18.5.10

Desfazendo mitos

Não é verdade que o Canal Parlamento tenha sido criado para que os outros canais pudessem parecer interessantes.

17.5.10

Mínimas

Se não quer que toda a gente olhe para si no restaurante, evite sentar-se sob o televisor.

30.4.10

Escrevem “Retrato de um jovem”

como se, sem essa informação, fôssemos incapazes de perceber que o retratado não é propriamente um idoso.

7.4.10

Mínimas

As cidades são os bolsos para onde os países atiram tudo e mais alguma coisa.

2.3.10

O terceiro diagnóstico

Eu já podia celebrar o milésimo aniversário da primeira vez que disse isto, eu sei, mas não sou homem para efemérides. Ontem, porém, deixei-me tocar pelas imagens de um monte de gente escalando a estátua do Marquês de Pombal e acometendo os cimentos da Avenida dos Aliados para comemorar o dia que Chopin festejava como sendo o do seu aniversário. E porque nunca desperdiço uma oportunidade para fazer que sou erudito, lembrarei, para desfrute do leitor assim mais dado a citações, um excerto de uma carta que o tísico franco-polaco escreveu a um amigo parisiense a partir do seu triste idílio em Maiorca (eia, um oximoro, viu? – eu avisei que não desperdiçava uma oportunidade). Reza assim:

“Três médicos vieram ver-me. O primeiro disse que eu ia morrer. O segundo, que eu estava a morrer. O terceiro, que eu estava morto.”

Hoje, médico algum hesita em concordar com o terceiro diagnóstico – mas também é certo que a Medicina está muito mais avançada.

9.1.10

99% de literassia, temos a gente

Calhou-me ontem usar a caixa Multibanco da estação de serviço de Torres Vedras para ver se conseguia transferir dinheiro da conta de alguém muito rico para a minha. Não foi possível, provavelmente o sistema estava em baixo, acontece-me sempre isso. Do lado esquerdo do teclado, um autocolante prevenia os incautos:

ATM protegido
As notas serão inutilizadas em caso de abertura indevida.

Imaginei o meliante, imerso no seu indispensável barrete encardido, no acto de acorrentar a caixa à Ford Transit roubada; a cuja, traseira meio enfiada no lado ilegal da montra estilhaçada, aguardaria em delicado ponto de embraiagem a conclusão da tarefa. Então um colega de bando, notando o autocolante, interromperia a intervenção urbanística:

“Lamento, mas este ATM está protegido, old sport. As notas serão inutilizadas em caso de abertura indevida. Que sorte madrasta.”

E os assaltantes abandonariam cabisbaixamente o objecto da sua cupidez, após o que procurariam uma mercearia que a essa hora ainda estivesse aberta e rapinariam o recheio da caixa registadora. Frugal, na melhor das hipóteses, mas decerto não adulterável, ainda que em caso de abertura indevida.

31.12.09

Da conversão da Rússia

Em criança, eu pensava que a Rússia dos czares era uma nação atrasada porque aquilo a que chamamos “Revolução de Outubro” acontecera em Novembro. Sei agora que a décalage se deve a questões religiosas com não despiciendas consequências geórgicas, mas desde então tenho muita atenção com isso das datas. Jamais dou parabéns atempados a aniversariantes e nunca celebro uma efeméride sem antes proceder a uma investigação escrupulosa que, em regra, me toma vários anos e consome variadíssimos subsídios.

Compreenderá o benquisto leitor, tendo em conta o que acima escrevi, que me atrase um pouco nos desejos de felizes seja o que for, mas este ano abrirei excepção e gritarei à janela (fechada se a temperatura baixar dos oito graus),

Um 2010 supimpa para todos os leitores do BV!
Já o não-leitor do BV terá de esperar que eu conclua as minhas indagações e publique a monografia, mas previno-o desde já que a coisa está preta: tudo indica que hoje são, não 31 de Dezembro de 2009, mas 4 de Setembro de 1990, o que faz do dia de amanhã, quanta coincidência!, o do meu 27º aniversário. Estarei aceitando parabéns e lembranças entre as três e meia da tarde e as oito, após o que tentarei explicar aos meus filhos que, não tendo eles nascido ainda, inexiste qualquer justificação para alimentação, quanto mais para prendas e mesadas, as cujas exigirei de volta. Serei magnânimo, porém: não terei em conta, nem a inflação, nem compensações devidas por eventual estado de sucata dos objectos devolvidos.

14.12.09

Anarquia

Um Rei Republicano fez um Golpe de Estado contra Si Mesmo e derrubou a Monarquia Absoluta; o Povo, agradecido, nomeou-o Presidente Vitalício. No dia da Tomada de Posse, porém, Conspiradores Monárquicos lançaram um Contra-Golpe e restauraram-no no Trono da Nação. O Povo, reconhecido, pediu ao Rei que mandasse decapitar o Cabecilha da Rebelião Republicana. Sua Majestade graciosamente acedeu ao desejo do Povo, instalando-se então uma Anarquia.

14.10.09

Ginásio Blues (I)

Venho fazendo, olímpico leitor, “treino acompanhado”. Ao que percebo, aconselham isso aos clientes cujo grau de descoordenação espacial pode resultar em processo contra o ginásio. Se existe uma probabilidade elevada de o seu nariz tocar o tapete rolante onde décimas de segundo antes estavam os seus Nike novinhos em folha, tem “treino acompanhado” tatuado na testa.

O problema é que a gente sente-se tão… enfim… acompanhada. Fiz um monte de exercícios que só percebi que eram exercícios quando o treinador me pediu para tentar não adormecer tantas vezes. O pior momento foi talvez quando me passou para as mãos uns humilhantes “pesos”. Pareciam daqueles ossos de borracha para cães, mas mais leves e em tons rosa. Fez-me sentar de frente para um espelho (há espelhos para onde quer que se vire, fazem de propósito para que sinta vergonha) e explicou-me que devia executar movimentos ritmados para fora e para dentro com os braços, como se estivesse a abrir e fechar as portas duplas de um armário mas sem a parte útil de retirar alguma coisa lá de dentro.

Só por si aquilo dos ossos cor-de-rosa já era embaraçoso, mas não tanto quanto o que se seguiu. Ouvi aproximando-se rapidamente por trás de mim o que me pareceu ser a respiração aflitiva de um rinoceronte com asma, ou um expresso inter-cidades com uma roda empenada e um grupo de poetas no interior ensaiando para uma sessão de leitura ao vivo, eu não podia ter a certeza. Era afinal um sujeito grande, parrudo, aquilo a que na minha juventude se dava o nome de “quarto de leite Vigor”, e quase me desarticulou a omoplata direita com a deslocação de ar que provocou quando passou por mim (não sou um homem baixo, mas não se esqueça de que estava sentado). Sacou rapidamente de um par de halteres de ar pesadíssimo que estavam encaixados numa estrutura metálica e, urrando a cada gesto como um urso a quem acabam de informar que o bosque onde ele planta umas couves vai ser aplanado para que uma multinacional sueca construa no local um centro de bricolage e artigos para o lar, começou a erguer e baixar os pesos como se estes mais não fossem que simples esferovite pintada.

Comecei a suar solidariamente. Quando o Sansão por fim parou, olhei primeiro para os meus ossinhos cor-de-rosa; depois, para os colossais halteres do, eh, colega. Então aproveitei um momento em que o treinador estava a dar atenção a uma senhora que tinha dúvidas sobre a flacidez dos glúteos. Apontei os halteres e, pondo o ar mais casual de que fui capaz, perguntei:

Já não vai precisar desses?