Sexta-feira, Maio 16, 2008

Realidade é


O elenco de Feios, Porcos e Maus num drama psicológico de Woody Allen.


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O Mandarim


Li algures: a angústia de ter que actualizar os blogues está a fazer disparar o número de ataques cardíacos nos EUA.
Já imaginou? Eu com uns pós de ansiedade porque estou há dois ou três dias sem postar, e pum – um sujeito que não conheço de lado nenhum cai duro na 5ª Avenida.

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Quinta-feira, Maio 15, 2008

Bandeira de papel



Cravo & Ferradura, DN, 8.4.2008

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Segunda-feira, Maio 12, 2008

As Vidas dos Filósofos: Diógenes de Sinope


Observando, certo dia, um menino que bebia água das mãos em concha, o filósofo cínico Diógenes envergonhou-se de possuir uma tigela quando comprovadamente ela não era necessária; desfez-se do objecto e passou a beber água apenas quando havia crianças por perto. Conta-se que Diógenes percorria as ruas da cidade de Atenas em pleno dia com uma lanterna acesa na mão e, quando questionado sobre a razão por que o fazia, afirmava: «Procuro um homem honesto, ou três que saibam jogar à Sueca». Alexandre o Grande, que garantia querer ser Diógenes se não pudesse ser Alexandre, deslocou-se um dia ao barril que o filósofo habitava e perguntou-lhe o que podia fazer por ele. Diógenes respondeu que seria supimpa se parasse de lhe tapar o sol com as peneiras, após o que o grande conquistador lhe ofereceu um corte de barba grátis. Conta-se ainda que, quando em viagem para Egina, Diógenes foi capturado por piratas e vendido como escravo. Interrogado sobre as suas aptidões laborais, respondeu que apenas conhecia o ofício de mandar e sugeriu que o vendessem a alguém que estivesse precisado de um senhor. Foi libertado por inadaptação, uma decisão que não deixaria de fazer jurisprudência. Da morte de Diógenes chegaram-nos quatro relatos, qual deles o mais verosímil: a) sofreu uma congestão por comer polvo cru; b) não resistiu à infecção de uma ferida provocada pela mordida de um cão; c) susteve a respiração; e d) nenhum dos anteriores.

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Da Felicidade


Estive quase dois dias sem sentidos, recuperando do livrinho de Sartre. A alternativa era o suicídio, mas, como argumentou Cioran quando lhe perguntaram por que razão insistia em viver se isso o fazia tão miserável, «não existem garantias de que depois de morto as coisas melhorem». Se não melhorassem, já pensou? Continuaria a sentir-se miserável, mas com muito pior aspecto. Além disso, e ao contrário do que a maioria parece acreditar, a pessoa feliz não é aquela que permanece num estado de patética euforia, mas a que sabe apreciar uma boa tristeza.

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Great Expectations


«Pai, preciso de alguma coisa para guardar as minhas poesias.»
«Ok. Tipo o quê? Uma capa?
«Não, uma capa, não. Um baú. Como o do Pessoa.»

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Sábado, Maio 10, 2008

Decerto, Hegel colocou a questão do ser das consciências



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Quinta-feira, Maio 08, 2008

O Cão no Alpendre


Severino chegou a casa após um dia de trabalho particularmente cansativo e encontrou o cão à espera, no alpendre, com um par de pantufas na boca. Achou isso estranho, até porque não tinha cão. Entrou na pequena vivenda e indagou em voz alta de quem seria o bicho engraçado que o aguardara à entrada. A mulher perguntou-lhe a partir da cozinha como podia não se lembrar que era deles. Ele estranhou a pergunta, até porque não se recordava de ser casado. Subiu ao quarto, tirou a roupa, pousou-a em cima da cama e entrou na casa de banho. Estranhou o duche, até porque não se lembrava de ter cortinas com estampados de meandros gregos. Acabara de abrir a torneira quando ouviu as vozes agitadas de um homem que entrava no quarto e da mulher que o seguia. O homem abriu a porta da casa de banho, soltou um «AHÁ! EU SABIA!» e desferiu seis tiros contra a sombra para lá da cortina. Ouviu-se um tombo. Severino olhou o sangue misturando-se com a água e ponderou os recentes acontecimentos. Concluiu que só podia ter entrado inadvertidamente na casa dos vizinhos – e riu-se da distracção. Mas deitado a seu lado, ganindo e lambendo-lhe a mão, estava o cão que o esperara no alpendre com um par de pantufas na boca.

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Quarta-feira, Maio 07, 2008

Ofélia Metafísica


Todos os dias, de manhã muito cedo e ao anoitecer, Ofélia sentava-se à janela para ouvir os pássaros que por aquelas horas sempre cantavam na rua; e sentia que a existência não era vã, que o universo não era um local frio e desolador, que a vida valia a pena ser vivida.

Mas o dia chegou em que, por falta de verba, os pássaros foram despedidos. Sem hora para entrar nem sair, eles começaram a vagabundear pelo bairro, sujando as roupas nos estendais e pipilando noite e dia sem parar.

Ofélia não soube mais o que pensar da existência, do universo e da vida.

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Bandeira de papel



Bandeira de Canto, JN, 2007

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Terça-feira, Maio 06, 2008

Epifania (adenda)


Inspirado pelo exemplo da Rodrigues (ver uns postes abaixo), decidi revelar ao mundo uma bonita foto «antes», de há oito anos, quando eu ainda tinha uma silhueta esguia, bastante cabelo e uma vida esplendorosa, e uma «depois», mostrando ao que um homem pode ficar reduzido (ou aumentado) enquanto o diabo esfrega um olho.

É claro que a vaidade fez-me escolher uma foto «depois» sóbria, elegantíssima, tirada por um excelente fotógrafo durante uma entrevista para um artigo que deveria dar a ideia que eu tinha algo de importante a dizer. A foto não apenas me favorece, como não mostra as partes do corpo que mais me embaraçam. Queria o quê? Toda a verdade?

Ora, tenha dó.


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Epifania


Hoje, ao fazer a barba, tive uma epifania: a minha barriga quase não se nota em jejum. Então decidi que a partir de amanhã não comeria mais. A minha filha, com quem almocei, reconheceu os aspectos positivos da ideia (mostrei-lhe a barriguinha antes e depois de almoçar), mas achou que eu ia ficar demasiado fraco para usufruir dos benefícios. Pensámos um pouco e determinámos que eu passaria a sair com mulheres apenas da parte da manhã.

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Segunda-feira, Maio 05, 2008

Oh, ok


Oh, ok, a verdade é que estive a ler Cioran. Tenho as obras completas, que vou consumindo aos pedacinhos porque ele deixa-me sempre à beira do suicídio.
É certo que nunca cheguei a vias de facto, mas isso é porque os bombeiros não autorizam. Dizem que não tenho condições de segurança.

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Pergunta


Eu queria muito escrever um poste com graça ainda hoje, mas está difícil. Posso escrever dois sem graça?

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Domingo, Maio 04, 2008

Bandeira de papel



Cravo & Ferradura, DN, Setembro-Novembro 2007

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Retrato do Artista enquanto Jovem Indolente


O dia de ontem começou ao som de trombetas marciais e rufar de tambores. Eu espiei a rua através da janela, decidido a defender bravamente o castelo ou perder o sono tentando, mas soube que apenas me restava a capitulação quando percebi que os bombeiros tinham capturado as crianças do povoado.

Passei o corpinho por água fria (ahahah mentira, era quente, mas achei que escrever isso me daria um ar destemido) e dirigi-me ao baú do e-mail atrasado. Ainda respondi a umas estudantes universitárias que querem fazer o meu «perfil» – podem talvez começar por dizer que eu respondo aos e-mails num ritmo, eeeh, pausado – e a mais duas ou três missivas electrónicas que tratavam de questões imperiosamente inadiáveis desde o ano passado. Foi então que senti uma vontade irreprimível de descobrir o caminho marítimo para o Quebeque, passando pelo café e pela banca dos jornais, e determinei continuar o trabalho epistolar mais tarde nesse dia. Não aconteceu. Talvez hoje, mas estou com tanto que fazer, tanto que fazer.

Uma amiga que sabe como eu sou relapso com a correspondência enviou-me um e-mail contendo apenas um ponto de interrogação. Bolas, como ela é esperta.

Os canadianos em geral, e em particular os do Quebeque, não sabem falar francês.

O uísque canadiano (argh) grafa-se «whiskey», como aliás o americano e o irlandês. Até agora, só o uísque escocês gozava do privilégio de ser escrito sem o e, assim: «whisky». Digo até agora, porque um uísque japonês foi há dias considerado o melhor do mundo, e eles já admitiram que o copiaram descaradamente dos escoceses no início do século passado.

A principal diferença entre os uísques escocês e irlandês: o escocês fuma durante o processo de destilação.

Acho que foi o iluminado do Pascal quem primeiro disse que o coração tem razões que a razão desconhece, o que não deixa de ser extraordinário vindo de alguém com nome de linguagem de programação.

Agora perdi-me.

Ah! Sim.

Com todas as vaquinhas, ovelhas, flores, formigas, cobras repelentes e natureza em geral à sua espera lá fora para o atacar, o meu filho mais novo estava há quase dois dias deitado no chão a ver TV. O livro de citações edificantes não produziu qualquer efeito, nem mesmo quando o atingiu na cabeça; restava-me partir para a violência. Inspirando-se num episódio do Dr. House (que para azar dele eu também vi), ele diz agora que não se pode pôr de pé porque tem «um rim pendurado» por causa das cócegas que lhe fiz.

Escudado nas diferenças ontológicas entre televisor e monitor de PC, pôs-se a jogar SIMS. Tinha pedido um bolo numa esplanada virtual, mas uma mulher que ele diz não saber quem seja levou-lhe a guloseima e sentou-se noutra mesa a comê-la. Ante a indignação do rapaz, tive que lhe explicar que é isso que elas fazem – roubam-nos bolos nas esplanadas. É certo que raras vezes os roubam inteiros. Ele apanhou uma das tesas.

Contra o meu conselho, o rapazito está neste momento a tentar roubar o bolo de volta. Vai ser um massacre, mas pode ser que ele tire algum ensinamento disso.

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Sábado, Maio 03, 2008

Segismundo e Bradamundo


Séculos antes de Gladstone e Disraeli sonharem com prazer que enfiavam as cabeças duras um do outro em taças de ponche, o cavaleiro liberal Segismundo e o cavaleiro conservador Bradamundo, seus mentores, pelejaram pela coroa de um pequeno reino muito próspero.

Segismundo parecia haver ganho terreno quando lançou a ideia, aliás mais tarde retomada por Gladstone, de que o liberalismo supõe confiança nas pessoas temperada com prudência, ao passo que o conservadorismo se alimenta de desconfiança nas pessoas temperada com medo.

Em tal ouvindo, Bradamundo atemorizou-se e cortou a cabeça ao adversário, o qual se calou.

Os juízes da lide não precisaram de muito tempo para declarar o golpe ilegal, e os habitantes do reino, que acima de tudo eram justos, antes quiseram coroar a cabeça sem vida do pretendente caído que oferecer o trono a um destemperado.

Na era vitoriana, o pequeno reino prosperava ainda; e os seus habitantes, dizia-se, continuavam justos. Quando algum forasteiro lhes perguntava se estavam satisfeitos com o seu rei, diziam: Segismundo, o Liberal? Não reina nem bem, nem mal.

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Sexta-feira, Maio 02, 2008

No simulacro de Juízo Final


No simulacro de Juízo Final todo o mundo ria e galhofava, e os condenados aos infernos soltavam ais insinceros e faziam um grande esforço para parecerem chateados.

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Quinta-feira, Maio 01, 2008

Rodrigues


Hoje estou sem tempo, mas não faz mal porque eu também não saberia o que dizer deste blogue.

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Se eu usasse etiquetas: Bebés, Buxtehude, gatos, maternidade, Nikon, sem palavras

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Quarta-feira, Abril 30, 2008

Como comportar-se num concerto


Leve sempre um cachecol comprido que o faça notado, de preferência em linho e numa cor forte. O importante é que não condiga com nada que traga vestido. Diga que perdeu a conta às constipações que apanhou naquela sala «com a merda do ar condicionado» e deixe no ar a possibilidade de um processo judicial. Acrescente qualquer coisa sobre o mal que «aquilo» faz à voz dos cantores líricos e os efeitos deletérios que tem na afinação das cordas de tripa. Nunca use gravata, a não ser que tencione vender automóveis no intervalo: uma gravata dar-lhe-á o ar de quem está ali com bilhetes oferecidos por uma multinacional de restauração. Acene brevemente para o solista quando ele entrar, apenas o suficiente para que os vizinhos do lado pensem que o conhece. Com todas as luzes apontadas ele mal conseguirá ver-lhe a cara, pelo que, com sorte, corresponderá com um sorriso e um aceno de cabeça. Se o solista for um homem e cometer esse erro, ignore-o com soberba. Se for mulher, atire-lhe um beijo e grite com voz rouca «ti aspetto dopo il concerto, cara mia». Se o leitor for do belo sexo, aja exactamente da mesma maneira. Antes do início do concerto, tussa bastante e deixe cair o programa ao chão duas ou três vezes, fazendo algum ruído; durante o concerto, tussa quanto baste e deixe cair o programa ao chão duas ou três vezes, fazendo algum ruído. Tomá-lo-ão por um conhecedor blasé cujo grau de exigência o condena a uma inevitável desilusão. Em dois ou três pontos aleatórios do programa, bufe e murmure «inacreditável». A admiração por si converteu-se já em profundo respeito, medo até: é agora um Dr. House da música erudita. Não estrague tudo cometendo o erro de acompanhar a música com movimentos de cabeça ou batendo o pezinho. Mantenha-se hirto e boceje de vez em quando, pigarreando sempre. No fim do concerto, se constatar que a audiência se levanta de forma espontânea (o que acontece quase sempre nos mais badalados), permaneça sentado e bata algumas palmas em ritmo de condescendência. Nunca aplauda em primeiro lugar, a não ser que conheça o programa de trás para frente e saiba exactamente quando termina a obra. Nesse caso, tente ser o primeiro a fazê-lo. Se alguém se antecipar, verifique se o seu rival traz um cachecol comprido. Se sim, grite um «Bravo!». Se não, olhe-o com desdém e abane a cabeça em sinal de reprovação. Se constatar que ninguém aplaude de pé, levante-se e aplauda com veemência. Em dois minutos, toda a plateia estará em pé, imitando-o. Se não estiver, faça como Charles Ives e chame-lhes maricas.

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Triplo salto


Saltou a primeira vez, depois a terceira, e ao falhar arrependeu-se de ter saltado a segunda.

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Terça-feira, Abril 29, 2008

Lede, oh presumidos, e envergonhai-vos


O Pedro Lamy venceu os 1000 Km de Monza. Fico contente por ele. Se sou aficcionado do desporto automóvel? Bem, não, não sei o suficiente sobre motores de combustão interna, à excepção dos Wenkel de dois tempos. Esses não têm segredos para mim. Mas acho o Pedro Lamy um piloto fora de série, uma excelente pessoa e um rapaz da mais fina sensibilidade desde que ele disse, num daqueles inquéritos de Verão que o Diário de Lisboa fazia, que o que mais apreciava ler no jornal era os cartoons (conheço muito quem partilhe dessa preferência, mas poucos teriam coragem de admitir em público que se atiravam aos bonecos antes sequer de ler a análise da conjuntura económica).

Eu tinha-me metido com o Lamy pouco tempo antes, precisamente nas páginas do DL, por causa daquele azar irritante de os carros lhe rebentarem nas mãos com a meta à distância de uma pedrada. Não sei onde anda esse boneco, mas lembro-me que tinha desenhado o nosso piloto de F1 deitado no sofá do psicanalista. Estava um Freud sentado atrás dele, tomando notas, e o Lamy dizia: «já em pequenino, quando íamos ao Porto, o carro avariava-se sempre em Vila Nova de Gaia».

E ele, uns tempos depois, desarma-me com aquilo.

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Goethe, Mozart e Elvira Madigan assistiam à TV por cabo quando de repente



Conheço bem os critérios que os publicitários utilizam para escolher bandas sonoras, mas não serei eu quem trará à profana luz do dia segredos profissionais escondidos há séculos nessas caves esconsas e húmidas. O estafeta que atira a moeda ao ar escolheu desta vez o andante do Concerto para Piano nº 21, de Mozart, para o novo anúncio de TV da «ZON TV Cabo». Amadeus não era assim honrado desde que alguns anos atrás uma marca de papel higiénico deitou mão do seu Et Incarnatus Est, da Missa em Dó menor, para um comercial de rádio e TV.

Mas o supracitado andante tem já uma história recente agitada. Ele foi utilizado, no final dos anos 60, por um realizador sueco, Bo Widerberg (nessa época a Suécia tinha dois realizadores), no seu filme Elvira Madigan. Por um desses fenómenos de contaminação tão frequentes na sociedade pós-moderna, o nome surge hoje impresso em quase todas as gravações do Concerto para Piano nº 21.

O filme, que eu apenas tive oportunidade de ver há poucos anos (no final dos anos 60 eu tinha um interesse limitado em cinema sueco), baseava-se num caso verdadeiro de amor que tivera lugar um século atrás e que acabara de forma trágica. Um tenente de cavalaria sueco – são sempre tenentes e sempre de cavalaria, embora raramente suecos – e uma funâmbula dinamarquesa, Elvira Madigan, tomaram-se de paixão incontrolável. O oficial de 35 anos, Sixten Sparre, abandonou mulher e filhos e desertou do exército para fugir com a equilibrista, de apenas 21. Perseguidos e sem dinheiro, tomaram uma decisão de acordo com o espírito que Goethe inaugurara um século antes com o seu Werther. Após um piquenique na floresta em que gastaram as últimas moedas, o tenente Sparre disparou contra Elvira e depois contra si mesmo com o revólver do exército. Como é de lei em ocasiões do género, os corpos estavam juntinhos quando os encontraram.

Sixten Sparre e Elvira Madigan morreram em 1889. Mozart escreveu o Concerto para Piano nº 21 em 1785, onze anos após a publicação de Werther.

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Veja aqui algumas cenas do filme. Não consigo imaginar o que passou pela cabeça de quem fez o clip para lhe enfiar essa banda sonora. Nem sei o que é, soa a banda americana melosa de há umas décadas, tipo Boston. É como assistir a E Tudo o Vento Levou ao som dos Beach Boys.


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Correntes


Aqui e aqui distinguem-me, e eu, fingindo-me humilde mas na verdade quase rebentando de volúpia como uma boa digerindo um elefante, agradeço. Baixo ainda o pescoço para que nele me pendurem a corrente que ganhei aqui e a que ainda devo ao Casanova. Pode demorar um pouco, mas tereis notícias minhas.


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Domingo, Abril 27, 2008

Operar é humano


A intervenção era de rotina. Mas a mulher do cirurgião fugira nessa mesma manhã com o proctologista, e ele, que era apenas humano, operou para esquecer.

O paciente acordou na madrugada seguinte com o ventre rígido, dores agudas e vontade de dançar slow. Tiraram radiografias, entraram em pânico e ligaram para o telemóvel do cirurgião. Ele não demorou dez minutos. Tinha aspecto de quem passara a noite a vender as mágoas aos pombos no relvado do hospital. Olhou a radiografia e a queixada por barbear tombou-lhe no peito. Esquecera um velho single de 45 rotações no interior do paciente. «A nossa música», gemeu chorando, e encostou o ouvido à barriguinha dele.

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Nanoconto de horror


Erguer a laje era a parte fácil.

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Bandeira de papel



Cravo & Ferradura, DN, 26.4.2008

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Sábado, Abril 26, 2008

Isto é que eu achava bem que a mocidade soubesse


1 – Quem foi o primeiro presidente da Refer?
2 – Quantos quilos tinha Mário Soares quando combateu o totalitarismo?
3 – Quantos anos tinha Paulo Portas quando combateu o sarampo?
4 – Qual a alcunha do carteirista das 12:30 na carreira do eléctrico 28?
5 – Quantos deputados têm os restaurantes de S. Bento à hora de almoço?
6 – Quem foi o primeiro presidente da junta?
7 – Com quantos paus se faz uma canoa?
8 – Que acontece a uma canoa se algum barco a abalroa?

9 – Etc.

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Ninguém espera a Inquisição Indiana


Tendo que escolher entre ficar fechado numa carruagem de metro com inquisidores ou com bruxas, eu provavelmente escolheria as bruxas: inquisidores não conseguem transformar-se em miúdas giras. Torturem-me com galinha tandoori que eu rirei muito alto e não mudarei de opinião. Li no meu tempo (como eu gosto desta expressão, no meu tempo, ainda há uns anos não a poderia ter usado) o Malleus Maleficarum, da dupla Sprenger & Kramer, e achei as bruxas pess... criaturas interessantes e com as quais se pode passar um serão divertido. Dificilmente se poderá dizer o mesmo desses dominicanos psicopatas que nunca tomavam banho e passavam a vida a fazer perguntas às pessoas. Todos sabemos o quanto isso é chato, sobretudo se as perguntas são do género quantos deputados tem o parlamento ou qual foi o primeiro presidente eleito depois do 25 de Abril.

Não me importo que a minha vizinha de frente deite cartas, o de baixo seja vidente e o de cima economista. Ok, admito que o economista me perturba um bocadinho. Enfim: cada um acredita no que quer, olhe a psicanálise lacaniana e a língua basca. Desde que não me atirem coisas sem cabeça para cima dos lençóis lavados, por mim tudo bem.

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Not Toulouse


Consegue pior, melómano leitor, que assistir hoje ao Parsifal, de Wagner (Mezzo, 19:30). Não cometa o erro grosseiro de lhe chamar ópera: trata-se, sim, de ein bühnenweihfestspiel, que é uma coisa completamente diferente. Se Wagner o chateia (não vejo porquê), tem bom cinema mexicano praticamente à mesma hora, guay: «Amor Cão» (Amores Perros, TVC3, 19:25). Last but not least, sugestão de leitor, a Antena 2 passa Donizetti: La Fille du Regiment, a partir das 18:30.

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Quinta-feira, Abril 24, 2008

Inevitável


Tirou a carta de condução no dia 24 de Abril de 74. Era inevitável que alguém, um dia, lhe dissesse que esse fora o último crime do fascismo.

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Quarta-feira, Abril 23, 2008

Dois Dias na Vida de Francis de Atenas


Francis de Atenas passara mais uma noite combatendo a insónia, esse monstro verde de olhos de sangue, ou talvez a Lurdes – ele nunca conseguia distinguir entre os dois. Tinha os olhos magoados como bolas de golfe após uma pancada de ferro 3. Essa pareceu-lhe uma imagem apropriada, apesar de nada saber de golfe, e ele sentiu-se satisfeito por a ter engendrado. Quis anotá-la (um dia ele escreveria uma Crónica do Que Sucedeu neste Reino durante as Insónias de Francis de Atenas), mas a treva que velava o quarto não lhe permitiu encontrar a escrivaninha. Arrastou-se até à janela, guiado por um cabelo de luz que dali vinha, correu o enorme reposteiro com um gesto dramático e abriu as portadas de madeira. O sol bateu na face de Lurdes como o capitão Bligh num marinheiro, mas ela não parou de ressonar. Francis de Atenas correu para a escrivaninha, abriu o tampo e estacou, lívido, com a mão a poucos centímetros da pena de pato.

Esquecera-se do que queria escrever.

Voltou as bolas de golfe na direcção de Lurdes. Ela estava a dormir ininterruptamente desde o baile de máscaras de duas noites atrás, quando o forçara a levá-la, fantasiada de Eva, ao palacete de Rodrigues, o Trácio. Francis suou ao lembrar-se do trabalho que haviam tido para lhe vestir a folha de figueira sem a rasgar. A máscara fora um sucesso, claro, e ele tivera que arrancar a mulher das mãos e do resto do corpo de Adão, isto é, de Fred de Mégara, que se afadigava a ensinar a Eva o que o Criador não teria querido que ela de forma alguma aprendesse, muito menos durante um baile de máscaras e com um copo de champanhe na mão. E agora ali estava Lurdes, ressonando como uma gaita de foles tocada por um inca aflito para ir à casa de banho, e impedindo o marido de se lembrar das ideias para a sua Crónica do que Sucedeu, etc.

Entorpecido pela privação do sono, Francis deitou-se na cama de dossel e, fechando os olhos, tentou recordar-se da frase que inventara sobre bolas de golfe.

Se Deus existe, porque permite a coincidência? Não sei, mas no preciso momento em que Francis fechou os olhos, Lurdes acordou. Ela conferiu a data e a hora no relógio electrónico e fungou. Depois olhou para a janela aberta e, por fim, para o marido, que dormia já profundamente. Então abanou-o com força, meio zangada por ele estar a dormir havia já dois dias e, ainda por cima, ressonando daquela maneira.

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Terça-feira, Abril 22, 2008

A trilha


Uma amiga fala-me dos problemas que tem com um vizinho. Eu tento aligeirar a conversa sugerindo que lhe deite um mau-olhado. Ela ri (claro) e responde que nunca o faria (ora, eu sei, eu sei), até porque isso seria «abrir a porta» (hem?). Ela percebe a minha expressão de Dorian Gray olhando o retrato do Mal e explica-me que «quem abre a porta fica vulnerável». Então eu, fingindo que não estou com muito medo, felicito-a por se manter firme na trilha da racionalidade.

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Singelos pensamentos de um insone


A pessoa prudente pensa duas vezes antes de agir. O esquizofrénico, quatro. O insone pensa até de madrugada e na altura de agir adormece.

O insone pensa muito; logo, o insone existe muito.

Pegue um livro e o sono vem. Largue o livro e o sono foge.

(O motejo acima aplica-se sobretudo à lírica de Camões, em particular quando vertida para romeno.)

A insónia é uma amostra grátis de eternidade.

O insone é um vivo compulsivo.


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Este insone pede desculpa pela pobreza e falta de profundidade destes singelos pensamentos. Eles são a prova de que tentar usar o cérebro durante uma insónia é como tentar guiar máquinas agrícolas depois de engolir um frasco de soníferos: nunca se consegue encontrar uma para ver no que dá.

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Dois centímetros vírgula sete


O dentista ia atirando uns números à assistente enquanto «limpava os canais». De início pensei que devia ser apenas para armar, que nenhum daqueles termos fazia sentido e que eles estavam a rir muito, lá por baixo das máscaras antissépticas, e a piscar o olho um ao outro. Que realidade médica podia existir por detrás de um «15-31»? Assim que os meus queixos saíram do limbo, confrontei o doutor. Ele pareceu contente por eu me interessar pelos arcanos da odontologia (tem conversado com o seu dentista ultimamente, leitor?) e explicou-me que os números representam, afinal, simples milímetros. Depois mostrou-me uma radiografia do dente que estivera a tratar e gabou-lhe a imponência: tem 27 mm de comprido e quase atravessa a mandíbula de um lado ao outro. «Mas isso são dois centímetros vírgula sete!», impressionei-me eu, e ele confirmou, «Dois centímetros vírgula sete».

Senti-me muito homem.

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Segunda-feira, Abril 21, 2008

Bandeira de papel



Cravo & Ferradura, DN, 4.3.2005

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Limite


O poeta e cronista Manuel António Pina disse-me um dia que não existem frases tão importantes que não possam ser excluídas de um texto. Tinha razão, claro.

As experiências que levei a cabo mostraram-me que num volume de, digamos, quatrocentas páginas, existem não mais que dez ou vinte de informação relevante, e que mesmo essas, em havendo arrojo e querer, podem ser dispensadas.

No limite, um livro pode ser condensado num título que não contenha uma única palavra.

Ultrapassado esse limite, deixam de existir garantias.

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Impulso


Ao contrário do que sucede com os filhos dos outros, que são broncos, horrorosos e intratáveis, os nossos filhos são espertos, bonitos e simpáticos. A natureza faz com que os vejamos assim para que não sintamos o compreensível impulso de os vender na primeira oportunidade.

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Domingo, Abril 20, 2008

O assassino confesso de Guilherme de Orange


A enumeração dos suplícios a que foi submetido o assassino confesso de Guilherme de Orange não constitui matéria para ouvidos delicados. Do vulgar arrancar de unhas ao sofisticado esmagamento de pés em calçado de ferro e madeira, Balthasar Gérard tudo suportou com uma tranquilidade que causou espanto. Divina, asseguraram os católicos. Diabólica, gritaram os protestantes. De doido varrido, pensaram baixinho os ateus. Nas palavras do americano John Lothrop Motley, que muito mais tarde escreveu uma História da Ascensão da República Holandesa, Gérard não era «nem completamente fanático, nem inteiramente rufia, antes combinava as mais perigosas características de ambos». Mas que no homem havia algo de profundamente perturbador, isso havia – bastava vê-lo na amena cavaqueira com quem quer que estivesse por perto nos intervalos das sessões de tortura, durante as quais, em contraste, não soltava sequer um ai.

A sentença do tribunal – «indigna daquele que era suposto vingar», escreveu Motley, embora eu mantenha prudente reserva quanto ao que possa ter escrito alguém com o seu corte de cabelo – foi zelosamente cumprida perante uma assistência, se não selecta, pelo menos interessada. Em jeito de prelúdio simbólico, queimaram a mão direita do condenado com um ferro em brasa. Enterraram-lhe depois pinças até aos ossos em seis locais diferentes e, puxando-as, arrancaram quanta carne ali havia. Gérard foi então esquartejado e esventrado vivo. Os holandeses possuíam naquele tempo fama de mercadores chatos, gente obtusa sempre vestida de preto que só pensava em acumular florins e não ia a um cinema, mas tinham ideias muito precisas sobre como tornar interessante um domingo de chuva.

Um supliciado do calibre de Balthasar Gérard não aparecia todos os dias (e quantos Guilherme de Orange havia para assassinar?), pelo que os executores estavam na disposição de fazer render o arenque sem cobrar horas extraordinárias. No ponto em que o haviam estripado, porém, deu-se um pequeno incidente, aparentemente sem importância mas que os deixou à beira de um ataque de nervos: uma lasca rebelde atingiu a orelha do homem que, a camartelo, destruía a arma com que Gérard cometera o crime. Como sempre acontece quando alguém perde a face em público, ouviu-se uma gargalhada geral. Mas o gargalhar transformou-se num murmúrio de assombro no momento em que a assistência percebeu que Gérard – ou a amálgama de carne, sangue e ossos que fora Balthasar Gérard – sorria também.

Gente simples e temente a Deus, povo e verdugos tiveram medo. Apressaram-se a arrancar-lhe o coração e a atirar-lho à cara; só então a expressão de divertimento desapareceu da face do assassino confesso de Guilherme de Orange.

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Bandeira de papel



(Os 5-3) Bandeira de Canto, JN, 17.4.2008

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Quinta-feira, Abril 17, 2008

Not Toulouse


Já que falo de editores e derivados: mesmo que o leitor seja um daqueles poucos portugueses que não lêem – não há contradição, alguns estudantes não estudam, alguns escritores não escrevem, etc. –, mesmo que seja daqueles poucos portugueses que, dizia eu, não lêem, ainda assim pode ler sobre ler na Ler (entendeu? Ler sobre ler na... eh, ok). Também pode (e deve) ler o Sinusite Crónica, um ninho de gente talentosa unida pela triste condição clínica. E as saudades que eu tinha de ler o Nuno Costa Santos! Gente assim devia ser proibida. Pronto, já disse.

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Naturalmente


Se os livros de poesia são traduzidos por poetas, como se explica que as editoras não tenham o mesmo grau de exigência em relação aos livros de humor?

Deviam, naturalmente, ser traduzidos por revisores oficiais de contas.

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Ervilhas com ovos


Olho as ervilhas com ovos escalfados e lembro-me da primeira refeição que cozinhei. Era um bife com batata frita e ovo a cavalo, mas parecia ervilhas com ovos escalfados. Para dizer a verdade, sabia a ervilhas com ovos escalfados. Eu andava pelos meus dezoito anos, tinha acabado de sair de casa dos pais – dos meus, bem entendido – e estreava a kitchenette de um pequeno apartamento. Desci à rua umas vinte vezes enquanto cozinhava. A primeira para comprar o bife, os ovos e as batatas. A segunda para comprar uma faca capaz de cortar casca de batata. A terceira, para comprar uma frigideira e uma fritadeira. A quarta, para comprar margarina, óleo de fritar e temperos. A quinta... bem, acho que já percebeu a ideia. A última saída foi para comprar detergente para a loiça e um bolo para tirar o gosto horrível que tinha ficado na boca. Olhe, sabe que mais? Eu como essas ervilhas com ovos depois.

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Quarta-feira, Abril 16, 2008

Um Funâmbulo na Primavera


Horácio, o detective que cita errado

Concluído que estava o caso da mulher que enganava o marido com um anão de jardim gigante, eu não me sentia lá muito animado. Sempre fora um homem de certezas, mas agora o mundo parecia-me estranho e os anões de jardim também. Como dizia o Hamlet, «Horácio, não negues à partida uma ciência que desconheces». Fui buscar a Lisete ao bar onde ganha uns cobres como table dancer e levei-a a jantar a um pequeno restaurante da zona ribeirinha. Os preços eram acessíveis. Sabemos que a crise está para ficar quando o Filet de Canard Garni au Chocolat Amer et Pomme de Terre Rösti entra no menu de 7,5 € com direito a bebida, café, digestivo e Borda d'Água do ano em curso. O empregado era um desses dramas funambulares iminentes, ainda novo mas balançando já entre o lado da tragédia e o da comédia. A maioria acaba por cair na tragédia. Afinal, a comédia sempre exige algum talento, ao passo que para trágico todos nascemos ensinados.

A duas mesas de distância sentou-se um casalinho quase ilegalmente jovem. Os modos hesitantes denunciavam um primeiro encontro. Investigada a ementa, ele escolheu pataniscas de polvo com arroz de cenoura e grelos. Ela, filetes de linguado com arroz de cenoura e grelos. Tinham uma coisa em comum! Riram-se muito, fazendo brilhar os aparelhos, e começaram a tentar acertar com bolinhas de miolo de pão na boca um do outro. Então tiraram os auriculares dos ouvidos, deram-se as mãos e olharam-se fixamente nos olhos. O drama funambular ia para tomar nota dos pedidos e arruinar o momento, mas eu interpus-me e levei-o até ao aquário para escolher o peixe. Enquanto ele negava que em algum momento um peixe-espada pudesse ter andado a nadar por ali, os apaixonados trocaram o seu primeiro beijo. Desculpei-me dizendo que talvez o peixe-espada fosse apenas um lavagante com muito mau aspecto e regressei ao meu lugar, deixando o empregado desamparado como um personagem de romance russo. Enternecida, a Lisete ria e chorava ao mesmo tempo. Sem o saber, eu tinha marcado pontos. Talvez compensassem um pouco o rombo que eu dera no meu karma nesse dia. O certo é que me senti satisfeito como o Buda depois de transformar a água em vinho.

O casalinho saiu cedo do restaurante, provavelmente rumo ao cinema ou a um outro lugar de ambiente igualmente crepuscular onde houvesse pipocas e coca-cola. Éramos os últimos clientes na sala e, como dizia o coro naquela peça de Eurípides, «Páris e Helena não viam a hora de chegar a Tróia e tirar a roupa». Eu imaginava já a minha companhia dentro de um corpete Victoria's Secret com um par de asas e abertura fácil, e pelo toque do seu pé descalço pude perceber que ela vira os mesmos filmes que eu. O drama funambular começou a limpar as mesas e a coroá-las com as cadeiras. Paguei a conta com a nota amarrotada que arrancara da mão do marido traído. Infelizmente, ele não tivera a decência de fazer as contas antes de sofrer a apoplexia. Talvez eu devesse ter exigido o pagamento antes de lhe mostrar as fotos de jardinagem da mulher. Como é que o adivinho disse ao Júlio César? «Cuidado com o meio do mês». Apalpei os bolsos: tinha dinheiro suficiente para o simpático hotel de duas estrelas que nos sorria do passeio em frente. Saímos para a rua deserta. Através do envidraçado fosco da porta do restaurante ainda consegui ver o jeito arrebatado com que o drama funambular beijava a cozinheira, liberta já da rede que lhe prendia o longo cabelo negro de fogosa mulher mediterrânica.


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Sábado, Abril 12, 2008

Um homem acusou Almeyda de falar rebuscado


Um homem acusou Almeyda de falar rebuscado. Ele inchou, bufou, objectou e marcou hora e local para a reparação da estultícia pelo menear do fero aço.

No dia aprazado, chegou à clareira deserta do bosque ainda antes da alba e esperou; mas ninguém apareceu, porque ninguém conseguira perceber o que ele dissera.

Encontraram-no semanas depois, na clareira, morto de vergonha.

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Quinta-feira, Abril 10, 2008

Bandeira de papel



Cravo & Ferradura, DN, Março 2008

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Um homem recapitulava toda a sua vida


Um homem recapitulava toda a sua vida enquanto a maca que ocupava deslizava pelos corredores; e pensou que não a havia vivido na sua plenitude. O rio em que não nadara em criança com medo das cobras de água. O primeiro beijo que não dera com nojo da saliva. As namoradas com quem não namorara porque não queria ter que tomar banho todos os dias. A mulher que não pedira em casamento porque não estava seguro de que ela tomasse banho todos os dias.

Então o momento chegou. O bem-estar, o túnel, a luz muito branca, as vozes chamando. A maca deteve-se. Mãos voaram como pássaros sobre o seu corpo inerte. Mas ele, como sempre, hesitou; e acabou tendo uma experiência de quase-morte.

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Um homem queria parar e não podia


Um homem queria parar e não podia. Seguiu pela Almirante Reis, atravessou a Rua da Palma e o Martim Moniz, contornou o Rossio e desceu a Rua Augusta até desembocar na Praça do Comércio, onde deu umas voltas tentando perceber o que fazer.

Então chegou o domingo, o trânsito foi interrompido e ele deitou-se ao Tejo, o que o curou.

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