17.7.09
16.7.09
Urgências
No sinal luminoso lia-se “URGÊNCIAS”, mas a recepcionista decidiu que o meu problema não merecia atenção clínica, muito menos àquelas horas perdidas, e sugeriu a tasquinha-aberta-24-horas ali ao virar da esquina ou qualquer coisa tipo oriental que metesse agulhas e isso. Eu retorqui que, desde que se pague, num hospital privado tudo é do foro clínico – dores existenciais, roupa que repentinamente deixou de nos servir e angústias relacionadas com Literatura, incluindo os simbolistas. Então ela entregou-me a uma ortopedista a quem faltavam apenas duas noites para a reforma (problemas de ossos, percebi pelos estalidos; mas isso não importa, estamos a falar de MIM, ok?).
Conversámos bastante sobre tudo e sobre nada. Ela explicou-me que “a ortopedia foi o maior avanço da Humanidade desde que alguém percebeu que as arestas desgastadas de um berlinde o arredondavam e que dessa forma rolava bem melhor”. Nunca fui muito de jogos, mas achei isso interessante.
Saí do hospital sentindo-me outro. Um tal Nando que bebe J&B e trabalha num gabinete de contabilidade da Baixa. O J&B tudo bem, a parte mais chata ainda é essa da contabilidade. Caramba, logo eu, que em contas sou um nabo elevado à décima quinta potência.
Roupinha de época
Maquiavel vestia uma roupinha de época e colocava um copinho extra na mesa antes de começar a ler a obra de um autor. Verdade?, pergunta o leitor interessado. Ora, sei lá, veja na enciclopédia.
Pôr um copinho na mesa para o autor, que ideia simpática, mas isso da roupa… sabe, acho difícil de acreditar. Traje de época não se vendia em qualquer esquina e não estou a ver onde ia o Nicolau buscar referências para dar ao alfaiate. Se era pela pintura do seu tempo que ele se norteava, então, quando lia Tito Lívio (vamos supor), Maquiavel trajava armadura medieval completa, incluindo um cavalo esquisito – os cavalos das pinturas medievais eram sempre esquisitos – e uns cinco ou seis etruscos vestidos como turcos, note a assonância prestando-se ao equívoco, os cujos ele chacinaria e depois disseminaria pelo pavimento e sob os cascos da cavalgadura.
Mas pense um pouco. Não dava para fazer isso lá na bibliotecazinha da casa dele, nem mesmo encostando a mesa de carvalho e aquele grande candelabro de ferro à parede.
Nem sei por que escrevo estas coisas. Desculpe. Estou a ficar velho e isso não é fácil, em especial na minha idade. Como Colombo, porém, a algum lado hei-de chegar; e se em chegando constatar que estou no lado errado, dar-lhe-ei o mesmo nome do lado certo e pronto. Ser é ser chamado, etc., sabe como é.
Saravá
Que nome dar ao mais puro contentamento? O Luís M. Jorge regressou, e logo com belas fotos de Aveiro, a Veneza do nosso lindo Portugal.
Impressionista, moi? Jamé.
Éramos quatro – a A., o B. (eu), a C. e a D. (um dia, ah, um dia serei amigo do alfabeto inteiro) –, e contemplávamos, no primeiríssimo dia em que esteve suspenso na Gulbenkian, o famoso quadro de Henri Fantin-Latour onde surgem representados Paul Verlaine e Arthur Rimbaud. O jovem poeta deixa-se fascinar pelas imagens em movimento no plasma do restaurante, ao passo que Verlaine, o carequinha barbudo tapando-lhe a vista, planeia dar um tiro no companheiro e mudar-se para uma mesa onde, ao contrário do que sucedia na dele, o tinto estivesse a uma temperatura decente.
(Mais tarde, num arroubo de loucura, Paul tentaria assassinar Arthur com dois disparos. Apenas acertaria um, e de raspão. Rimbaud viveria até aos 37 anos, embora não tenha voltado a ficar bem em fotografias.)
No extremo oposto do quadro, o local que o pintor reservara para o poeta Albert Mérat, vê-se um bouquet de flores: Albert recusara-se a ser retratado em tal confraria. O acto de renitência não deixaria de ter as suas consequências. Hoje, apenas a sua família mais próxima lê a poesia que ele escreveu. O engraçado é que tanto Verlaine como Rimbaud consideravam Mérat o mais talentoso de entre todos os que estavam naquela mesa. Quero dizer, que não estavam… aaaah, sabe o que eu quero dizer.
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Foto 1: esse não é o famoso quadro de Fantin-Latour em que surgem representados Paul Verlaine e Arthur Rimbaud.
Foto 2: A A., a C. e a D. apreciam um belo cronograma de Henri Fantin-Latour.
13.7.09
9.7.09
Leiturazinha de praia
Agora que penso nisso, não percebo muito bem por que razão Dorrie (Charlotte Rampling) diz, em Recordações (Stardust Memories), não compreender nada do livro de Schopenhauer (Schopenhauer) que está a ler na praia. Logo ele, que nem é um filósofo difícil. Talvez a personagem estivesse a usar de humor, afinal o que importava naquela cena era o jogo de sedução; e essa atitude de achar que filosofia é incompatível com sexo não deixa de ser… ahm… sexy. Um pouco como a gestão de empresas, olhe Dias Loureiro, quão garbosamente ele diz que não entendia um quark do assunto.
Mas em O Mundo como Vontade e Representação, o magnum opus (gostou? É latim) de Schopenhauer, ele passa a maior parte do tempo a insultar outros filósofos, o que é bom, e Hegel em particular, o que é excelente. O espaço que sobeja, gasta-o queixando-se de ter um véu cobrindo-lhe as realidades (ele nunca conseguiu arranjar uma namorada) e de como isso é chato e sem remédio, o que o torna um pensador deveras interessante.
Lembrei-me, quando li O Mundo como Vontade e Representação, de sublinhar todas as frases em que Schopenhauer insultava alguém. Pela mensagem filosófica que elas continham, é claro, mas também porque isso me dava excelentes dicas para quebrar o gelo em reuniões de condomínio. Por exemplo, sobre Hegel encontro excertos tão elegantes quanto estes:
“Tornou-se o ponto de partida adequado para o ainda mais imbecil nonsense do desastrado e estúpido Hegel.”
“(…) a filosofia é reduzida a um simples processo combinatório, uma espécie de contabilidade que (como qualquer contabilidade) emprega e exige apenas as mais baixas faculdades. Dela resulta, por fim, um mero malabarismo com palavras, do qual o exemplo mais chocante é o oferecido por esse hegelianismo demolidor de intelectos, no qual é conduzida ao nível do mais puro nonsense.”
“Fichte é o pai da filosofia do logro, do método sem engenho que, através da ambiguidade no uso das palavras, de linguagem incompreensível e de sofismas, procura enganar, e tenta impressionar assumindo ares de importância; numa palavra, a filosofia que procura confundir e ludibriar todos aqueles que de facto desejam aprender. Depois de Schelling ter aplicado este método, ele alcançou o seu auge, como todos sabem, em Hegel, em cujas mãos se converteu em puro charlatanismo.”
“Na Alemanha era possível proclamar Hegel como o maior filósofo de todos os tempos, um charlatão repulsivo e estúpido, um escrevinhador de nonsense sem paralelo (…)”
Quer melhor que isso para uma leiturazinha de praia?
8.7.09
Tarde e a más horas
Para a Senhora Sócrates, o Carlos Narciso, o Carlos Santos, o Naked Sniper, o Fractura.net!, o Carlos Esperança e todos aqueles que me possam ter distinguido com o “prémio Lemniscata” e eu, por falta de mestria ou pura azelhice, não o haja percebido, a minha ∞ gratidão.
O Sentido da Vida
...não conheço ainda (estou a trabalhar nisso), mas posso esclarecer que o do poste anterior é dar razão ao que o bispo Berkeley postulou: a realidade material não existe, e Deus está permanentemente a bombardear-nos com imagens da Sharon Stone.
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A propósito: jamais pronuncie “bârquelei”, a não ser que esteja a referir-se à universidade que levou o nome do filósofo; quando falar do bispo, diga “bárquelei”, aquele “a” bem aberto, e espere que alguém o tente corrigir para então o espezinhar sem piedade. Em Filosofia, estas coisas têm a sua importância. Jamais esquecerei o vexame por que passei quando, influenciado talvez por certo guarda-redes da selecção francesa, disse “Barthèsssss” em vez do correctíssimo “Barthes”. Passou um ano antes que voltasse a ser convidado para palestras sobre Semiótica.
O Véu de Maya
O comboio prepara-se para partir (saberemos depois que o destino, à la Bergman, é uma lixeira). Dentro de uma carruagem sinistra e silenciosa, uma espécie de avatar da barca de Caronte, Sandy Bates (Woody Allen) observa, incomodado, os seus companheiros de viagem. Todos, homens, mulheres e pica-bilhetes, têm o ar deprimente de alguém a quem a vida espetou uma faca nas costas antes ainda de saberem pronunciar “offshore”. Um dos passageiros não aguenta a pressão e começa a chorar copiosamente; os outros entreolham-se, algo embaraçados; nem um se move.
Sandy olha através da janela e nota o alvoroço dentro do comboio que se prepara para partir em sentido contrário. Ali todos os passageiros são jovens e bem vestidos. O ambiente é de roaring twenties. Adejam taças de champanhe por sobre ombros nus e estolas de arminho. Uma mulher loura, linda, ri-se para Sandy e envia-lhe um beijo. E de repente,
“Olha a Sharon Stone.”
[Eu com ar petulante] “Hahaha qual Sharon Stone, esse filme deve ter uns cem anos, ela nem era nascida ainda hahaha.”
“Olha que é”.
Era.
Outra das minhas cenas favoritas de Recordações (Stardust Memories) é aquela em que Sandy mete conversa com Dorrie (Charlotte Rampling) na praia:
Compensou um bocadinho aquela outra vergonha, senti-me até um pouco sexy. Sim, porque eu, leitor, eu li Schopenhauer – embora não em público, descaramento tem limites, jamais seria capaz.
3.7.09
2.7.09
1.7.09
A Quarta Dimensão
Ao rever a coluna do Oleodoro publicada aqui em baixo, e enquanto cortava todos os termos em calão – ele é um homem de postura elegante mas a tia com quem cresceu tinha uma forma algo peculiar de se expressar –, pensava em como a culpa é, no fundo, do professorrrr Hermann Minkowski, matemático e grande bigode (pensava que eu não ia mais falar de Física? Hahahaha, como é inocente).
Ao ler os papéis que Einstein publicou em 1905 , Hermann lembrou-se de tratar o Tempo como uma quarta dimensão, inventando algo a que (modestamente) deu o nome de “Espaço-Tempo Minkowski”.
Se o concerto de Meldhau e Pinheiro tivesse sido apresentado em três dimensões apenas, isto é, sobre o palco da Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, no entroncamento da Alameda da Universidade com a Avenida Prof. Gama Pinto, e se a quarta dimensão – “às 21:30 do dia 29 de Junho de 2009” – não tivesse sido acrescentada, então talvez – note, talvez – a Fleurine tivesse aparecido no local apenas, sei lá, no dia seguinte, quando o resto da banda estava a tocar em Faro; e esse azedo Oleodoro seria hoje um crítico bem mais feliz.
A Coluna do Oleodoro
Dirá talvez que sou um bruto, mas Brad Meldhau e Chico Pinheiro tinham mesmo que convidar a Fleurine e a Luciana para o concerto deles na Aula Magna? A holandesa quase percebo, ela é a mulher do Meldhau e família não se escolhe (eu sei, eu sei que neste caso até se escolhe, faça o favor de não me estragar o efeito). A Luciana… certo, ela nem esteve mal e é bem menos loquaz que a loi... não, não, resistirei a adjectivá-la de “loira”, sou frontalmente contra estereótipos, Luciana, dizia, é bem menos loquaz que a loura Fleurine, a cuja chegou a confessar ter pensado que, por conhecer três brasileiros chamados “Chico”, todos os homens, no Brasil, tinham esse nome.
Admito preconceito. Não de sexo, mas de género, o que não é a mesma coisa. Levei a minha prancha para uma onda de jazz com espuma de bossa nova. O que queria, mesmo, era ter ouvido o piano do Brad conversar mais com a soberba guitarra do Chico. Mas aquilo do “Capoeira me mandou”, etc., fez a vizinha do lado, uma senhora bem entrada nos setentas, dar-me a mão e levar-me para acampar na Fonte da Telha e acender velas e fogueiras na praia e fazer coisas que eu jamais pensei ser capaz de voltar a fazer por as saber contrárias às leis da natureza e nocivas para o meio ambiente.
O público (que jamais compreenderei) obrigou os músicos a três encores. Não serviu de nada: a Fleurine cantou em todos, sempre fazendo aquele movimento estranho com o braço direito, ora fechando a mão, ora abrindo-a, como se desferisse agora um murro, agora uma estalada. Julgo que estivesse a contar compassos.
Não me interprete mal. Não creio que fosse de todo desagradável ouvir meia horinha de MPB cantada pela Luciana Alves. E houve até, admito-o de peito feito e cabelo ao vento, pulcritude, sim, pulcritude, como no momento em que a Fleurine, que acredita saber falar português*, disse que os pais haviam tido casa no Algarve e que se lembrava de que nesse apêndice do reino havia (pasme) pescadores. Isso foi, parece, bonito. Toda a gente sorriu, mas para mim foi apenas estranho. Lido mal com reminiscências desse género, nada me aborrece mais do que uma infância feliz. Se eles tivessem conhecido a minha tia Otília, que me obrigava a... bem, agora não vem ao caso, o senhor Bandeira não me paga para dizer a que é que a minha tia Otília me obrigava. Mas não era bonito.
Por um mecanismo de compensação, dia 11 estarei em Mérida, no imponente teatro romano que eles lá têm, assistindo a Tito Andrónico, quiçá a peça mais sangrenta do velho Shakespeare. Estou muito curioso por saber se cortam mesmo as mãos e a língua da rapariga.
Oleodoro dos Santos
Brad Meldhau com Pat Metheny (achei que ia preferir o Pat à Fleurine). Desculpe o final abrupto, enforque o realizador.
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* João Ubaldo Ribeiro diz que nem holandês consegue falar holandês, mas isso era talvez preconceito contra Maurício de Nassau: o escritor, que a maioria das pessoas conhece nem que seja por saberem que lhe proibiram a entrada num hipermercado, descende, parece, de portugueses.
30.6.09
O Equívoco seguindo Calígula
Em alguma das seiscentas páginas de The Fabric of Cosmos, não me peça para procurar em qual ou eu começarei a falar sobre como atirar ao ar seiscentas páginas soltas e completamente fora de ordem não aumentará o seu grau de entropia mas deixará o seu escritório muito difícil de arrumar, o autor aborda o tema das viagens no tempo e usa o exemplo daquele filme, sabe, com o Michael J. Fox, para explicar que, se já é difícil teletransportar um fotãozinho de uma sala para outra, fazer viajar no tempo um carro de chul… er… um DeLorean e um cientista louco (existem outros?) seria de uma impraticabilidade absoluta. Concordo. Afinal, se o que quer é viajar no tempo, sente-se e espere, duh. Ok, só funciona em viagens para o futuro, mas se milagres existissem não seriam milagres.
Depois o autor, que claramente não conhece os últimos desenvolvimentos… eh… científicos no campo das auras e ectoplasmas celestiais e tal, tenta refutar a ideia de que alguém poderia conhecer os próprios pais antes de ter nascido e fazer com que (ao contrário do que Michael J. Fox pretende no filme) eles não se chegassem a conhecer, tanto no sentido corrente do termo como na sua acepção bíblica; pelo menos num único universo, diz ele (e a gente aí, ahá, percebe logo onde quer chegar e faz um esgarzinho de desdém), isso não seria possível.
A recensão do livro na Amazon.com abre com a frase “As a boy, Brian Greene read Albert Camus' The Myth of Sisyphus and was transformed”, embora não digam em quê. Abriu-se-me então um meato no cérebro para Calígula, precisamente de Camus, uma peça de meados dos anos 40. Não tenho o Calígula em casa, dizem que isso seria até perigoso, mas aproveitei um salto à biblioteca para espreitar uma edição vetusta da Livros do Brasil. Não tive que virar muitas folhas. É logo no começo que Helicon, dirigindo-se ao segundo patrício, diz:
“Eu que vos estou falando, por exemplo, se tivesse podido escolher o meu pai, não teria nascido.”
E aqueles de entre vós que, apesar do que acima se expõe, persistem em achar a Física de Partículas mais insípida que um caldo primordial, sabei ao menos que “Calígula” era a alcunha do Caio e queria dizer “botinha da tropa”, hahahaha, como as crianças podem ser cruéis. E pronto. Mais logo, um textinho sobre a minha intensa actividade cultural dos últimos dias e ao qual darei um título singelo, género “Uma Vida Dedicada à Cultura”. Não quero nada que seja pretensioso.
26.6.09
A Áustria não existe II (e O Universo Elegante, tem dias)
Mesmo que não exista o Universo elegante tal como Brian Greene mo descreveu – diz-me uma amiga em quem incondicionalmente me fio (hahaha entendeu?, um fio é uma espécie de cord… ahm… desculpe) que isso das supercordas e dos múltiplos universos já anda assim a modos que depreciado, como o negócio da Física é ingrato, devia haver devolução para calhamaços tornados monos em poucos meses pela indeterminação científica –, pelo menos existe O Mundo Elegante, um pasquim de mexericos em Pintassilgo e Pimpinela, outra peça de Schnitzler que acabo de ler. E sei que o Universo deve estar a girar porque às vezes, quando conduzo, sinto o corpo seguir em frente e a mente para o lado oposto ao da curva, mesmo quando a estrada é uma recta.
(Confesso que eu gostava da forma como aquilo das cordas soava. Mas deixe, em menos de um nada aparecerá uma teoria, sei lá, olhe, dos metais – e poderemos recuperar a esperança de que o Universo tenha swing; pelo sim, pelo não, esta noite vou ao Jazz.)
Ah, e pois é, ia-me esquecendo de dizer isso, fiquei fã do Schnitzler. Pensei que não acreditava que a Áustria existisse, ouço protestar o geodésico leitor. E não acredito, não acredito: li na badana que ele era de ascendência húngara. Embrulhe. Pensava o quê, que nasci ontem?
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(Clique no Einstein para expandir o universo dele)
25.6.09
O Universo Elegante e outros contos
Desculpe qualquer conversa que me escape sobre mecânica quântica, cosmologia, supercordas, horizonte de acontecimentos, singularidade, entropia e coisas que se lhes semelhem. O desgosto com a crise deu-me para ler sobre o assunto, já vou no milésimo calhamaço – o que terminei agora, The Fabric of the Cosmos: Space, Time, and the Texture of Reality, tem praticamente 600 páginas neste universo (noutros pode ter ou não). E no entanto, só ultimamente comecei a ter noção de que, por exemplo, menos que dez dimensões espaciais é coisa para meninos e que se pode passar através de um túnel de verme sem se ter nojinho dele (e ainda ganhar tempo com isso).
Deixe que me orgulhe de dizer que eu mesmo já ilustrara, para os livros do Carlos Fiolhais e do professor Dias de Deus (ambos excelentes terráqueos e bons amigos, saudades de uma almoçarada, para a semana terei um pouco de tempo e muitas perguntas) os Grandes Mistérios da Física, tanto da astronomicamente grande (como a Relatividade Geral, Restrita e Não sabe / Não responde) como da ridiculamente pequena (conhecida nas cantinas das faculdades como “Física da Partícula de Napoleão”).
Mas não ligue, isto passa-me. Até Freud disse que às vezes um buraco negro é apenas um buraco negro. Ou se não o disse neste, disse-o num universo paralelo qualquer.
23.6.09
A Áustria não existe
Eu nunca tinha assistido a uma peça de Schnitzler. Eu jamais lera uma frase escrita por Schnitzler. Eu não sabia como pronunciar correctamente “Schnitzler”. Sempre suspeitei de que esse Schnitzler nem sequer tinha existido, até porque me diziam que havia nascido austríaco e eu não acredito na existência da Áustria. Sei que isso cobre com o infame véu da dúvida ontológica as vidas e feitos de um monte de celebridades, mas, e então? Repare como Freud, outro “austríaco”, considerava Schnitzler (numa carta que, muito convenientemente, lhe “escreveu”), uma espécie de “versão literária” de si mesmo. Conspirações existem, e quanto mais descaradas, cândido leitor, quanto mais desavergonhadas, mais eficazes. Acredite.
O monólogo durou duas horas que, não fossem aquelas cadeiras (ok, o problema pode ser da minha espinha de fancaria, mas ser-se rezingão é um privilégio que vem com a idade), durariam um instante apenas, porque Rita Durão fez esquecer o tempo que passava. E felizmente o Universo é cíclico, ou ela não poderia ter repetido aquele papel todas as noites. Oh, bolas. Revelei o fim? Desculpe.
[Eu visitando a página da Cornucópia e batendo com a cabeça repetidamente numa porta]
Eu queria ter escrito sobre este assunto antes, queria que fosse ver a Rita Durão, mas apenas agora me apercebo, com pena, de que a peça já saiu de cena. Aqui me detenho. Que fiasco. Enfim, como Beckett, falhar outra vez, falhar melhor. A título de consolação, saiba que o texto, em tradução de José Maria Vieira Mendes, está editado em português pela Cotovia. Pode ler um resumo na página deles.
E por favor, vamos parar com essas invenções de “Áustria”, “Wittgenstein”, “Popper”, “Klimt”, “Mozart”, “Segunda Escola de Viena”, etc. Ok? Caramba, existe um limite para a puerilidade.
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Nota: como que a querer demonstrar que existem mistérios para os quais a Ciência não tem resposta, o texto insiste em mudar de linha logo a seguir a “vamos parar com essas invenções”, embora eu o tenha reescrito vezes sem conta, sempre com o mesmo resultado.
Aguardo explicação religiosa para o fenómeno.
22.6.09
Entropia
A Segunda Lei da Termodinâmica diz-nos (e simplificarei para não intimidar o leitor que, ao contrário do que sucede comigo, não toma o cafezinho da manhã na cantina de Cornell) que a entropia de um sistema isolado – entendida aqui, por derivação de sentido, como o seu grau de desordem – tende a aumentar com o tempo até atingir um valor máximo, que será o de equilíbrio.
No caso do meu automóvel, esse momento mágico acontece quando surge no vidro traseiro a mensagem “lava-me, porco”.
É claro
Da primeira vez que, no fim dos anos 70 (ou foi no início dos anos 80? Hmm) quis assistir a Jesus Christ Superstar – não a versão de La Féria, mas o filme que se inspirou nela, hahaha –, o cinema estava fechado. Nem sei porquê: folga do pessoal, desinfestação, coisa do género. Da segunda, entrei já atrasado no multiplex com um amigo baixista que depois estudou comigo no Hot Clube (lembro-me tão bem que parece que aconteceu ontem), e só passados uns quinze minutos, ao décimo terceiro guincho de Bruce Lee, percebemos que o que passava na tela não era um promocional de outro filme e nos tínhamos enganado na sala. Só à terceira, quando amoleceu um pouco e esqueceu aquela embirração que sentia por Tim Rice e, em particular, por Andrew Lloyd Weber, Deus condescendeu em que eu visse a fita.
lembrei-me disto quando ainda agora li que o primeiro cantor a dar voz ao personagem de Jesus, na Broadway, foi o Ian Gillan. Não imaginava. Isso deve ter sido antes de ele ter entrado para os Black Sabbath, é claro.
19.6.09
Eu não disse?
Estou atrasado dois ou três dias nas respostas a e-mails (e comentários).
Eu não disse que ia melhorar?
18.6.09
Cultúr éireann
Imagine, plurilingue leitor, um micaelense imitando o sotaque algarvio num teatro de Oslo repleto de espectadores inuit. Terá então uma ideia do quanto Jimmy Joyced!, o monólogo apresentado pelo brilhante Donal O’Kelly no Jardim de Inverno do S. Luiz, era perfeitamente inteligível – pelo menos para a parte da assistência constituída pelo representante da embaixada da Irlanda.
A ideia era celebrarmos Bloomsday, mas Donal tinha uma pronúncia irlandesa tão densa que um pouquinho mais de massa e seria um buraco negro. Nem mesmo na Babel pós-intervenção divina eu ouvi semelhante algaravia, se exceptuar o doido do Simões do 7146º (e último) andar. Hoje, na era da Ciência, sabemos que aquele brlghbrl tinha algo a ver com a rarefacção de oxigénio.
Mas ok, deu para perceber que O’Kelly é um excelente actor, dotado de enorme expressividade e senhor de uma voz muito flexível. Isso tornou a minha incapacidade para perceber dois terços do que ele dizia ainda mais dolorosa, e sublimei a frustração pensando em como irlandeses não deviam usar franjinha em climas quentes porque ela fica toda suada e aos caracolinhos, como as do cabelo das meninas vitorianas antes da invenção do banho diário pelo Dr. Doosh.
Felizmente eu tivera o cuidado de ler, na meia hora anterior, as Obras Completas de James Joyce (incluindo, naturalmente, Orgulho e Preconceito, A Abadia de Northanger e Emma), para além do útil The Bluffer’s Guide to Icelandic Literature. Isso – e ouvir Björk cantando as suas bonitas baladas celtas – ajudou-me a entrar no espírito irlandês e a ir reconstruindo o que podia das conversas de Jimmy Joyce com o pai meio doido, o traumático episódio religioso com a mãe, o encontro com o modelo de Bloom, o passeio com Nora Barnacle, a medalha de bronze que ganhou no Eurofestival da Canção e que tanto o desiludiu, etc., etc..
De tempos a tempos ouvia-se uma gargalhada bem lá no fundo da sala, emitida pelo representante da embaixada irlandesa (ou por uma gravação de Brigitte Bardot assistindo à execução de um comerciante de casacos de pele, não tenho a certeza, mas acho pouco provável). As almas remanescentes guardaram todo o tempo um respeitoso silêncio, mesmo quando os gestos do histrião denotavam um grau de comicidade que parecia seguro premiar com pelo menos uma risadinha. Mas olhe, talvez tenha sido melhor assim, quero dizer, mais absurdo: no final toda a gente gostou muito, o representante da embaixada da Irlanda limpava as lágrimas dos óculos [eu tentando lembrar-me se ele tinha óculos] e na rua aglomerava-se um pequeno grupo de apoiantes de Mussavi perguntando, em inglês escrito com sotaque universal em papéis verde-brancos, “Where is my vote?”: como aconteceu com o monólogo de Dolan, ninguém entendeu os resultados daquelas eleições.
Imaginei O’Kelly gastando algumas horas no seu quarto de hotel a tentar perceber o que se passara no S. Luiz e achando, pelo menos enquanto durava o lote de Jameson do minibar, que os portugueses se riem, afinal, como os escandinavos – sem pestanejar nem mexer os lábios, os mais divertidos fazendo até que estão mortos ou disputando campeonatos de ver-quem-mexe-a-boca-primeiro, sabe como é, como mimos franceses mas completamente diferente.
Na noitinha do dia seguinte, outro monólogo, o da menina Else (pequena grande Rita Durão!), percebeu-se do princípio ao fim, mas eu recuso-me a falar disso enquanto a Cornucópia mantiver aquelas cadeiras – ou enquanto amanhã não chegar, o que acontecer primeiro.
17.6.09
Alfinetes
Eu ia publicar um poste agora, mas acabo de receber um e-mail entusiasmado garantindo que o Dias com Árvores reabriu. Vou ver.
[Eu indo]
[Eu regressando]
[Eu acendendo uma velinha a Sredni Vashtar e tirando os alfinetes dos bonequinhos da Maria, da Manuela e do Paulo]
Apagar velas
Entretanto era noite e eu, em contemplando o firmamento, percebi que Andrómeda fazia anos-luz.
15.6.09
Bensalem
Estive este tempo todo sem escrever apenas para que soubesse que eu sou um desses relaxados que passa semanas inteirinhas viajando de uma grande cidade do mundo para outra, saltando de vernissage em vernissage, de sala de concerto em sala de concerto, de museu em museu, apreciando vinho que já era bom uns dez anos atrás e obras de artistas contemporâneos que serão bons daqui por uns dez anos (quando for público que eu, uma década antes, os apreciei), recebendo condecorações em tudo quanto é Estado de Relevância, como o Kiribati ou Nauru (e não as caricas que dão neste país a quem quer que tenha terminado o secundário – pura inveja, claro, se eu tivesse uma carica dessas não a tirava nem na praia), terminando o regalório com uma dose de sol privativo numa dessas ilhas paradisíacas do Índico que têm contados os seus dias a seco. Mas ah, nem tudo são rosas: quem vive a viajar, acaba por conhecer tudo e não conhecer ninguém, pelo menos não tanto quanto deveria.
É aqui que entra, leitor. Como está? Que tem feito? Vai um almocinho na Casa de Salomão?
9.6.09
Conhecer o porteiro
Mais logo verei – e ouvirei – Don Giovanni caindo nos infernos. E foram já tantas as vezes que o vi – e ouvi – cair nos infernos, que começo a convencer-me de que aquilo é um sítio de onde não é tão difícil assim sair e voltar a entrar.
Clara e distintamente
Após o décimo primeiro derrame na vista tentando ler a mesma frase de “What I Loved”, de Siri Hustvedt (“We tracked Matt’s development with the precision and attentiveness of Enlightenment scientists”), percebi finalmente que o problema não estava na frase, aliás muitíssimo conseguida, mas nos olhos em si.
Eu havia sido prevenido pela minha oculista e pela Oprah Winfrey de que, em alguma altura após o 40º ano de vida, os mecanismos de focagem japoneses no interior dos globos oculares estão programados para deixar de obedecer às ordens que o cérebro lhes fornece, em particular se este for de fabrico nacional. A nossa visão ganha personalidade e passa a interessar-se exclusivamente por aquilo que lhe dita o capricho próprio; sendo que raramente lhe apetece fixar-se em frases de pendor literário ou filosófico, preferindo perder-se em objectos distantes, nem sempre desinteressantes mas frequentemente inapropriados para o homem de princípios elevados que modestamente me vanglorio de ser.
Eu, porém, tomara a benigna advertência por uma tentativa comercialmente orientada para impingir “lentes progressivas” aos meus óculos novos. Sabe quando vai ao mecânico trocar um pneu e ele lhe diz que aproveitou para trocar discos, pastilhas e o motor? Pois eu achei que a visão humana não deve ser doutrinada e escolhi lentes com a mesma graduação das que trazia, uma vez que a dificuldade que me levava a trocar de óculos consistia apenas numa certa inadequação da armação: por mais que uma vez amigos me preveniram de que as hastes lhes pareciam mais apropriadas para literatura light que para o género de leitura pretensiosa e obscura que gosto de exibir em esplanadas, centros culturais e antigos países de Leste.
[Eu tentando perceber por que escrevi isso dos países de Leste]
Agora, curvado ao peso da evidência e sufocado pelos fumos de suspeição em que injustamente envolvera a honesta oftalmologista, trago para casa “óculos para ler”. Terei de me habituar ao ritual de andar com o aparato óptico pendurado ao pescoço ou assente na pontinha do nariz, uma vez que, para lá dos 40cm, toda a gente me parece o rato Mickey – ou a rata Minnie, se tiver voz grossa –, motivo pelo qual não dispenso os óculos “de ver ao longe”.
Eu não o esperava, dióptrico leitor, mas a minha capacidade de leitura aumentou de uma forma excepcional. Li em meio dia o baú da Summa Theologiae de Aquino, incluindo a parte que ele nunca chegou a escrever, no latim original; aproveitei os intervalinhos de café para uma revisão aprofundada da Suda bizantina e, em jeito de digestivo, devorei os três volumes de Decline and Fall of the Roman Empire, de Gibbon, anotando erros factuais e incorrecções de interpretação nas margens de nada menos que 638 páginas. Também as minhas capacidades indutiva e dedutiva (antes apenas distinguia uma da outra expondo-as, lado a lado, à luz do sol) sofreram um apreciável incremento de acuidade. Ao passar os olhos com os óculos novos pelo Crítias, por exemplo, apercebi-me de que Sócrates teria morrido com muito mais qualidade se os atenienses do período clássico usassem cicuta de cultura biológica.
Planeio agora uma velhice elegante. Óculos na ponta do nariz sugerem temperamento afável e evocam a sabedoria da idade; um confortável quimono japonês em seda dará o necessário toque de sofisticação novecentista; a gota, em piorando, pode ser aliviada com o auxílio de uma distinta bengala. Tudo isto vejo eu agora muitíssimo bem.
Oh, ok, um momento de franqueza. A verdade é que estou ainda a habituar-me. Não tenho sequer a certeza de que esteja aí desse lado, embaciado leitor. Nestas inusitadas semanas de pontes que vão de nenhum lado a lugar algum, não há como sabê-lo. Mas vou fiar-me, mesmo não o vendo a si, que o leitor, a mim, me consegue ver com cartesiana convicção, isto é: clara e distintamente.
Sacrifício
Para evitar que uma pessoa a quem muito quero quebrasse a dieta a que, em corajosa hora, decidiu alcandorar-se, acabo de devorar todos os bombons de uma caixa que ela guardava no seu frigorífico.
Espero que, ao aperceber-se do desfalcamento, saiba apreciar o sacrifício que este homem que aqui vê, compassivo leitor – padecente de gota, hipertensão, colesterol e pressão alta nos pneus – soube fazer por ela.
8.6.09
De lua cheia
Quando passo na rua e um muro, um hidrante ou um semáforo calham cumprimentar-me, retribuo a gentileza; e só então reflicto sobre como é estranho ser-se cumprimentado por um muro, um hidrante ou um semáforo.
Estou convencido de que a boa educação nos ajuda a preservar a saúde mental neste mundo de gente alucinada.
O lugar (II)
A senhora Cheng Feng, Secondary Announcer de uma tal “Huangshi Dongbei Electrical Appliance Co., Ltd.”, informa-me por correio electrónico de que ganhei o segundo lugar das suas promoções anuais, tendo direito a um Range Rover e a 970 mil dólares americanos.
Existe algo de profundamente deprimente nisto. Não tanto no facto de se tratar de um esquema para me sacar dinheiro; mas em saber que, num esquema para me sacar dinheiro, fiquei em segundo lugar.
O lugar (I)
A barra “que antes estava em baixo”, no computador da minha mãe, agora “passou para o lado”, o que, naturalmente, a incomoda. E a senhora pede-me que, em visitando-a, ponha a barra “no seu lugar”.
Humanos, demasiado humanos
Como na Atenas clássica, escolhemos ontem os cidadãos que queremos a todo o custo ver fora do país por alguns anos. Mas vá, somos mais humanos: reduzimos o período de ostracismo para metade e sempre lhes damos algum dinheirito para se irem aguentando lá no estrangeiro.
Jantar
Na secção de secos do supermercado, Alzira entendeu. Homens altos servem para tirar coisas de prateleiras elevadas. Homens baixos não servem para nada. E Rufino, 1,58m, foi nessa mesma hora notificado de que não era esperado em casa para jantar.
3.6.09
Da vaidade
(Cravo & Ferradura, DN, 14.4.2009)
Eu tinha publicado este desenho num poste a 15 de Abril (acho que foi um dos que, devido às perturbações ocorridas durante as mudanças na página do DN, não chegaram a aparecer na edição online), mas decidi puxá-lo hoje aqui para cima, com comentários apensos e tudo, porque, eia, ganhou o Prémio Stuart de Tira Cómica 2009.
[eu fazendo exercícios respiratórios para restabelecimento de modéstia]
Os meus parabéns aos colegas do Público e do Expresso vencedores dos outros prémios que, havendo injustiça, teriam vindo para mim. Caramba, tinham que ser tão bons? E o respeito pelos mais velhos, onde fica?
2.6.09
Palácio da Justiça
Hoje de madrugada caí da cama. Não pergunte. Acordei e estava no chão, tentando perceber o que tinha acontecido.
Passei a manhã no tribunal, embora por causa de um processo completamente diferente. Perguntavam-me muitas coisas e eu ia recordando quase nada. Ok, admito que possa ter chorado quando li O Principezinho. Mas foi há tanto tempo, isso.
1.6.09
Teatro do Absurdo e isso
Aplaudo, como é de lei aplaudir-se, a entrada dos homens e das mulheres vestidos de negro no salão nobre do S. Carlos para a homenagem a Haydn (que morreu, dizem-me), e penso em como seria engraçado se eles saíssem de novo da sala e então entrassem os verdadeiros músicos, que ninguém aplaudiria. Seria uma coisa tão teatro do absurdo e isso, e daria lindamente com Beckett, de quem falei num poste aqui em baixo.
Mas atente um instante, ponderoso leitor, no indivíduo sentado na cadeira imediatamente à minha esquerda. Ele está sozinho (suspeite de um crítico) e senta-se meio de lado, sobre a nádega esquerda (suspeite de hemorróidas). Dá-me as costas e tem cruzadas as pernas muito magras. As mãos, usa-as juntas, como que rezando, os cotovelos apoiados no joelho da perna direita. Um jornal projecta-se para fora do bolso do casaco e invade metade do espaço que me está reservado.
Ouço a Sinfonia Concertante de Mozart com a demissão de Dias Loureiro enfiada nas costelas flutuantes. Remexo-me na cadeira; o homem limita-se a apalpar o bolso para garantir que o jornal ainda está em seu poder. Percebo agora que, para o troll, eu não passo de um ladrão de jornais em potência ou um ente sem existência física que ali morreu num concerto anterior (provavelmente de Xenakis) e que ele, julgando-se dotado de especiais capacidades psíquicas, acredita ser o único a conseguir ver.
A situação só se resolve após The Morning Star para contrabaixo e cordas, de Ivan Moody, um compositor muito interessante que vem agradecer os aplausos, tendo o cuidado de deixar um mosteiro do monte Atos guardando-lhe o lugar na plateia. Apenas para criar efeito, eu havia atirado para o ar que a sonoridade dele era nórdica e devia qualquer coisa a Sibelius (algo que não imaginava fosse verdade ou não, mas nessas ocasiões o importante é que pareça fazer sentido), e quase me senti inteligente quando me disseram que o Ivan havia estudado música na Finlândia. É para ocasiões como essa que lemos livros de melhoração pessoal e como pedir coisas a anjos e tal.
Consulto o programa e leio que Moody nasceu em 1964 e se converteu à Igreja Ortodoxa Grega; logo, é dois anos mais novo e acredita em apenas mais um deus do que eu, o que nos coloca praticamente no mesmo patamar etário e religioso. E no entanto, curvando-se aos aplausos do público, vejo um sujeito de… como dizê-lo?– bastante meia idade. Sinto que a A. está a pensar algo semelhante e olho para ela a tempo de a ouvir murmurar, com a língua meio de fora da boca aberta e o corpo em convulsão, nitidamente nauseada: “Este gajo tem a minha idade?!”. É um momento bonito, solidário. Concluo que o Tai Chi Chuan – ou, em alternativa, a cirurgia plástica – são mais eficazes para o rejuvenescimento que a ortodoxia grega.
Informo a D. (o antroponímico leitor reparou que quase todas as pessoas que conheço têm nomes assim? Eu acho estranho) sobre o duelo que venho travando com o ardina. Com o espírito prático que ela tem e ao qual apenas posso aspirar numa próxima encarnação, sugere que nos desloquemos ambos os três (P., fico a dever-te direitos de autor) um lugar para a direita. Deus, que nestas ocasiões às vezes existe, fornece a indispensável cadeira vazia e faz-me ainda a caridade de me colocar atrás de um espectador de tão pequena estatura que se fosse calceteiro precisaria de trabalhar sobre um banquinho. Hahaha, esta foi engraçada, vou tomar nota.
[Eu escrevendo a piada num bloquinho]
Ok. Posso finalmente apreciar a prestação da maestrina Julia Jones (dá para escrever “maestrina”? Obrigado), algo que antes, por motivo de elevada estatura do espectador que ocupava a cadeira em frente da minha, me estava vedado.
Segue-se a pièce de résistance: a 45ª Sinfonia de Haydn. Acho incrível como só ao fim de quarenta e cinco ele acertou. Estava à beira do suicídio, claro, a 44ª chama-se precisamente “Fúnebre”. Penso em como é importante persistir e desligar os telemóveis nos concertos.
Quase no final do quinto e último andamento, um dos músicos levanta-se lá no fundo e, perante o olhar estupefacto da maestrina e da assistência, abandona o salão. Depois é uma trompista quem se ergue e sai da sala, ignorando os gestos zangados com que Julia Jones lhe ordena que regresse ao seu lugar. Um violinista poisa o seu instrumento (um violino), cruza as pernas e abre um jornal. Aparentando estar fora de si, Julia Jones dirige-se a um homem na primeira fila, curiosamente muito parecido com Bill Gates, e pergunta-lhe qualquer coisa. Ele levanta-se e puxa os fundos dos bolsos para fora, como que mostrando que não tem moedas sequer para pagar o parque do Camões. Teatro do absurdo, afinal. Sinto-me tão feliz.
Um a um, os músicos vão abandonando a sala, ficando para trás apenas dois violinos que acabam por sair, também eles, assim que dão o andamento por terminado. Lembrando-se de repente que a 45ª sinfonia de Haydn tem o nome Farewell, a assistência ri muito, bate palmas e parte algumas cadeiras, após o que os músicos regressam e agradecem. Eu não posso deixar de sentir que há algo de inadequado numa despedida deste género para um compositor que morreu. Sim, Beckett ou Jarry teriam talvez gostado, mas Haydn?
Percebo que o meu ex-vizinho me levou a mal a dança de cadeiras quando, já ao cruzar as portas de saída, sinto um jornal espetado nas costas. Ou talvez esteja apenas a testar a minha corporalidade. Olho para trás e troco com o indivíduo um olhar jurado de sempiterno ódio. Finjo que tiro um macaco do nariz. Ele dá um pequeno salto para trás. E eu finjo que tiro outro macaco, desta feita do meu próprio nariz.
I forget
O túmulo siciliano de Ésquilo não faz qualquer menção à sua dramaturgia: exalta apenas a coragem que demonstrou, em Maratona, contra “os medos de longos cabelos”. É como se na lápide de Samuel Beckett, que a pedira de uma cor qualquer desde que fosse cinzenta, constasse algo como
Jogou críquete pela Universidade de Dublin, tendo sido fundamental em duas vitórias sobre Northamptonshire; tem uma entrada no afamado Wisden Cricketer’s Almanack.
Ele decerto teria aprovado isso, mas não se lembrou.
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Nota: esqueça a importância de Maratona para a afirmação de Atenas, uma cidade que até então vinha apenas mencionada de passagem no “catálogo dos barcos” da Ilíada e em meia dúzia de mitos obscuros; esqueça o orgulho de Ésquilo na glória da sua cidade; não é disso que estou a falar. Eu não sei sequer do que estou a falar. I forget.
A coisa certa
27.5.09
E quando damos por ela estão a ouvir Blue Oyster Cult
“Ena, uma t-shirt com o símbolo da paz. Sempre varia das caveiras.”
“Sabes o que é, pai, ultimamente ando a sentir-me um bocado hippie.”
25.5.09
Medidas
Existe no meu novo lar, doméstico leitor, um acolhedor escritório. Em duas das suas muitas paredes (ainda não tive tempo para as contar), apoia-se uma estrutura geométrica em madeira que aparenta ter uma qualquer função utilitária, Bauhaus e assim, conhece o género.
Eu sabia que nem A Revolução Copernicana nem The Structure of Scientific Revolutions, ambos da autoria do historiador de Ciência Thomas S. Kuhn (por que motivo ele escreveu as duas obras em línguas diferentes é algo que escapa à minha intelecção) diziam fosse o que fosse sobre a utilidade de tais estruturas; Lévi-Strauss teria dado mais jeito, mas eram estes os únicos livros a que conseguia chegar sem me levantar do sofá. Reli-os numa diagonal apertada e confirmei que a) nada dizem sobre estruturas em madeira que ocupam paredes de escritórios e b) o método verificacionista, nas ciências, é perfeitamente ineficaz.
Domingo de manhã eu estivera com a D. e o meu filho na Gulbenkian para apreciar a exposição sobre Darwin e a Evolução, que encerrava nesse dia, mas a afluência faria lembrar a um criacionista uma fila de borlistas, já com água pelos tornozelos, à porta fechada da arca de Noé.
De corações pesados, desistimos. A D. sugeriu, em jeito de refrigério, a compra do catálogo; e a mim, ao olhar para as obras expostas nos escaparates da livraria, surgiu-me a ideia de utilizar a tal estrutura do escritório (a que entretanto, porque se limitava a estar para ali sem fazer nada, dera o nome de “estante”) para arrumar, imagine, livros.
Naturalmente, escolhi um volume que desse ares de que sou uma pessoa culta e importante. Trouxe o mais gordo que encontrei e que dá pelo nome de “Literatura de Roma Antiga” (12,5 cm de lombada e quase um A4 nas restantes 4 dimensões).
Como o leitor facilmente atestará se atentar na fotografia apensa, ainda assim não ocupa todo o espaço. É o problema de se comprar coisas para a casa sem primeiro tirar as medidas.
Falha
Como antídoto contra os efeitos da gota, fui acons… eh… persuadido a consumir cerejas. Muitas cerejas. Mas tendo a comer só as mais madurinhas; e agora sinto-me intranquilo, periclitante, não estou certo de que essa não seja uma falha grave de carácter.
Sem airbag
Corrigir um erro de gramática em público é como fazer um reparo à condução de alguém gritando muito e deitando-lhe as mãos ao volante; a diferença está em que, no primeiro caso, o perigo é de vida.
O dedo
A referência do Paulo Ventura Araújo ao Parque de La Salette, na citação que dele fiz nesse poste mitómano aí em baixo, trouxe à memória da senhora minha mãe um episódio ocorrido na capelinha que fica no topo do recinto (o local que ali mais se aproximava do céu; ignoro se a geografia do local – ou do céu – se modificou entretanto). Logo após chegar do seu Rio de Janeiro natal, criança ainda, ela viveu alguns anos precisamente em Oliveira de Azeméis. E porque não deixavam meninas de dez anos fumar, ler Kafka e jogar bilhar no salão dos bombeiros local, frequentava as festas da terra.
Aconteceu certo dia que um inábil larápio quis deitar a mão às oferendas, regra geral em ouro, que os devotos entregavam a Nossa Senhora de La Salette em troca de casamentos que lhes atinassem os filhos, de alívio para os bicos de papagaio ou da garantia de que os artistas convidados cantariam nesse ano um pouco melhor.
O guarda do parque, norteado (disse-se à época) por poderes muito alevantados, desferiu um tiro certeiro que não apenas impediu a consumação do crime como privou o gatuno da posse de um dedo da própria mão com que se preparava para o perpetrar.
Para que a intervenção celestial a todos servisse de exemplo, mergulhou-se o membro amputado num líquido de propriedades conservadoras e colocou-se o frasquinho numa prateleira que há na capela logo do lado direito de quem entra, tendo a relíquia constituído atracção principal das festas durante um ror de anos.
Talvez o frasquinho ainda por lá se encontre e já ninguém saiba ao certo o que contém… bom, quero dizer, agora pelo menos o digital leitor já sabe.
A segunda namorada de Heisenberg
No ano de 1925, o jovem físico Wolfgang Pauli lamentava-se: “A Física está, neste momento, completamente errada. Para mim, pelo menos, é demasiado difícil. Eu antes queria ser um comediante e nunca ter ouvido falar de Física na minha vida”.
Apenas um mês passara sobre o queixume de Pauli quando o seu colega Heisenberg apresentou ao mundo a Mecânica Matricial, primeira formulação verdadeiramente hilariante da teoria quântica e também o nome da segunda namorada dele (Heisenberg nunca foi capaz de recordar em público o nome da primeira).
Pauli, entusiasmado, abandonou de imediato as pretensões à comédia, que ele até aí supusera ser muito mais divertida que a Física de Partículas. “Caramba, como estava enganado”, pensava rindo como um louco, e febrilmente anotava tiradas de stand-up physics na ardósia negra do laboratório da universidade.
Mérito
A angústia de não conseguir escrever levara-o a tomar a decisão de pôr termo à vida. E decerto já hoje não existiria, não fora a incapacidade de redigir a nota de suicídio que lhe garantiria a imortalidade; a imortalidade que ele, sabia-o bem, merecia.
A birrinha
Existe uma diferença entre a birrinha do neurótico e a birrinha simples, mas não lhe digo qual é.
Nas semanas em que o tempo estava assim cinzento
Costumava sentir turbinas de avião nos ouvidos, uma tensão incapacitante nos olhos, a ansiedade de um zebu atravessando o Serengueti e a capacidade de concentração de um tamboril congelado. Mas também tinha dias maus.
22.5.09
Crítica invejosa
Não me lembro já em que exacto momento ou particulares circunstâncias me vi possuído pela ideia de compilar um conjunto de crónicas belíssimas sobre a vida arborescente (e não só) de três cidades: o Porto, Angra do Heroísmo e Londres, urbe mais pequenita mas onde com frequência me desloco para andar na Roda do Milénio e dizer “toodle-do and what’s not”. Eu engrandeceria os textos com os irrepreensíveis instantâneos em que ao longo de alguns anos fui registando vários espécimes e paisagens; e daria o conjunto à estampa sob o nome A Árvore de Natal do Senhor Ministro – Crónicas Arborescentes, tudo em gloriosas cores e papel resistente ao bicho. E porque a modéstia (o leitor bem o sabe) é o outro nome do meu carácter, decidi que publicaria sob o inverosímil pseudónimo “Paulo Ventura Araújo”. Sim, porque quais as probabilidades de alguém se chamar “Paulo Ventura Araújo”?
Imagine o hipertenso leitor a minha arritmia quando uma pessoa que se auto-intitula “Paulo Ventura Araújo” e “co-autor do blogue Dias com Árvores” faz sair para a glória dos escaparates, com a cumplicidade das Edições Afrontamento – ah, quão adequado é esse nome – um livro chamado precisamente A Árvore de Natal do Senhor Ministro – Crónicas Arborescentes, contendo os meus textos (ele di-las “adaptadas do Dias com Árvores”, hahaha, quanto descaramento) e fotografias virtualmente idênticas às minhas. Era dele a sombra (sei-o agora) que se vinha colando aos meus passos ao longo destes anos de árduo labor e imensa dedicação.
Para que não restem dúvidas no espírito das boas almas a quem actos de tal jaez parecem, se não impossíveis, pelo menos improváveis, compare-se os dois excertos que se seguem:
Pseudo-PVA:
“Por que recordo hoje esse protótipo da música festivaleira e eurovisiva? É que, por infelicidade, visitei o Parque de La Salette, em Oliveira de Azeméis, quando decorria o último dia das festas anuais a Nossa Senhora. Era Demis Roussos que, trinta anos depois, todo se esgoelava em honra de Nossa Senhora de La Salette nos atordoadores altifalantes pendurados no arvoredo. Gerações recentes houve que cresceram sem ouvir Demis Roussos, sem serem assombradas pela sua espaventosa figura; não porém em Oliveira de Azeméis onde, suponho, todos os anos em Agosto o grego regressa do limbo dos esquecidos para ocupar, em voz e espírito, o Parque de La Salette.”
Eu:
“Queria beber das águas do Letes para esquecer todas as vezes em que fui forçado a ouvir Demis Roussos nos altifalantes do adro da igreja.”
Exactamente iguais. E olhe esses dois outros trechos:
Pseudo-PVA:
“Vê-se que há aqui uma escola de rotundas, uma exigência que não transige com a repetição e faz de cada rotunda, apesar da sua inescapável rotundez, uma composição única (…). Não diremos taxativamente que haja beleza na rotunda em si – mas, se nela crescer uma árvore, há pelo menos a beleza dessa árvore, o que sempre é um alívio depois de tantos quilómetros de terra queimada.”
Eu:
“Se os antigos geómetras gregos honradamente buscaram a quadratura do círculo, nós, engendrando a rotunda, inventámos a circulação do quadrado, o que não me parece mal desde que não se façam ali piqueniques.”
Palavras para quê? A verdade, leitor, a verdade é que se trata de um livro magnífico, ou não fosse integralmente copiado do meu.
21.5.09
Las hay
“Querei só o que podeis, e sereis omnipotentes”
(Padre António Vieira)
Mil perdões pela ausência: houve que resolver algumas desinteligências com a Autoridade. Quem imaginaria que habitar num armazém de artigos para o lar esbarrava nos ditames da lei? Sucede que ao senhor Manel, que ainda é Ikea por parte do pai, lhe deu para aparecer precisamente quando experimentávamos, eu e a D., um modelo “para dois casais, por turnos”. Não foi um momento digno.
Decidimos partir para o Alentejo raiano quando o luso-sueco nos ameaçou com o suicídio ou a GNR, consoante prevalecessem os genes suecos ou os portugueses. A minha descoberta recente de que existem colesterol bom e colesterol mau transformara o que dantes me parecia uma trivial questão médica num problema moral apaixonante; e a gastronomia alentejana proporcionar-nos-ia, acreditávamos, uma oportunidade supimpa para a reflexão filosófica. Ainda assim, a atitude do senhor Manel Ikea ficou-me gravada como um baixo-relevo nos recessos da memória e causou-me um trauma de infância. Que diabo, espera-se de um homem de ascendência sueca que saiba ofender as pessoas sem ferir os seus sentimentos.
Porque hoje em dia já não se percebe quando se sai de um país europeu e se entra noutro a não ser pela mudança de estilos arquitectónicos, língua, sinalética, matrículas, marcas de cães, etc., distraímo-nos e demos connosco nas floridas calles de uma cidade espanhola. Procurámos livrarias, uma das poucas áreas do comércio onde ainda se pode escapar aos efeitos deletérios da globalização e encontrar alguma coisa que não esteja à venda também em Pitcairn, no cume do Evereste ou até em Unhais da Serra. Mas à hora da siesta, soporífero leitor, as cidades da Extremadura estão mais desertas que as dunas do Sara em alturas de happy hour nos oásis. Às cinco da tarde, abandonámos qualquer veleidade de nos cruzarmos nas ruas com alguma coisa viva que não pertencesse ao reino vegetal e decidimos abalar para um país onde houvesse gente, ainda que fosse a nossa.
Foi com caras de desalento que nos dirigimos ao parque de estacionamento subterrâneo onde deixáramos o automóvel (sim, porque nós tínhamos um automóvel). Na praceta que lhe dava acesso, porém, alguém abria as portadas de um quiosque. Um outro extremenho, saído não se sabe de onde, repetiu o gesto num quiosque fronteiro. E aconteceu como nos livros de religião dizem que às vezes acontece: num ápice nasceu, em nosso redor, uma feira do livro, onde comprámos imensos autores, sobretudo espanhóis – Shakespeare, Jean-Claude Carrière, coisas assim.
16.5.09
Conselho de Elvas
Ide esta noite, sem falta, ao CCB desfrutar Sombreros.
Estarei segunda-feira em Lisboa, aceitando agradecimentos e tal.
14.5.09
O princípio da coisa
Interessei-me, leitor, pela antologia, que é, como sabe, a ciência que estuda as antas. E porque um novo interesse intelectivo exige mesa e cadeira de interessamento novas, visitei ontem à noite o IKEA, conduzido pela D., uma vez que eu tendo a perder-me em locais com mais de três metros quadrados (começo a andar em círculo).
Inspirado pelo exemplo recente dos parlamentares britânicos, que até os cotonetes e o solário das mães alegremente vinham debitando ao incauto contribuinte do Império, percebi que, desde que não fizéssemos questão de grande privacidade, ser-nos-ia possível habitar muito confortavelmente os cubículos-modelo. Há-os de todos os tipos, de salas de estar a escritórios, e quase todos de ar bem cómodo; não faltam sequer restaurante e cafetaria com preços muito em conta.
A D. achou a ideia… como dizê-lo? – peregrina, mas não deixou de levantar algumas objecções relacionadas com aspectos de higiene. Ainda tentei argumentar: “Que é um projecto se não tiver alguns desafios? Não vale dizer ‘uma Finlândia’”. Ela pôs aquela cara de quem pondera seriamente um internamento num desses locais onde toda a gente se conhece por uma alcunha e eu entendi por bem deixar cair a questão.
Como sucede com alguns livros, existem coisas em que apenas chegando ao fim se percebe que o princípio estava todo errado.












