena loira de um maestro. Era Thomas Hengelbrock, soube-o por um programa que roub… pedi emprestado.

“Que se dane o programa do Dudamel”, pensei. Enfiei-me na estola de uma senhora adormecida e, após uma primeira parte conseguida de Telemann e Händel, assisti a um Magnificat de Bach de ir às lágrimas de tanto prazer. A orquestra e coro, esses já conhecia, eram os da própria Gulbenkian. Dos solistas, que por inveja me recuso a nomear – nunca fui capaz de ultrapassar essa mágoa de cantar como um dragão de Komodo a quem acabam de multar por estacionamento em segunda fila – apenas achei pouco pulmão ao tenor (para compensar, a barba dele era ok).

Manuel Damásio e respectiva estavam a apenas dois lugares do meu, mas a presença de Jorge Miranda garantia que o concerto era perfeitamente constitucional.

Esperanto ornitológico

Diz o cartaz à porta da quintarola:

PIRIQUITOS
ROSICOLIS
O/AVES

4.12.09

Poste a metro

3.12.09

Eu queria ter escrito sobre isso mas não encontrei a caneta

O Grande Cã – ele odiava que lhe chamassem “Kublai” porque quando era menino gozavam com o seu nome – mandou que se plantassem árvores nas bermas das estradas do Império: quando a neve subia, era pelas suas copas geladas que os viajantes se orientavam. “Aquele que planta árvores terá uma vida longa”, garantiam os magos, não sei se porque simplesmente gostavam de árvores ou se para adular o Kubl… eh… Grande Cã (uma forma, afinal, de aumentarem as probabilidades de eles mesmos chegarem a velhos).

Agora fiquei meio nas nuvens, aeroflótico leitor, vinha isto a propósito de quê? Ah! Sim. A propósito de ontem terem desvelado os fundos do Grande Auditório, permitindo a contemplação do verde dos jardins da Gulbenkian, e de eu ter ficado chateado porque queria ter falado das palestras sobre árvores e quejandos do Rui Pedro Lérias. Ele é, por muito que o próprio insista em negá-lo, um comunicador de primeira água, de primeiro vinho, até. Se hoje sei que a palmeira que em menino me caiu em cima era uma Washingtonia robusta e não a variedade filifera, a ele o devo.

Pespeguei até os autocolantezinhos na carteira para não me esquecer, daqueles que nos põem na lapela para as outras pessoas saberem em que estabelecimento prisional nos entregar caso nos encontrem deambulando de forma suspeita por entre cambarás e loendros. Mas com essas minhas andanças por terras inóspitas acabei por falhar o momento, e ao Pedro Lérias deu-lhe agora para investigar aquilo da água na Lua e coisas assim.

“Tarde de mais”, pensei, e pontapeei um hidrante, magoando o dedo grande do pé esquerdo. A gota não perdoa. Se durante a próxima semana me vir coxear, é por isso e também porque estarei, penitente, usando cilício na coxa de alguém amigo que se ofereça. Talvez deixe até, para maior embaraço público, crescer unhaca no mindinho.

Tirei fotos comprometedoras do Rui Pedro Lérias arrancando folhas e fazendo frutos em puré sem a menor piedade. Colarei as ditas cujas em candeeiros, caixas da EDP e locais de concertos do Tony Carreira se ele não cumprir a promessa de regressar na Primavera ao Jardim Botânico da Faculdade de Ciências e aos jardins da Gulbenkian para, como ainda hoje se usa em certo local de Londres, perorar à gentia sobre os Mistérios da Natureza e diversos.


Verá se não o faço. Entretanto, tome o linque para o blogue dele.

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Fotos (clique para aumentar):
1 RPL gritando para que eu pare de chatear as outras pessoas com a câmara e preste atenção ao que ele está a dizer.
2 Repare como o cicerone ignora olimpicamente
[nota do editor: a palavra “olimpicamente” não existe, use por sua conta e risco] a foto de um homem nu amarrada a uma árvore e a jovem de vermelho deitada sobre a relva e encostada ao mesmo espécime vegetal. Ninguém comentou. Acho que os portugueses estão a ficar cada vez mais parecidos com os ingleses.
3 RPL fotografado no acto de vandalizar os jardins.

Dudamel: um não-poste

Eu queria falar sobre o Dudamel de ontem na Gulbenkian, mas como, se roubaram o programa que eu tinha comprado e no cujo, aproveitando um espaço em branco, eu anotara as hilariantes tiradas que hoje publicaria? Assim não consigo sequer dizer se Dudamel é nome de anti-gripal ou de maestro.

De certeza que quem o surripiou foi aquele que estava com a namorada na fila à frente da minha. Ela perguntava-lhe no fim de cada andamento se não seria ocasião para umas palmitas. Enquanto o público se deixava entusiasmar, o bisonho espectador limitava-se a acariciar a mão esquerda com a direita, ambas dele, e pareceu-me responder de cada vez que nem pensar, talvez para não chamar a atenção para o crime. Ela cumpriu e quedou-se, inerte, o tempo todo. Não assistiram sequer aos quatro encores, tal era a pressa que tinham de se escapulirem rapidamente na posse das minhas notas. A esta hora está o homem a escrever críticas purulentas sobre essas peças que não ouviu (nem viu, tudo aquilo era muito audiovisual), usando descaradamente as piadas que eu tanto suei para compilar. O que vale é que nem mesmo eu percebo a minha caligrafia.

[O leitor menos versado nas artes de lesar o alheio pergunta-se como posso eu ter escrito num suporte que já me havia sido roubado. Hahaha, como é ingénuo, ele não sabe que há… hum… maneiras.]

Lembro-me de haver anotado também quais os músicos que batiam o pé. A ideia era denunciá-los ao maestro, talvez em carta anónima ou usando um megafone. Mas até essa pequena alegria me levaram com o programa.

O meu professor de teoria musical e guitarra clássica ficava à beira de uma apoplexia com esse uso, que eu levara da escola do Hot Clube, de bater o pezinho ao ritmo das habaneras. Ele achava que a coisa tinha que vir sentida lá do interior, sem a ajuda de mecanismos físicos de repetição ou alucinogénicos de qualquer espécie. E era este homem um cubano! Eu repliquei que também Debussy dissera um dia que queria “cantar a sua paisagem interior com a simplicidade de uma criança”, mas que isso lhe passara quando calhou ver um daguerreótipo de umas tripas humanas que um amigo estudante trouxera de uma aula de anatomia. Não o convenci. Sabia lá eu que ele achava os impressionistas franceses o maior barrete desde que lhe disseram que os animais empalhados do Aquário Vasco da Gama eram soltos à noite.

Sei que vai perdoar. Não me lembro de quase nada, mas ficou-me a ideia de me ter divertido imenso e de nunca haver assistido na Gulbenkian a um concerto… bem… assim, compreende, da maneira que tudo aquilo aconteceu e tal.

30.11.09

Crónicas da Datcha (II)











29.11.09

Crónicas da datcha

“Sabes trabalhar com uma motosserra?”

26.11.09

Quando nada o fazia prever,

Lembra-se de eu lhe ter dito que me haviam intimado a escrever um conto de Natal? Tentei perceber qual seria a coisa-mais-distante-do-Natal-que-Santo-Anselmo-poderia-ter-pensado e concluí que era provavelmente a tampa de jante em plástico. Desculpe isso.

Mas deduza o meu dislate no seu IRS. Existem pelo menos doze excelentes razões para comprar, oferecer ou ler E Outros Belos Contos de Natal. Em primeiro lugar, o título começa com uma vogal anterior alta fechada não arredondada oral completamente isolada, apesar de (hahaha, vai achar graça) surgir grafada como uma vogal anterior média. As outras onze razões são o Nuno Markl, o Rui Zink, o Manuel João Vieira, a Luísa Costa Gomes, o Carlos Quevedo, o Carlos Tê, o João Serra, o Miguel Neto, o Filipe Homem Fonseca, o Pedro Santo e o Nuno Duarte.

Vida longa para eles.

25.11.09

Ressalva em caso de

O BV é “Blogue da Semana” no Delito de Opinião. Que posso dizer? Não, chistoso leitor, não é “Um engano qualquer um tem”. É “Muito obrigado, boa gente”. É o que posso dizer imediatamente antes de ir buscar o Bushmills para a comemoração, que já passa das dez da manhã e um banimento não é banimento se não traz anexada uma ressalva em caso de.

24.11.09

World Soccer 2009

O meu filho mais novo, que nunca soube o que era ter uma gripe – mantenha a mente aberta em relação a isso dos extraterrestres – lembrou-se finalmente de arranjar uma. Sim, logo agora. Em tempos mais serenos, seria levado à cama e mantido a Ben-U-Ron, canjas de galinha e World Soccer 2009. Mas agora há essa coisa de “Ligue de imediato para a Linha Saúde 24”. E a “Linha Saúde 24” mandou que a criança fosse prontamente transportada até ao serviço de urgências do hospital.

“Ouvi dizer que já não estão a fazer análises para saber se se trata de gripe A ou não, e uma gripe sei eu tratar”, arriscou a mãe, “não seria melhor ele não sair de casa em vez de ir entupir as urgências e arriscar-se a ficar pior?”. Mas a “Linha Saúde 24” fica doente quando as mães dos impacientes revelam autarquia. “Tem de ir, não, não, isso ir, tem de ir”.

Após algumas horas desfrutando o ambiente recreativo das urgências de Santa Maria (deram ao rapaz uma máscara e tudo), saíram do hospital, mãe e filho, com o surpreendente diagnóstico: “Pois, tem uma gripe, mas não sabemos qual a estirpe e não estamos a fazer análises. Sete dias em casa a Ben-U-Ron, canjas de galinha e World Soccer 2009”.

Eu jamais teria adivinhado.

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PS: Desculpe o enrarecimento de postes ou a falta de resposta a algum comentário. Em um dia ou dois conto retomar a costumeira irregularidade. Grato.

20.11.09

Memento mori

O meu pai não era homem de muito entretém ao ar livre, mas barra nos bilhares, os fantasmas da cave do antigo Astória que o digam. No melhor pano cai o amaciador de roupa, porém, e certa vez deu-lhe para nos comprar umas canas, a mim e ao meu irmão – não imagino que idade teríamos mas éramos bem novinhos – e levar-nos a pescar para as furnas da Ericeira.

O que faz mover um pescador à linha? Melhor dizendo, o que o faz estar parado? Acho que ele pensou que era dever de pai ou assim, um ritual de passagem, como mais tarde seria beber o primeiro copo de vinho, fumar o primeiro cigarro e tirar a carta de condução de pesados.

O primeiro grande choque do dia foi quando entendi que havíamos entrado numa tasquinha para comprar uma lata de minhocas.

De minhocas.

O segundo foi no momento em que o meu pai me comunicou que deveria pegar num dos repelentes anelídeos e enfiá-lo pela cabeça

– pela cabeça

num anzol. Veja se entende. Trata-se de pegar num ser vivo (mete-nojinho, ok, mas criaturinha de Deus), examinar-lhe a anatomia de forma a entender qual das pontas é rabo e qual é cabeça e implantar-lhe uma coluna vertebral numa operação sem anestesia. Neguei-me, é claro, vão lá pedir isso a um caloiro de Veterinária.

Antecipando as tendências do Mercado, o meu pai ofereceu incentivos financeiros. Cada minhoca enfiada num anzol valia vinte e cinco tostões. Mas ele sobrestimara a minha vontade de medrar à custa do sacrifício de outros seres vivos, mesmo em tratando-se de vermes repugnantes. Eu ia secretamente passando as moedas ao meu irmão e ele, menos escrupuloso ou mais prático que eu, dependendo da perspectiva que sobre o assunto se tenha, encarregava-se de trucidar as criaturas nos momentos em que o meu pai, poeta que também era, se dava à contemplação do vasto oceano.

Mais tarde eu soube, lendo Peter Singer, que o estratagema não me havia propriamente lavado a consciência.

Vem este intróito memorialista a propósito de um episódio que ocorreu há dias, quando eu, passeando no pontão de uma vila piscatória, pensava em como havia de organizar a véspera de Natal, está tão difícil acertar uma data com toda a gente. Um pescador saiu de entre as rochas e dirigiu-se-me, arfando e suando como se tivesse acabado de conseguir recuperar um comando de TV que houvesse deixado cair para trás de um móvel muito pesado. Ele tinha apanhado um peixe mas não o conseguia agarrar com as mãos nuas: o bicho debatia-se como alguém a quem disseram que a mulher o enganava com um lúcio, ou mais que um, até.

O homem pediu-me para segurar o fio enquanto ele ia buscar um pano. O meu primeiro impulso foi perguntar-lhe, pondo ar grave, se não sabia que não se deve ir nunca sozinho para uma pescaria. Imaginava que pescar era um pretexto para conversar, conviver, contar umas larachas, que qualquer coisa que por azar se apanhasse ia para o gato da terra. Ingenuidade minha, um verdadeiro pescador sente prazer no acto mesmo na maior solidão.

A verdade é que, quando olhei o peixe e vi o anzol forrado com uma minhoca meio fora da boca, fiquei sem reacção. Memento mori, lembra-te que um dia também tu morrerás. Segurei o fio e, aproveitando o momento em que o pescador descia às rochas onde tinha montado o seu centro de operações, tirei uma foto com o telemóvel. Eu sabia que ia querer partilhar este momento consigo.

O peixe parecia haver atirado a toalha ao chão, mas bastou que o seu verdugo lhe tocasse com as mãos embrulhadas num pano para que se debatesse como um aluno de uma escola secundária a quem ordenaram que desligasse o telemóvel. As barbatanas tinham uma espécie de espinhos que pareciam bem perigosos. Concluída a tarefa, o homem agradeceu-me; eu nada disse. Ele quase teve de me arrancar o fio das mãos. Talvez pensasse que eu lhe queria ficar com o peixe.

Não esperei para ver se o pescador devolvia a presa ao mar ou se a atirava para o balde. Para mim, o bicho não tinha sequer ar de ser comestível. Virei costas e, caminhando devagar em direcção à vila, comecei a deitar contas ao que podia ter comprado com todas aquelas moedas de vinte e cinco tostões. Ao tempo, caramba, ainda era dinheiro.

19.11.09

Bandeira de Papel



Cravo & Ferradura, DN, Novembro 2009

17.11.09

Alguns Contículos de Natal

Refrigério
Mariazinha nem filhos tinha que, no Natal, a consolassem da condição de mãe solteira.

Tirania
“Na China não celebram o Natal”, comentou a Laurinda. “Maldita ditadura”, rematou Anselmo, o marido dela.

Manifesto
A pândega anti-natalícia da Teresinha e seus amigos estava pendente da disponibilidade da Clotilde para trabalhar na véspera de Natal. Ela disse que sim. A má vida exige uma boa empregada.

Utilidade
Joãozinho era um homem mesmo muito pequeno. Na véspera de Natal, os colegas calceteiros ofereceram-lhe um escadote. O trabalho de Joãozinho ficou muito facilitado.

Exclusão
Todos os anos, na véspera da primeira Lua Cheia de Dezembro, os Mecânicos de Automóveis reúnem-se para o Jantar de Natal da sua Sociedade Encoberta. Este ano decidir-se-á, por proposta de um Membro, se os bate-chapas poderão vir a ser admitidos. Na Sociedade Discreta dos Bate-Chapas será levada à consideração dos Filiados uma moção semelhante em relação aos mecânicos de automóveis. Tendo sido informados por um Infiltrado de ambas as movimentações, os Electricistas de Automóveis entraram em estado de choque.

Óbito
“Morreu de exaustor”, informou o bombeiro. O funcionário da morgue olhou o corpo do Pai Natal (que mal pôde reconhecer pela roupa) e corrigiu: “De exaustão”. “Não, de exaustor”, insistiu o bombeiro.

Expectativa
“Este ano sentas-te connosco à mesa”, disse o patriarca, e o peru ficou todo inchado.

Pronto-socorro

Há pouco, na segunda circular, o pronto-socorro no retrovisor: “Dias Importantes, Lda.”.

11.11.09

Doutor Magnífico

Não sou do género de celebrar a morte de ninguém antes de passado pelo menos um milénio sobre a lutuosa ocorrência, mas para Anselmo de Cantuária, dito Doutor Magnífico e santo defunto faz este ano precisamente novecentos, abrirei excepção. Não tanto porque sejamos compadres ou isso, mas porque é provável que daqui a cem anos eu não esteja em posição de celebrar coisa alguma. Quero dizer, pelo menos não em pé e com um uísque na mão.

Anselmo achou que não lhe bastava ter provado definitivamente a existência da Divindade com o seu Argumento Ontológico, aquele que parte da premissa de que Deus é algo maior do que o qual nada pode ser pensado (lembre-se, o centro comercial Colombo ainda não existia); ele teve que ir ao limite e demonstrar que Deus não pode sequer não existir.

[Eu fazendo uma pausa para pôr a tocar um CD de cantochão]

Traduzi este bocadinho do inglês para aquele leitor que não domina o latim e me envia sempre um e-mail quando eu escrevo “sic”. Voltei umas duzentas vezes atrás para conferir tudo, desculpe qualquer “que”, “qual” ou “Metropolitano de Lisboa” a mais:

“(…) de tal modo este ser tão verdadeiramente existe que não pode sequer ser pensado como não existindo. Pois é possível pensar algo como existindo que não possa ser pensado como não existindo, e este é maior que aquele que pode ser pensado como não existindo. Assim, se algo-maior-do-que-o-qual-não-pode-ser-pensado pode ser pensado como não existindo, então algo-maior-do-que-o-qual-não-pode-ser-pensado não é o mesmo que algo-maior-do-que-o-qual-não-pode-ser-pensado, o que é absurdo. Algo-maior-do-que-o-qual-não-pode-ser-pensado existe portanto tão verdadeiramente que não pode ser sequer ser pensado como não existindo.”

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[Não convencido? Insira o seu próprio argumento aqui]
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Tomás de Aquino riu-se um pouquinho e Descartes roeu-se de inveja, mas Kant estilhaçou uma chávena de porcelana com as mãos nuas, eurekando nesse acto que um objecto apenas pode ser percebido no Tempo e no Espaço e jurando que passaria a expor os seus próprios argumentos em parágrafos que tivessem um número fixo de caracteres aleatórios.

Kant tinha auctoritas e a vantagem filosófica de dominar o alemão, sobretudo se este fosse pequeno; o argumento de Anselmo parecia defunto e enterrado. Mas ainda há bem poucos anos encontraram na fórmula novas qualidades, furtivas subtilezas, que aquilo afinal não era tão manhoso quanto se dizia e não sei quê. E exumaram a coisa. Disse-se milagre, estava tal qual a tinham deixado tantos anos atrás, talvez só um pouco mais cabeluda.

Santo Anselmo, note, não era apenas o seu Argumento Ontológico, tenho pelo menos 544 páginas dele. Olhe aquilo da processão, super interessante. Pode algo proceder de si mesmo? Sim, desde que se conheça as pessoas certas, estou ainda a procurar uma forma suficientemente obscura de expor o pensamento do Doutor Magnífico. Destinava-se aos gregos que Anselmo ia mandatado para chatear no Concílio de Bari e que não acreditavam que do Filho pudesse proceder um Espírito Santo. Acho que não vai ser muito difícil.

Ok. A verdade é que eu gostava de ser convidado para Director da Cadeira de Estudos Anselmióticos – Anselmianos também pode ser, não farei finca-pé – na Faculdade de Belas-Artes, ou, não havendo espaço para o meu gabinete suportado por colunas egípcias com capitéis em forma de flor de lótus que se vão abrindo desde a porta até à minha secretária, na de Medicina, ou Agronomia, porque não. E para que isso aconteça, lembrar o aniversário é fundamental, sobretudo quando mais ninguém lembra, uma vergonha.

Uma alternativa seria a direcção dos Estudos Norrianos, mas, para além de “norrianos” soar mal às pessoas (fiz sondagem), Chuck Norris não tem, no seu monte de argumentos, nenhum que seja verdadeiramente ontológico.

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Nota: o original em inglês do texto citado é da edição da Oxford University Press e da Cadeira de Estudos Pamelandersonianos da referida universidade, que irresponsavelmente publicou Anselm of Canterbury: The Major Works, uma compilação das maiores obras do antigo arcebispo de Cantuária (e-mails com perguntas e pedidos de dinheiro devem ser endereçados para lá; grato). “Maiores” não é hipérbole, o livro tem mais de quinhentas páginas e aguenta-se em pé sozinho desde que não haja animais de estimação por perto. Mas, o Senhor seja louvado!, é barato, umas dez libras apenas.

10.11.09

Bandeira de Papel


Cravo & Ferradura, DN, Novembro 2009

4.11.09

Se forem a falencia, nao venham dizer que a culpa e minha. Ate ja

Não se pode andar a saltaricar, como eu o faço, de villa em villa, hoje aqui e amanhã acolá, sem sofrer consequências. Os vários mordomos e governantas tiram licenças com vencimento quando lhes dá na gana. Controlar a criadagem menor torna-se simplesmente impossível. Também os serviçais adultos se acham de súbito senhores do seu destino. E não, por favor não me pergunte pelos jardineiros: metade dos quartos foi invadida por heras, glicínias, presidentes de junta derrotados nas últimas autárquicas e a(o)s namorada(o)s dele(a)s.

Mas tudo isso mais não é que restolho na espinhosa trilha da vida, leitor. O que me dá dores de cabeça, mesmo, é o descaminho da correspondência.

Ainda há dois dias eu havia pago uma factura da TMN. Avantajada, é certo, mas o facto de eu estar em contacto permanente com o presidente Obama e com a primeira expedição uzbeque à Antárctida justificará talvez a quantidade inusitada de dígitos. Foi portanto com estranheza que no dia seguinte, ou seja, ontem, percebi que estava impedido de fazer chamadas, despachar sms ou enviar para pessoas de quem não gosto mensagens multimédia com fotos da minha pessoa em nu integral.

A explicação, assim como os elementos necessários à regularização da situação, viriam pouco depois e sob a forma de mensagem escrita. Alegava-se, por palavras que a seguir citarei ou outras de muita equivalência, que eu me encontrava, na medida em que devia à instituição que agora me contactava uma determinada importância – pequena ou grande pouco importa, é o princípio da coisa que está em causa e a Ética e tal – na condição de pífio caloteiro, reles burlão, sórdido abusador de redes sem fios. Não consegui deixar de pensar que talvez me pudessem ter enviado o sms antes de me barrarem o telefone, mas há que compreender que, mais que procedimentos, estas coisas são rituais.

A conta bancária da TMN, que devido à minha incúria decerto bordejava abaixo de zero, foi de imediato suprida. Não o fazer e arriscar o envolvimento das Autoridades teria sido perigoso, podia chamar a atenção para a questão daquele livro que não cheguei a entregar na biblioteca. Duas ou três horas mais tarde eu tinha ainda o telemóvel barrado, mas recebi com alegria o sms que a seguir, e respeitando a gramática e semântica criativas do original, transcrevo:

"tmn
Promocao 5 Euros Semana: fale gratis para a rede tmn durante 7 dias por apenas 5EUR. Para aderir envie Sim para 12122. Ate ja."

Amigo que sou de ajudar empresas de comunicações móveis, quis enviar um entusiástico Sim para o 12122. Pensava eu que, pelo tom do sms, tudo me havia sido perdoado, esquecido o crime, reparado o dano. Mas o sistema retrucou que eu, deplorável trapaceiro sem vergonha, não tinha autoridade para enviar mensagens, nem mesmo desafiado e para um número com apenas cinco dígitos.

Neste momento, ao que percebo, já me é possível fazer chamadas e enviar sms. O primeiro será para o 12122 e conterá três letrinhas apenas: “Nao", ou talvez “Mae”, ainda não decidi.

Bandeira de Papel


Cravo & Ferradura, DN, 3.11.2009

2.11.09

Um gajo ao banho

Quatro trabalhadores, talvez de instalação de TV por cabo ou de Internet, gozam a vista do passeio marítimo num restaurante da Nazaré. Aguardam que lhes sirvam uma feijoada de marisco. Lá fora sopra uma aragem, branda mas fria. Para lá da falsa linha mais ou menos horizontal que divide o longo areal e o mar, um solitário em tronco nu e fato de banho contempla o oceano. Os braços estão cruzados, as pernas não se vêem. A espuma que as ondas fazem, muito branca, atinge por vezes o triplo da sua altura.
“Olha ali um gajo ao banho.”
“Ãh.”
“É mentira? Olha lá.”
“É maluco.”
“Ainda bate a água.”
“Já bateu.”
O banhista desaparece do campo de visão. Calculo que esteja agora espraiado na areia a ler o jornal ou o último de Dan Brown. Guarda-se um minuto de silêncio. Depois,
“A onda levou o gajo.”
Novo minuto de silêncio. O banhista não reaparece. Sem mais delongas, a conversa é desviada para o Braga-Benfica.

Amigos-do-senhorio




Um Artista Performativo (que calha ser também meu filho, veja a coincidência, como a vida é mesmo um livro de Paulo Coelho) leva a cabo uma Instalação de Si Mesmo no espaço expositivo do Chiado, durante a mostra que hoje terminou, De Amadeo a Paula Rego, 50 anos de Arte Portuguesa (1910-1960).

[Eu pensando em como seria homem para oferecer os amigos-do-senhorio se um dia decidissem pendurar de vez o acervo do museu em qualquer lado]

30.10.09

Seattle, we have a problem

Não estou ainda muito familiarizado com o Windows Vista. Pode ser até que algo de óbvio me esteja a escapar, não seria a primeira vez, olhe os meus três divórcios. Mas isso de eu fechar uma “aplicação”, como eles lhe chamam, e de imediato surgir uma janelinha informando-me de que “o programa x deixou de funcionar” parece-me, sem querer ser grosso, uma lapalissada das grossas.

Mas o pior é o “estamos à procura de uma solução para o problema” que se lhe segue. Imagino, à medida que entro em pânico, os alarmes zunindo em Seattle, centenas de engenheiros informáticos saindo da cafetaria e dirigindo-se para as suas consolas como se um satélite tivesse começado a dançar o cancan em órbita, organizando reuniões de urgência, suando muito e bebendo litros de Coca-Cola, todos ligando para casa dizendo às mulheres, maridos e contabilistas que vão chegar tarde, e tudo isso apenas para tentar entender por que razão o meu programinha deixou de funcionar. Eu odiaria dar todo esse trabalho de cada vez que clico na cruzinha “fechar” do Internet Explorer ou encerro a aplicação que detecta a presença do ectoplasma do Elvis.

Mas enfim, esse absurdo sempre tem um botão para cancelar – o que não sucede, convenhamos, com a maior parte dos absurdos.

Bistrot (ou bistro, é como quiser)

Na semana passada jantámos, a D., a C. e, provavelmente, eu – perdoe a incerteza, atravesso uma ligeira crise existencial –, num bistrot mesmo em frente ao Parlamento.

[Eu resistindo à tentação de fazer piadas do género “onde as rendas são quase de graça” , seria fácil de mais]

Não houve tempo para apreciar o comer – ainda há dias a minha mãe, no seu aniversário, havia comentado “Que bom é comer o comer quando não se teve que o fazer”, achei isso tão poético –, porque daí a nada começava One doubt arose in the mind of a noble vigilante, do grego Georgios Anamateros, na Sociedade de Instrução Guilherme Cossul. Conhece a Sociedade? Às sextas fica quase a meio da D. Carlos I, nos restantes dias não imagino.

E agora um pequeno parêntesis:

( )

Voltemos então ao restaurantezinho “francês”. Coloco-o entre aspas porque um amigo geralmente bem informado em questões de geoculinária diz que aquilo lhe parece ser, afinal, belga. Isso explicaria o grande mapa de França pendurado numa das paredes. Vá, admita que não é capaz de reconhecer os contornos à Bélgica. Nem mesmo um belga seria capaz de reconhecer os contornos à Bélgica. E depois, eu já andava suspeitoso de que os valões ruminam há anos planos secretíssimos para a anexação da França. Por causa das anedotas e do vinho, mas também para deixar os flamengos chateados, briguinhas sobre tamanho, sabe como é.

Tanto a atitude solícita como a compleição trigueira da senhora que nos atendeu pareciam confirmar as minhas suspeitas. Mais depressa seria cherokee que francesa. É certo que uma belga também havia de ser desbotada mas, tirando o Tintin, quem sabe ao certo como é um belga? Os óculos de redondos aros dourados, o cabelo grisalho cortado à rapazinho, a figura esguia e o sotaque que carregava em demasia fizeram-me adivinhar a sua presença em acaloradas reuniões conspiratórias a horas defuntas, exactamente como as que ocorrem em O Homem que Era Quinta-Feira, do Chesterton, mas de um modo completamente diferente. Nada de mais, cada um deve poder fazer o que lhe apetece desde que seja dentro de portas, olhe as térmitas.

Enquanto tudo isto eu ponderava, pareceu-me ver distintamente – e olhe que, para Descartes, ver distintamente era já prova – Hugo Ball, o próprio, gritando instruções para a cozinha. Foi o momento em que entrei irreversivelmente (ou durante algumas horas, vá) no meu estado rotineiro de incongruência cerebral. O vinho era bom, mas não devia talvez tê-lo misturado com ansiolíticos.

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Nota: One doubt arose in the mind of a noble vigilante (escrevo sem maiúsculas iniciais porque era assim que vinha no programa e eu, leitor, eu respeito essas coisas) era, segundo o autor, Georgios Anamateros, a musical tale of love, jazz, inspiration and secrets. Quem nos atraiu ao covil foi a bela voz da Marta Hugon. Mário Franco no baixo e Pedro Carvalho na bateria estiveram nota dez. O grego, para além de autor, também tocava piano e – eh… – cantava, ok, vá, razoavelmente, mas falava português, e isso deixa-nos sempre de lágrima ao canto do olho, certo? Marinela, anunciava o panfleto, era Deus Ex Machina. Eu esperava engenhocas em madeira e uma Marinela surgindo das alturas entre ribombar de trovões, mas afinal veio de trás e sapateando, o teatro clássico já não é o que era e também não havia espaço. A história, essa, era de amor; a mensagem, se a havia, satiricamente ambígua (“Ponha bombas, mas não como um terrorista”? Hmm); a música, muito anos 30, e isso é uma Coisa Boa.

Comida para o pensa

Terminei A Sentimental Journey through France and Italy, de Laurence Sterne (1713–2009–1768). Não é indigno de The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman, mas termina com a abrupta incompletude da frase

“So that when I stretch’d out my hand I caught hold of the fille de chambre’s

e logo a meio de um episódio empolgante, aquele em que o protagonista e narrador, Yorick – a alusão a Shakespeare não é inocente –, discutindo com uma jovem dama de pudicas exigências com quem se vira forçado a partilhar o quarto de estalagem, deita a mão a qualquer coisa, jamais saberemos o quê. Eu antes queria que Sterne tivesse acabado o livro e este me tivesse sido lido ao serão por, sei lá, olhe, pelo general Eanes.

[Eu pensando em como só escrevi isso porque não existe o mínimo risco de acontecer, haha]

Acho que não posso sequer dizer que tenha terminado o livro. Deixarei um espacinho extra na estante de forma a acomodar o que falta de lombada mas preservando a ideia de lacuna existencial, como o leitor entrando no cafezinho parisiense de Sartre e vendo apenas a ausência daquele com quem se queria encontrar. Esse vãozinho falará volumes. De cada vez que eu ali poisar os olhos, sentirei comoção e meditarei sobre as circunstâncias que cruelmente determinam a condição humana, após o que irei almoçar, jantar ou cear, dependendo da hora.

Conheço outros exemplos de obras que não chegam ao fim, desde a 16ª sátira que Juvenal inacabou (ou cujo final se perdeu) a O Castelo, de Kafka, mas esses sempre terminam com frases completas. Fragmentos com nome de remédio não contam, ok? Olhe, assim de repente, vem-me à memória outro caso de um volume que termina a meio de uma frase. Falo de Finnegans Wake (reparou que lhe chamei “volume” e não “livro”? A isso dá-se o nome de “prudência”), de James Joyce, que termina assim:

“A way a lone a last a loved a long the”

Em boa verdade não posso dizer com segurança se termina ou não, porque parece dar uma longa volta até à primeira frase do texto, a cuja, muito convenientemente, começa a meio:

“riverrun, past Eve and Adam’s from swerve of shore to bend of bay, brings us by a commodious vicus of recirculation back to Howth Castle and Environs.”

Sterne sempre tem a desculpa de que morreu, não teve hipótese, ele bem queria ter chegado a escrever qualquer coisa sobre Itália, mas não deu.

29.10.09

O ginásio não existe

Concordámos tacitamente, a D. e eu, em fingir que o ginásio não existe. Não falamos sequer sobre isso, limitamo-nos a não tocar no assunto.

Adiar algumas coisas é bom. Antes da prorrogação vivemos ansiosos, sentimo-nos culpados. Toma-se a decisão em comum, mesmo se apenas de forma implícita, e chega o alívio, a serenidade, a paz de espírito. Temos a certeza de que regressaremos ao treino: afinal, somos adultos responsáveis. Apenas não o queremos ser neste momento.

Falar da coisa não é bom. Surgem as falhas de carácter. Perde-se o controlo. Todos conhecemos casos dramáticos de gente que não soube lidar com as faltas ao ginásio. “Esta semana não vou ter nem tempo nem paciência, anda um gang atrás de mim julgando que roubei a cocaína deles”. Alastram as manchas de suor nas axilas, por muito desodorizante que se use. “Ainda por cima o administrador não me larga com o negócio dos porta-aviões”. E acaba-se no descalabro moral. “Passas o dia a esfregar-te no tipo que limpa a piscina” ou “Não gosto quando apareces vestido com cueca de fio dental”. Quem nunca ouviu desabafos como esses num qualquer restaurante de uma zona de escritórios?

É bem melhor concordar tacitamente em fingir que o ginásio não existe.

Mo apura

Ontem à noite, na biblioteca de Oeiras, Júlio Pomar comentou o mais recente Caso Saramago dizendo, entre outras coisas, que nem mesmo o Código Civil deve ser interpretado de forma literal. Lembrou-me de quando o Stendhal ia lá para casa ler precisamente o Código Civil: dizia ele que era para “depurar o estilo”.

Eu achava isso curioso porque, a mim, dá-me a sensação que mo apura.

28.10.09

Princípios de grafologia

Mude o seu tipo de letra e mudará o seu carácter.

É que não me lembro

O Marco sempre chegou a encontrar a mãe dele?

Glosa a Heraclito

Tudo flui, menos no %$&#/&%# do lavatório.

27.10.09

Inquietação

Amigos de longa data trouxeram-lhe chocolates de Barcelona. Eu até lhe tinha dito para resguardar a caixinha, que não queria ter essa incitação perto da vista, que os chocolates eram bons de mais e eu nem fazia questão, que eram dela, eram dela e pronto. Mas uma hora atrás deu-me um apetite. Uma coisa incontrolável. Uma tentação que teria feito Simeão Estilita precipitar-se lá do alto da sua coluna. “Só um”, pensei, “Só um nem se nota, não vai fazer mal”.

Abri a porta do frigorífico, como de costume atulhado, e procurei nos locais mais óbvios. Nada. Arredei saquinhos e tupperware das prateleiras, inspeccionando-os miudamente. De certeza que não os havia tirado da caixinha, teria sido uma profanação, quase um sacrilégio, uma caixa tão elegante. Fui libertando o electrodoméstico de secos e molhados. Ele havia maionese de ovo e de soja, leite, queijos frescos e curados, uvas, chouriços, vinho, salmão fumado, manteigas e margarinas, ensopado de coelho, sopas, saladas, tomates, alhos, cebolas, pescada e legumes cozidos, pão, broa, iogurtes, o que quiser. Mas chocolates, nada.

E agora estou preocupado porque aquilo, fora do frigorífico, estraga-se.

26.10.09

História de uma datcha







22.10.09

Toca-me ao de leve

Primeiro no braço, depois na cara. Agora a língua demora-se nos dedos da mão direita. Abro os olhos para confirmar que, noite ainda, o pequeno triângulo que a Camila tem por nariz está a poucos milímetros da minha face, cheirando nem ela sabe exactamente o quê. Acho que é apenas um hábito, como fumar ou construir rotundas.

Encontro o telemóvel às apalpadelas e tento ver as horas fechando o olho direito, aquele que atrasa mais. São seis e picos.

[Eu pensando em como uma pala à Joyce me daria talvez um ar de pessoa interessante]

Para um insone do clube imaginário que frequento em Pall Mall, acordar imediatamente antes do nascer do dia obriga – vem no regulamento – a que desista do sono e me console com a contemplação da alvorada e a audição dos pássaros, que a essa hora estão hiperactivos. Devia talvez desfazer comprimidos de Ritalina em pedacinhos de pão e espalhá-los pelos parapeitos das janelas. Estou a brincar, estou a brincar, desvie esse olhar reprovador de amiguinho dos animais. Aquilo só ia acalmá-los um pouco. Acho.

Ok, Camila, já estou acordado e sentado na cama.

Sou figurante num quadro de Hopper.

Que fazemos agora? Conversamos? Vemos um filme? Saímos para tocar campainhas e depois fugir?

Isso no campo não dá gozo, a esta hora já está toda a gente a conduzir tractores, mas sempre se espairece um pouco. Quem sabe ganho até fama de idiota da aldeia, eu nem sei se já têm um por aqui.

Mas a gata Camila quer apenas ter a certeza de que estou a postos para a eventualidade de aparecer alguma mosca grande de mais. Vira-me as costas de zebra e desce rapidamente as escadas, sumindo-se naquele local para onde vão os gatos quando não querem ser incomodados e que nunca ninguém entendeu exactamente onde fica.

Arrasto-me até à biblioteca e tento escolher um livro. Hercúlea tarefa. Nas prateleiras da datcha há tesouros inestimáveis (e que tenciono manter estimados), cada um mais interessante que o outro. De vez em quando aquele barulho característico lá em baixo, e eu pensando, ah, que se lixe, era apenas um Júlio Pomar.

Olha, há aqui livros do Saramago. A esta hora anda Paranoico Pérez, o personagem de Vila-Matas, a queixar-se de que o lanzarotense (é assim que se diz?) lhe roubou mais uma ideia. Logo agora que Pérez ia virar as religiões do Livro de pernas para o ar e, libertado das grilhetas da falsa demência por multidões ululantes – a muitos a palavra obviamente recorda Nelson Rodrigues, mas a mim lembra-me o Judicium Salomonis de Carissimi, ou seria o Stabat Mater de Pergolesi? Bem, pelo menos num deles sei que havia multidões ululantes, ou alguém que ululava ou isso –, escapar finalmente do manicómio, denunciar Saramago e assumir no Panteão da Literatura Mundial o lugar que é seu por direito.

Sento-me e começo a folhear Magna Graecia, um desses calhamaços de mesa de café que podiam ter o Relatório & Contas da Cimpor lá dentro sem que alguém jamais desse por isso (os bonecos são muito bons).

Antes que eu possa ilustrar-me sobre a presença helénica na península itálica, ressurge a gata. Mia duas ou três vezes, salta para o braço do sofá e estira-se a meu lado. Eu poiso o livro, faço-lhe a festinha da praxe e sussurro-lhe:

Ok, estou a ver, dás-me uma segunda oportunidade. Vemos um filme? Queres que te leia um livro?

E ela, como sempre faz à mínima sugestão de um programa a dois, salta para o chão e some-se nas trevas. Não foi Einstein quem disse que loucura é tentar a mesma coisa muitas vezes e esperar um resultado diferente? Ele trazia o soalho daquele cérebro sempre muito bem encerado.

Recosto-me no sofá e os olhos caem sobre um velho amplificador de guitarra, daqueles a válvulas, um Yamaha. Penso em como um nome de moto assenta de forma estranha num objecto como aquele. É como chamar “Kawasaki” a um uísque ou “Famel Zundapp” a um filho. E que será feito do Cat Stevens, ou lá como se chama agora? Penso nisso de quem terá nascido primeiro, se Fabergé, se o ovo, e para onde diabo vão os gatos quando não querem ser incomodados.

[Note to self: mudar a lâmpada queimada da luz ao fundo do túnel. Levar escadote. E lanterna, ou, no mínimo, uma carteira de fósforos.]

21.10.09

Bandeira de Papel


Cravo & Ferradura, DN, Outubro 2009

20.10.09

O Universo em três andamentos

Diz-me o bate-chapas da oficina de automóveis que arrendou parte do meu crânio (a que não está ocupada pelo cérebro) que apenas uma vez, em toda a música para piano de Mozart, se encontra a indicação de pianissimo ao lado de um fortissimo: é na Sonata Nº 8 em Lá menor. “Hawking”, acrescenta o factotum da oficina com os olhos perdidos no calendário Pirelli, “chamaria talvez a isso ‘uma singularidade’”. E o electricista jura acreditar que “Mozart teria sido capaz de compor o Big Bang, o cujo, garante, “mais não é que um pianissimo seguido de um fortissimo”.

Eu ia contestar, um pianissimo não era de certeza, era género coisa nenhuma, quando muito um da Capo ou isso. Mas o mecânico meteu-se na conversa e lá do fundo, enquanto examinava o carburador do Ford Cortina do meu pai, pôs-se lírico:

“Já imaginou? O Universo inteiro em música para piano?”

Calei a objecção. Durante uns minutos, uma eternidade, todos os outros sons se envergonharam e ouviu-se a Sonata número 8 em Lá menor, de Mozart, o homem que podia ter composto o Big Bang.

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Posta restante: caso queira ouvi-los, os dois outros andamentos, também interpretados por Lipatti, estão no You Tube. Não importa agora em que circunstâncias Mozart escreveu essa sonata (a morte da mãe, etc.) nem aquelas em que o pianista romeno, cuja interpretação é das minhas favoritas, a tocou pela última vez (já mortalmente doente). Ou, sem querer ser dramático, talvez importem. Afinal, Mozart apenas escreveu duas sonatas para piano nesse íntimo modo menor. Olhe, sabe que mais? Fica ao seu critério. Ok?

Com três letrinhas apenas (ou eram quatro?)

A minha mãe, que desfez ontem 08 anos, vem nos últimos tempos lutando com uma tendinite como S. Jorge com o dragão. Com mais galhardia até, diria eu, porque o santinho não teve que suportar dolorosas injecções no braço com que ferrou a mortal lançada na lagartixa. E como sobreveio tão lamentável moléstia?, pergunta o geriátrico leitor; pois arranjou-a, respondo eu, por andar a ler blogues até ao raiar da bela Aurora em posições não recomendadas pelo manual do seu Sistema Informático.

Eu sabia que ela ontem iria receber de presente (para além de everestes de carinho, é claro) perfumes de irresistível fragrância, sedosas écharpes, elegantes carteirinhas, flores que fariam o primeiro Nabucodonosor, de inveja, suspender os jardineiros da Babilónia de cabeça para baixo nos jardins que eles mesmos haviam cultivado. Após todo esse luxo, que podia eu dar-lhe sem deslustre da minha condição filial? Alembrou-se-me que talvez a senhora gostasse de um conjunto de jantes de liga leve para pneus de baixo perfil, ou de uns faróis de tuning, mas depois ocorreu-me que a minha mãe não tem carta, quanto mais automóvel.

[Eu pensando que talvez por isso nunca a haja visto conduzir e em como isto está tudo ligado]

Decidi-me então por um transístor à antiga, do bom, resistente, com botões bem grandes, números que se vêem sem lupa, uma antena Magirus. Para ouvir os relatos de futebol lá do clube do coração dela, porque um relato de futebol tem que ser ouvido num transístor, nunca num rádio (ou não seria relato de futebol, seria?).

Como um galo de Barcelos ou um bidé, um transístor faz muita falta numa casa portuguesa. E pode ser que a minha mãe passe a ocupar o seu tempo com coisas que não lhe causem tendinites em vez de andar por aí a ler blogues na Net com sabe Deus o quê lá dentro, vi na TV que não são de confiança. Também já a fiz prometer que vai controlar os ímpetos noctívagos, que passará a tentar não recolher ao leito muito depois do passarinhar da alvorada.

E pronto, oh mãe adorada que tantas vezes injustamente me absolveste, parabéns.

19.10.09

Lá no Escritório

Fui intimado a contribuir com um conto para uma “reedição melhorada” de Outros Belos Contos de Natal, produzido em 2004 pela Escritório (antiga Chimpanzé Intelectual – entendo o porquê dessa mudança de nome, mas jamais me conformarei, farei abaixo-assinados na Net e manifestar-me-ei vestindo apenas cachimbo e essas coisas). A ideia era criar uma alternativa aos contos tradicionais da supracitada época festiva, o que julgo ter conseguido introduzindo a palavra “Natal” apenas nas últimas linhas e completamente a despropósito.

Terminei o texto e enviei-o para quem de direito. “Foi muito apreciado”, dizem-me simpaticamente por e-mail, e acrescentam que vão “revê-lo, paginá-lo e alterá-lo completamente”.

16.10.09

Mínimas

Agarre a vida com ambas as mãos, sim, mas dê-lhe uma boa gorjeta.

Not Toulouse

Depois não diga que eu não avisei.
(Ok, ok, pode dizer que eu não avisei da primeira sessão. Mas só da primeira.)

15.10.09

Grandes Citações do Cinema Mudo

14.10.09

Ginásio Blues (I)

Venho fazendo, olímpico leitor, “treino acompanhado”. Ao que percebo, aconselham isso aos clientes cujo grau de descoordenação espacial pode resultar em processo contra o ginásio. Se existe uma probabilidade elevada de o seu nariz tocar o tapete rolante onde décimas de segundo antes estavam os seus Nike novinhos em folha, tem “treino acompanhado” tatuado na testa.

O problema é que a gente sente-se tão… enfim… acompanhada. Fiz um monte de exercícios que só percebi que eram exercícios quando o treinador me pediu para tentar não adormecer tantas vezes. O pior momento foi talvez quando me passou para as mãos uns humilhantes “pesos”. Pareciam daqueles ossos de borracha para cães, mas mais leves e em tons rosa. Fez-me sentar de frente para um espelho (há espelhos para onde quer que se vire, fazem de propósito para que sinta vergonha) e explicou-me que devia executar movimentos ritmados para fora e para dentro com os braços, como se estivesse a abrir e fechar as portas duplas de um armário mas sem a parte útil de retirar alguma coisa lá de dentro.

Só por si aquilo dos ossos cor-de-rosa já era embaraçoso, mas não tanto quanto o que se seguiu. Ouvi aproximando-se rapidamente por trás de mim o que me pareceu ser a respiração aflitiva de um rinoceronte com asma, ou um expresso inter-cidades com uma roda empenada e um grupo de poetas no interior ensaiando para uma sessão de leitura ao vivo, eu não podia ter a certeza. Era afinal um sujeito grande, parrudo, aquilo a que na minha juventude se dava o nome de “quarto de leite Vigor”, e quase me desarticulou a omoplata direita com a deslocação de ar que provocou quando passou por mim (não sou um homem baixo, mas não se esqueça de que estava sentado). Sacou rapidamente de um par de halteres de ar pesadíssimo que estavam encaixados numa estrutura metálica e, urrando a cada gesto como um urso a quem acabam de informar que o bosque onde ele planta umas couves vai ser aplanado para que uma multinacional sueca construa no local um centro de bricolage e artigos para o lar, começou a erguer e baixar os pesos como se estes mais não fossem que simples esferovite pintada.

Comecei a suar solidariamente. Quando o Sansão por fim parou, olhei primeiro para os meus ossinhos cor-de-rosa; depois, para os colossais halteres do, eh, colega. Então aproveitei um momento em que o treinador estava a dar atenção a uma senhora que tinha dúvidas sobre a flacidez dos glúteos. Apontei os halteres e, pondo o ar mais casual de que fui capaz, perguntei:

Já não vai precisar desses?

Bandeira de Papel


Cravo & Ferradura, DN, 13.10.2009

13.10.09

Romano, talvez

Aristóteles achava que a vida solitária é boa apenas para os deuses e para os animais, não forçosamente por esta ordem. Mas devemos talvez levar o que ele dizia com um grãozinho de sal. Afinal, estamos a falar do filósofo que afirmou que a mulher tem menos dentes que o homem, quando, como toda a gente sabe, é precisamente o contrário que se verifica.

Foi quiçá, dirá o leitor requintado que gosta de alternar entre “talvez” e “quiçá”, uma tentativa de humor. Talvez, mas piada falhada é suicídio social. Pior até que dizer “derivado ao”, barbaridade que um grego, posso garantir, jamais faria. E o estagirita não apenas deixou de ser convidado para banquetes – ou simpósios, por uma vez sejamos pedantes (ok, por duas vezes, a primeira foi quando escrevi “estagirita”, aí em cima) – como certa vez até o convidaram a sair da cidade onde fundara o seu Liceu, o que, aliás, prontamente fez “para que os atenienses não pecassem segunda vez contra a Filosofia”.

Não é muita presunção? Comparar-se a Sócrates, o homem que achava que havia uma forma ideal e sempiterna de almofadinha de agulhas. Mas lembre-se, tempos houve em que os ditames d’O Filósofo, como Aristóteles era conhecido entre os escolásticos, faziam lei. Houvesse à data um serviço público decente de odontologia – olhe, como o que temos hoje, hahaha – e não sobraria mulher em toda a cristandade com um único molar inteiro.

Como qualquer grego, Aristóteles decerto frequentava ginásios. Traduzida muito livremente, a palavra designaria algo como “campo de nudismo para amantes de desporto e outros”. O Cármides de Platão, uma obra sobre a temperança cujas primeiras páginas são, vá, algo destemperadas (leia uma tradução honesta, esqueça as vitorianas), pode dar-lhe uma boa ideia de como estes locais funcionavam. Não se tratava apenas de besuntar um amigo com azeite e depois tentar agarrar-lhe as coxas, mas também de conviver, de, enfim, participar na vida da comunidade. O apodo “idiota” servia, à época, para designar o cidadão privado, aquele que não se envolvia nos assuntos públicos. Hoje em dia, nos círculos políticos, diz-se daquele que, podendo lucrar com os assuntos públicos, declina fazê-lo. Tendo em conta os resultados eleitorais de alguns concelhos nas últimas autárquicas, percebe-se que algumas comunidades continuam de facto a achar isso uma idiotice.

Inscrevemo-nos num ginásio, a D. e eu, num dia em que sentimos o apelo da auctoritas do Filósofo. “Ah! Pôr os corpitos em forma, hmm?”, ouço perguntar o leitor assim mais embora aí comparar abdominais atrás daquela árvore e tal. Bem, no meu caso não exactamente. Escudo-me nas palavras de Santo Agostinho: “Não dá para explicar tudo num único volume”. Basta dizer que que a minha compleição exige alguns… eh… aperfeiçoamentos, digamos, aqui e ali, e que o médico entende que a banheira onde tomo duche pode com vantagem ser substituída por uma piscina de oito raias.

A D. foi mais por solidariedade para comigo, julgo eu, embora ela persevere em dizer que está, e passo a citar, “gordíssima”, o que é manifestamente falso. Ela pronuncia este “gordíssima” com tanta gana e de tal modo arregala os olhos quando o faz que a gata Camila se põe a seus pés, na esperança de que os globos oculares da dona um dia se soltem e caiam. Imagina talvez que a deixaríamos brincar com eles se isso acontecesse. Com um ainda vá, mas com os dois? Como se globos oculares nascessem nas árvores.

Quando a menina que nos serviu de cicerone me convidou a ir “espreitar o balneário masculino”, estranhei que ela não propusesse o mesmo à D., até porque achei que seria uma experiência mais interessante para ela que para mim. Secretamente fiquei satisfeito por ela não ir, é claro, por muito que a mente seja aberta a porta sempre chia um pouco. Entrei, dei uma voltinha e saí. A partir do momento em que cheguei à idade adulta, teria uns quarenta e tal anos, o meu contacto com balneários resumia-se a alguns episódios do Seinfeld e mesmo nesses os actores tinham a atenção de se envolverem em toalhas quando passeavam de um lado para o outro. Não aqui.

Perguntaram-me o que tinha achado. “Um monte de homens nus”, respondi com honestidade. A funcionária do ginásio soltou um prazenteiro “Espero que sim”. A D. riu-se e eu acabei por me deixar também levar na onda. Foi muito engraçado. Acho que não me ria tanto desde que Kostas Axelos tentou conciliar o Marxismo com a filosofia de Heidegger.

O mais chocante, porém – para além de perceber que o meu cadeado de cacifo era o mais pequeno de todos, alguns eram mastodônticos, há-de haver uma qualquer simbologia oculta nesse detalhe –, foi ter percebido que quase todos aqueles tipos estavam em muito pior condição física que eu. Senti vergonha por algumas daquelas barrigas, e olhe que nem eram minhas. Resta-me esperar que isso seja assim porque o ginásio é muito recente e os frequentadores ainda não tiveram tempo de ficar em forma. Uma coisa é certa: nenhum deles teria lugar num ginásio grego. Romano, talvez, mas isso é outra conversa.

Depois, bem, depois fomos visitar o bar e comprar um cadeado maior.

9.10.09

Reminiscência

Se o astronauta pudesse tirar o capacete em pleno Espaço sem que de imediato lhe rebentasse a cabeça, o vazio cheirar-lhe-ia talvez a lodo do cais.

Apeadeiros

Já não existem quatro estações num ano: duas são, quando muito, apeadeiros.

Dois segundos

Um Deus omnisciente não perguntaria “Adão, onde estás?”, ele diria “Adão, tens dois segundos”.

7.10.09

Not Toulouse: um skecz

Recém-chegado do campo, não sou capaz de abrir a porta exterior da casa de Benfica: o código não funciona. Caras amedrontadas de idosas espreitam atrás de cortinas discretamente arredadas. Isso ajuda-me a entender o que se passa. Aquele troglodita que julga que sabe tocar guitarra eléctrica foi passar uns dias ao campo, terão pensado os vizinhos, e se ele já é como é, imaginem depois de uns dias na província: ‘bora lá mas é mudar o código da fechadura. “Não hão-de perder pela demora”, penso, decidido a vingar a afronta. Passo pelo Colombo e compro um álbum dos Doors. Vinil, nada de CD, se tem que importunar alguém ao menos importune-o com estilo. Esta noite vai haver Roadhouse Blues em Benfica all night long.

Decido voltar à casa de onde, quando soube das sondagens que dão a vitória a Isaltino, eu emigrara . Estou mortinho por um duche e um corte de barba e acho que tenho lá tudo aquilo de que necessito. Isso inclui lâminas de barbear, rede sem fios e, naturalmente, ansiolíticos. O resto – computador, livro de citações, etc. – está na mochila. Mal estaciono, caras atemorizadas de idosas espreitam atrás de cortinas discretamente arredadas. Percebo que os meus antigos vizinhos alimentavam no altar da esperança o desejo de não voltarem a pôr-me a vista em cima tão cedo. Felizmente não se lembraram de mudar o código da porta, continua a ser o número de conta do administrador do condomínio.

Só após a barba feita me apercebo de que não tenho after-shave. Sou uma daquelas pessoas esquisitas a quem a cara entra em combustão espontânea se não puser a loçãozinha imediatamente após a barba. Tento encontrar o meu sucedâneo favorito, álcool etílico puro. Também não há. É no momento fatídico em que disso me apercebo que os meus olhos cansados poisam – e se detêm – na prateleira das bebidas.

Meu Deus! Ele vai tornar-se alcoólico!
, ouço gemer as duas velhinhas simpáticas que lêem este blogue e prefeririam que eu rezasse a algum santinho até que a irritação passasse e a dor se transformasse em prazer mórbido, como tantas vezes lhes acontece a elas quando tratam do buço. Mas não é em bebedeiras que eu estou a pensar, afinal sempre preciso de trabalhar daqui a pouco.

Vodka é a minha primeira opção. Não apenas tem uns 40º de teor alcoólico, como sempre emprestaria à coisa um certo ar de dignidade literária russa. Olhando a garrafa vazia apercebo-me de que a D. Luísa acabou com ela, como antes acabara com o licor de café. Impressionante como ela acha que eu não percebo que uma garrafa cheia é diferente de uma garrafa vazia. De uma, sai líquido; da outra, não. Enfim, tento encarar isso como uma espécie de prenda de anos, embora nem saiba em que dia calha o aniversário dela. Felizmente não parece apreciar uísque irlandês e percebe que abrir garrafas de vinho daria, bem, demasiada bandeira. Olho de novo. Rum é adocicado de mais. Receio que atraia melgas ou me deixe nauseado. Acabo por escolher Grant’s. Eu nem aprecio, é mais para visitas e está para ali desde o Mesolítico a chorar-se porque ninguém o bebe. Desatarraxo a tampa, ponho a mão direita em concha, despejo um pouquinho e aplico o improvisado bálsamo na face.

Mal por mal, prefiro-o com gelo.

Em seguida tomo um duche. Corre bem, tendo em conta que não falta nem champô, nem sabonete, nem água, nem gás. Problema, mesmo, é a roupa interior. A única peça vagamente parecida com uns boxers que fui capaz de encontrar tem uma etiqueta a dizer “La Folie” e metade do tamanho que habitualmente uso. Estarei caminhando de forma estranha até ao momento em que a D. finalmente chegue a casa e me abra a porta.

[Note to self: fazer duplicados das chaves.]

Se esta lhe parece uma ocasião estranha para falar dos Monty Python, pense de novo. Eu não sou nada homem para efemérides, mas o facto é que eles apareceram, vindos de um planeta longínquo (Cambridge), faz este ano quatro décadas. Foi num sketch deles que me inspirei para o título Not Toulouse, que aliás ninguém entende e encima os postes de recomendações que neste blogue volta e meia eu escrevo para fingir que percebo alguma coisa de cultura e assim. Amiga do peito alertara-me para a diferença entre to lose e to miss, mas a verdade é que não fui capaz de encontrar uma cidade nas Landes chamada “Toumice”, pelo que ficou mesmo “Toulouse”.

Aqui vai o sketch, ou melhor, o skecz, uma vez que há um polaco traduzindo em tempo real. Não é bom? Assim, quem não fala inglês sempre vai percebendo o que eles dizem.

6.10.09

Viver no Campo

Ao fim de quatro dias no campo, estou um rústico. A barba cresceu-me até ao patamar a partir do qual as mulheres deixam de a acharselvagem” para passarem a achá-la simplesmente “um nojo”. Tenho nódoas de vinho na t-shirt e trago um casaco que não me serve. O vizinho do lado esquarteja porcos no quintal dele e, mesmo em frente da casa, há um “supermercado rural” que, para além de rações e produtos para a agricultura, vende “pet-food” e “artigos de laser”, o que, convenhamos, é pelo menos tão sofisticado quanto o que se encontra em qualquer sítio de fama mais cosmopolita.

Aliás, a vida no campo não é assim tão distinta daquela a que estou acostumado na cidade. Um exemplo? Ok. O senhor Carlos da serralharia, que passou aqui pela datcha às dez e meia, disse que a fechadura avariada na porta das traseiras seria substituída “ainda esta manhãzinha”. No lugar da fechadura ficou um buraco muito redondo, e se a porta conserva uma aparência de impenetrabilidade é apenas graças a uma chave de fendas manhosamente encravada na ombreira. Eu gostava de dormir meia horita, até porque, como é de lei no campo e inevitável num insone, me levantei noite cerrada ainda. Depois queria dar um passeio revigorante rodeado de, enfim, natureza. De pouco serve estar no campo se não se pode passear entre pinheiros sob chuva torrencial e arriscar ser transformado em torresmo por um relâmpago. Mas passa das quatro da tarde e o serralheiro ainda não voltou. Dá para pintar um quadro mais urbano que este?

E sabe que mais? Eu gosto.

5.10.09

Um porco

Na quintarola ao lado da nossa datcha, alguém matou um porco. O animal permaneceu dependurado sob uma espécie de cobertura de um dia para o outro. Quando voltei a espreitar pela janela, restavam os presuntos. No dia seguinte, nem isso. A quinta estava cheia de gente, adultos conversavam sentados ao sol, crianças brincavam em baloiços instalados num pequeno relvado. Calculo que tenham aproveitado a carne toda.

Não sei se apanharam o tipo que matou o porco, mas é bom saber que alguma coisa boa saiu desse animalicídio.

4.10.09

Picas

O meu filho telefonou-me para se queixar de que a mãe o forçou a levar picas de meia em meia hora durante duas horas (já fiz as contas, dá cerca de cinco picas) e que, durante todo o tempo em que foi forçado a conservar-se em jejum, ela não se coibiu de comer donuts à sua frente. Tentei acalmá-lo garantindo que eu jamais faria isso porque não posso comer donuts, embora um bitoque com pickles não estivesse fora de cogitação.

Lembrou-me de quando fiz a primeira e, espero, última endoscopia da minha vida. Estava agendada para as onze da manhã, e desde as nove da noite do dia anterior que nenhum sólido via o buraquinho onde o meu esófago muda de nome. Lamentavelmente, calhou a médica atrasar-se e o exame passar para as três da tarde. Isso tornou as coisas muito difíceis. Tentei compensar a carência alimentar com cigarros, o que me provocou uma dor de cabeça semelhante à que afligiu Neville Chamberlain quando percebeu que Hitler não era apenas um bom tipo mal aconselhado por um barbeiro incompetente.

Enquanto me enfiavam uma mangueira pela goela abaixo, eu pensava – e se pensava é porque não podia gritar, tinha todo o meu corpo concentrado na vã tentativa de expelir o intruso – em como estava a ser vítima de uma atrocidade médica inútil: com todo aquele atraso, o mais que eles iriam conseguir filmar agora seria um estômago completamente vazio.

Not Toulouse

Pedi à Guerra e Paz que desse ao prelo A Estrutura das Revoluções Científicas só para provar que essa obra seminal de Thomas Silva Kuhn – ou simplesmente Thomas S. Kuhn, como é mais conhecido desde o discurso presidencial de há dias – existe mesmo, que não inventei o livro quando aqui falei sobre ele. A capa é óptima; o papel, bonito; e o corpo de letra, anafado. Leia, leia e saiba tudo sobre mudanças de paradigma e outros conceitos folgazões que ajudam a quebrar o gelo em qualquer renegociação de crédito à habitação.

Not Toulouse era também o todo-barroco concerto único de noites atrás, na Aula Magna, pelos Retrospect Ensemble. Eles dantes chamavam-se King’s Consort, mas mudaram de nome quando se aperceberam de que na Inglaterra não há, pelo menos de momento, um rei – e que, mesmo que houvesse, a consorte seria sempre a rainha.
O concerto era de recolha de fundos para a reabilitação do Jardim Botânico da Universidade de Lisboa e o programa era género Händel’s Greatest Hits, sabe, aquelas suites obrigatórias em qualquer antologia do maior compositor de sotaque alemão que a Inglaterra não viu nascer, com um pouquinho de Telemann (um alemão, decerto para compensar) à mistura.

Foi penoso assistir a um concerto tão conseguido e com fins tão meritórios numa casa meio vazia, e não foi, infelizmente, a metade da assistência que ali não estava que suou as estopinhas. Respirava-se como no reptilário do Jardim Zoológico ou na antiga cervejaria Munique, isto é, com muita dificuldade: aqueles assentos não são verdes, eles estão verdes. Pena que o ar condicionado – para o qual não existem na tesouraria, dizem-me com um misto de tristeza e vontade de fumar (ou, no mínimo, de praticar Reiki – é assim que se escreve?), fundos disponíveis – tenha posto um fim àquelas ventoinhas a pilhas que em tempos aprimoraram os tabliers dos táxis da capital e, calculo, do país inteiro. Sorte haver os leque-programa que distribuem no início e cujo flap-flap adejou por sobre todo o concerto como as asinhas daquela criaturinha cujo nome agora me escapa e que voa dissimulada por entre as naves das igrejas, tomando nota de quem conversa em vez de prestar atenção ao serviço religioso.

[Eu pensando em como para meia casa bastava uma Aula Parva (hahaha entendeu? “Parva” em latim é “pequena”, o oposto de magn… eh… ok, já me calei, já me calei).]

E por falar em jardim botânico (até sinto vergonha de só agora falar sobre o assunto), não perca o programa “Laços de Família” de visitas guiadas ao Jardim Botânico da UL. Sei que, lido assim de repente, soa a programa para entreter criancinhas enquanto a gente se enfrasca no bar mais próximo. Mas não. A ideia é explicar-lhe a si, que é uma pessoa interessada e sensível, que laços unem as plantas de uma família, como evoluem e se adaptam plantas aparentadas para sobreviver em diferentes ambientes naturais, o que as une, o que as diferencia e (a questão, confesso, que mais me intriga) esclarecer se a seiva é ou não mais viscosa do que a água. Infelizmente já perdi as rosáceas e os legumes, passei a noite chorando, mas tentarei ir a pelo menos algumas das sessões que faltam.

2.10.09

Bandeira de Papel


Cravo & Ferradura, DN, 2.10.2009

1.10.09

Hospitalismo, um episódio

Sessão de raios-X num hospital de Lisboa. Tudo bastante eficiente, mas não posso dizer que não contasse com isso: já me haviam dito que o atendimento nos hospitais civis tinha melhorado muito desde a II Guerra Mundial. Pena que o uísque estivesse esgotado nas máquinas dispensadoras de bebidas, mas ei, se quer perfeição vá apreciar os rodapés da Capela Sistina.

Não tinham passado quinze minutos após a inscrição quando uma enfermeira abriu a porta e leu o meu nome num papelinho. Meu Deus! Estão aqui umas vinte ou trinta pessoas, porquê o meu nome?, pensei, temendo o pior, mas sosseguei quando a D. me explicou que era normal que me chamassem: afinal, se eu me tinha inscrito era porque queria ser chamado.

Apesar de ela me garantir que não me abandonaria em hora para mim tão difícil, despedi-me com alguma emoção, cuidando de não exagerar nas lágrimas. Quatro daguerreótipos à cervical e dois ao lombo não justificavam talvez tanta comoção e podiam fazê-la suspeitar de uma fita à jogador de futebol, para quem a sensação de um pequeno toque na coxa equivale à dor insuportável de uma penhora por incumprimento fiscal. Assim, limitei-me a deixar-me cair duas vezes e a bater com a cabeça na ombreira da porta, manobra aliás mal calculada e após a qual senti necessidade de ler o livrinho verde de Kadhafi.

[Vou na parte em que o coronel explica que o referendo é uma impostura face à democracia e que os que nele participam apenas podem dizer “sim” ou “não”, quando deviam poder explicar por que razão dizem “sim” ou “não”. Imagino um eleitor querendo explicar por que razão vota “sim” ou “não” e ficando confuso por não haver um local para escrever isso no boletim de voto, tendo que rabiscar notas nas margens e tornando muito difícil o processo plebiscitário, razão provável pela qual na Líbia andam a contar votos há uns, quê?, quarenta anos? Caramba, agora fiquei deprimido.]

Arrastei-me gemendo (mas baixinho, um homem tem a sua dignidade, mesmo eu) até à sala das máquinas, onde uma médica muito gentil me solicitou, com desconcertante naturalidade, que baixasse as calças até aos joelhos e me deitasse. Achei a coisa algo descabida, afinal acabáramos de nos conhecer, mas a D. estava na sala ao lado e aparentemente não só aprovava como até incentivava o procedimento; e quando assim é, leitor, não há que questionar, apenas obedecer.

A médica procedeu então ao ajuste de uma maquineta que parecia saída de um livro de Júlio Verne, embora com um ar mais antigo, e eu aproveitei para quebrar o gelo: não é todos os dias que se está deitado numa marquesa com as calças pelos joelhos e a conversar com uma completa desconhecida. Ela revelou-se, há que dizê-lo, uma pessoa muito interessante e de uma simpatia a toda a prova. Não teria mais que 25 ou 55 anos e a sua especialidade era Psicologia, nem precisava de o ter dito, o facto de estar ali a tirar raios-X tornava isso tão óbvio.

Enfim, radiocintilante leitor, quando abandonei o hospital ia na posse daquilo que pretendia – um enorme envelope amarelo que fiz questão de exibir o mais possível aos restantes pacientes, não fossem eles pensar que eram mais doentes do que eu. Há que dominar o território, conservar a guarda bem alta, manter o adversário sob controlo: muitos não imaginam o quanto, no sórdido mundo do hospitalismo profissional, é acesa, feroz até, a competição.

28.9.09

Um patrício

Conta Suetónio que, ao tempo em que governava a Hispania Tarragonensis, o futuro imperador Galba determinou que fosse crucificado, junto com alguns criminosos de extracção vulgar, um homicida por envenenamento (pouco importa quem era a vítima, caso de heranças, decerto enfadonho como o são quase todos os casos de heranças).

O condenado, proeminente cidadão romano, ficou revoltado por o emparelharem com baixa companhia e apelou ao governador, que não deixou de se mostrar sensível à argumentação.

No dia aprazado, e em público reconhecimento do seu elevado estatuto, a cruz do ilustre patrício foi colocada mais alta que as restantes e cuidadosamente pintada de branco.

Bandeira de Papel


Cravo & Ferradura, DN, 28.9.2009