(José Bandeira/DN)
1.4.16
27.3.16
À Humanidade
Porque John Donne está a morrer, ele escreve algumas Lamentações; nelas se queixa inclusive de que as dores o impedem de gozar na sua plenitude a experiência da morte. Escreve que "nenhum homem é uma ilha" e outras coisas lindas, quase sempre porém melancólicas e tristes.
Séculos depois, Hemingway usa em prefácio um trecho da 17a Lamentação, algo como: "Não perguntes por quem dobram os sinos; eles dobram por ti". Com isto queria Donne dizer que partilhava da Humanidade, e que morrendo um qualquer homem morria Donne um pouco também (já Terêncio, por outras palavras, sugerira algo assim).
Em Hollywood fez-se um filme e o trecho prosaico da Lamentação de Donne ficou na memória que hoje sói chamar-se colectiva, muitas vezes tomado por verso, porque Donne era, antes de prosador morrendo, um poeta; e os poetas, não sendo ilhas, serão talvez penínsulas.
À Humanidade, uma Páscoa feliz.
Séculos depois, Hemingway usa em prefácio um trecho da 17a Lamentação, algo como: "Não perguntes por quem dobram os sinos; eles dobram por ti". Com isto queria Donne dizer que partilhava da Humanidade, e que morrendo um qualquer homem morria Donne um pouco também (já Terêncio, por outras palavras, sugerira algo assim).
Em Hollywood fez-se um filme e o trecho prosaico da Lamentação de Donne ficou na memória que hoje sói chamar-se colectiva, muitas vezes tomado por verso, porque Donne era, antes de prosador morrendo, um poeta; e os poetas, não sendo ilhas, serão talvez penínsulas.
À Humanidade, uma Páscoa feliz.
24.3.16
23.3.16
As coisas que começam e as coisas que acabam
Eu teria uns dezanove ou vinte anos e queria muito escrever em jornais, mais até do que desenhar, talvez porque desenhar sempre soube e desenho melhor do que parece (perdoe este momento de soberba que pagarei em rigorosos planos prestacionais aos balcões da Eternidade); sucede que devemos reservar o melhor do que sabemos para mostrar às mães nas horas difíceis.
Já a escrever eu não nasci ensinado; foi o professor Branco, digníssimo avô de branquíssimas cãs e alvíssima bata (como um anjo de alguma idade) do actual reitor da Universidade do Algarve, quem me deu o privilégio — jamais esqueça que saber escrever é um privilégio —das primeiras letras, na escola número 33 do bairro lisboeta de Alvalade.
Mas tergiverso, perdoe, perdoe. Dizia eu que teria uns dezanove ou vinte anos e um dia chegou o convite do homem magro de brasão ao peito e cabelo empastado. Não desdenhe, na altura usava-se muito e agora talvez se volte a usar se o Vitória ganhar o campeonato. O convite era para um encontro e o encontro foi num dos bares do casino do Estoril; eu faltei à faculdade porque oportunidades assim não as havia todos os dias. Eu não tinha fato mas levei camisa, o que decerto deixou o empresário impressionado; tive também o cuidado de estacionar o velho Austin bem longe para que não se percebesse o quanto estava enferrujado, tanto que do lado do morto já não havia onde poisar os pés — alguns amigos mais sensíveis ainda se lembram disso, o asfalto correndo sob os pés deles e os calafrios bons que isso lhes causava.
O empresário pediu, digo, exigiu o seu uísque “em balão aquecido” e eu, ignorante que era das coisas do mundo, uma simples cerveja: sabia lá quanto custava um uísque. Eu fazia parte da categoria social a que então se dava o nome de “remediada”. Tinha uma única nota no bolso, acho que de 500 escudos, para gasolina e uma ou outra necessidade.
O cavalheiro, quero dizer, ele e “uns investidores ali do Estoril”, queriam lançar um semanário e contavam com o meu talento (como era ralo, o meu talento!) para escrever e ilustrar duas páginas “para a juventude”. Em poucos meses, “máximo um ano”, o mercado — ao tempo não se dizia “mercado”, seria a mesma coisa com outro nome qualquer — era nosso. Eu estava comprado e vi os tons azuis e a gravata riscada de vermelho do homem magro erguer-se para dar por terminada a conferência. Então ele levou as mãos aos bolsos, pôs uma expressão contrafeita e disse, com ar de importância nenhuma, “Zé, não sei onde deixei a carteira, pague aí o meu uísque, sim?”
Paguei, lívido mas paguei; e voltei para Lisboa pela marginal — ainda não havia a A5 — rezando a santinhos em que não acreditava para que se não me acabasse a gasolina.
O jornal saiu quê, dois ou três números, depois fechou, foi como se nunca houvera existido, nem do título me lembro, nunca percebi o que sucedeu e eu se recebi alguma coisa foi uns tostões, que aliás não mereceria pelos meus méritos literários ou artísticos.
Mas até hoje, sabe, venho pagando esse uísque.
Já a escrever eu não nasci ensinado; foi o professor Branco, digníssimo avô de branquíssimas cãs e alvíssima bata (como um anjo de alguma idade) do actual reitor da Universidade do Algarve, quem me deu o privilégio — jamais esqueça que saber escrever é um privilégio —das primeiras letras, na escola número 33 do bairro lisboeta de Alvalade.
Mas tergiverso, perdoe, perdoe. Dizia eu que teria uns dezanove ou vinte anos e um dia chegou o convite do homem magro de brasão ao peito e cabelo empastado. Não desdenhe, na altura usava-se muito e agora talvez se volte a usar se o Vitória ganhar o campeonato. O convite era para um encontro e o encontro foi num dos bares do casino do Estoril; eu faltei à faculdade porque oportunidades assim não as havia todos os dias. Eu não tinha fato mas levei camisa, o que decerto deixou o empresário impressionado; tive também o cuidado de estacionar o velho Austin bem longe para que não se percebesse o quanto estava enferrujado, tanto que do lado do morto já não havia onde poisar os pés — alguns amigos mais sensíveis ainda se lembram disso, o asfalto correndo sob os pés deles e os calafrios bons que isso lhes causava.
O empresário pediu, digo, exigiu o seu uísque “em balão aquecido” e eu, ignorante que era das coisas do mundo, uma simples cerveja: sabia lá quanto custava um uísque. Eu fazia parte da categoria social a que então se dava o nome de “remediada”. Tinha uma única nota no bolso, acho que de 500 escudos, para gasolina e uma ou outra necessidade.
O cavalheiro, quero dizer, ele e “uns investidores ali do Estoril”, queriam lançar um semanário e contavam com o meu talento (como era ralo, o meu talento!) para escrever e ilustrar duas páginas “para a juventude”. Em poucos meses, “máximo um ano”, o mercado — ao tempo não se dizia “mercado”, seria a mesma coisa com outro nome qualquer — era nosso. Eu estava comprado e vi os tons azuis e a gravata riscada de vermelho do homem magro erguer-se para dar por terminada a conferência. Então ele levou as mãos aos bolsos, pôs uma expressão contrafeita e disse, com ar de importância nenhuma, “Zé, não sei onde deixei a carteira, pague aí o meu uísque, sim?”
Paguei, lívido mas paguei; e voltei para Lisboa pela marginal — ainda não havia a A5 — rezando a santinhos em que não acreditava para que se não me acabasse a gasolina.
O jornal saiu quê, dois ou três números, depois fechou, foi como se nunca houvera existido, nem do título me lembro, nunca percebi o que sucedeu e eu se recebi alguma coisa foi uns tostões, que aliás não mereceria pelos meus méritos literários ou artísticos.
Mas até hoje, sabe, venho pagando esse uísque.
11.3.16
13.11.15
30.3.15
Clássicos para a Prainha: Os Trabalhos e os Dias
Hesíodo, humilde e pio agricultor, perde por subversão da Justiça uma causa; e no momento seguinte está a descrever as origens do Universo em hexâmetros dactílicos. Assisti a internamentos forçados por bem menos do que isso.As atribulações de Hesíodo começam quando Perses, seu irmão, o arrasta para tribunal sob pretexto de discordar da partilha da herança paterna, apropriando-se no processo de um monte de ovelhas – julgo que se diz “um rebanho”, mas não estou seguro – através de uma técnica arcaica de corrupção envolvendo moedas e um par de mãos (aqui o pundonoroso leitor, imaginando com horror um corrupto juiz beócio do século VIII a.C., passa as costas da mão na larga testa suada e pensa, "Que sorte viver nestes impolutos tempos que são os nossos").
Hesíodo recupera moralmente da perda das ovelhas, mas Perses desbarata o produto do seu triunfo forense em manga erótica, linhas de valor acrescentado, raspadinhas, coisas assim; e vê-se forçado pela Deusa da Destituição – decerto havia uma na Grécia – a recorrer ao irmão. Timidamente sugere um depósito na conta bancária, indiferente se em cheque ou vale postal, mas o irmão (que em todo o caso, como bom rural que é, desconfia de bancos, sem razão, inteiramente sem razão) adopta uma postura entre o vingativo e o didáctico, redigindo para Perses Os Trabalhos e os Dias.
As dicas de Hesíodo relativas à lavoura, e mesmo algumas de índole mais pia – assim de repente lembro-me daquela em que exorta Perses a jamais verter águas em pé virado para o Sol –, quebram o gelo em qualquer festa; mas é ao mito de Pandora que as pessoas tendem a achar mais graça, mesmo as mulheres, as cujas Hesíodo coloca ao nível moral da barata. Pandora foi a primeira mulher, moldada à imagem das deusas imortais com terra e água por Hefesto, o deus coxinho, e dotada pelos restantes olímpicos de todos os atributos – sem esquecer a perfídia, a mentira, etc. Ela era o castigo divino por o titã Prometeu ter roubado o isqueiro a pai Zeus para o dar a uns homens que mal conhecia sem lhes cobrar sequer um cêntimo. Não há cigarros grátis.
Não direi que Hesíodo, lá por execrar as mulheres, aprovava o género masculino. Ele descreve as cinco idades do homem – a de ouro, em que o Windows instalava actualizações apenas quando não se estava a precisar do computador e os homens (lembre-se, não havia mulheres) eram tão felizes que morriam como que adormecendo; a de prata, quando a infância durava cem anos, após o que se falecia rapidamente por falta de cobertura do seguro médico; a de bronze, com gente tão violenta que mal nascia ia direitinha para o Hades; a dos heróis, com as suas guerras de Tebas e de Tróia e reformas douradas na ilha da Bem-Aventurança; por fim, a de ferro, a sua, dele, Hesíodo, a tal de Prometeu e do fogo, tão má que, enfim, perdoe, acho que não sou capaz de falar sobre isso.
Nem tudo está perdido, porém. É certo que 30 mil espíritos nos vigiam, que o olho de Zeus tudo vê e que a Justiça, sua filha, anda à coca (não literalmente) dos que procuram vencer causas nos tribunais através de estratagemas. O importante é ser-se íntegro, perseverar no trabalho e sobretudo ter cuidado, muito cuidado (não pergunte) com o dia 5 de cada mês.
16.3.15
Um olho telescópico
Uma visita à minha exposição, guiada e comentada pela
Adriana Nogueira – que mais poderia eu querer? Estar lá, é claro. Não vai ser
possível, mas daqui das faldas da serra, onde outros afazeres me ocupam,
deitarei um olho telescópico e copiarei cada palavra sua para um bloco-notas que
mostrarei com desvelo a quem um dia perguntar de que tratava tudo aquilo,
afinal.
14.3.15
Cartoon Xira 2015
"Reflexos", de Pawel Kuczynski, e os Cartoons do Ano 2014. A gente vê-se mais logo, no Celeiro da Patriarcal.
19.2.15
23.1.15
30.9.14
Que tal um saltinho ao Algarve?
«Há perto de 16 meses que José Bandeira vem fotografando o antigo bairro do Dafundo, às portas de Lisboa. Primeiro atraído pelos seus edifícios invulgares e paisagens ribeirinhas, ele viria a conhecer Euclides, um imigrante de Cabo Verde que mantém uma pequena taberna na marginal, e através dele muitos dos residentes do edifício Clemente Vicente, onde aquela se situa. A austera construção foi levantada há perto de um século para alojar os operários de duas fábricas da vizinhança e alberga hoje uma população diferenciada, com uma componente significativa de reformados e imigrantes. O “Café Africano”, de Euclides, serve de ponto de encontro entre os moradores do Clemente Vicente e outros habitantes do velho Dafundo, alguns dos quais a viver situações de destituição. Talvez porque Bandeira faz ponto de honra em lhes entregar impressões das fotografias, os habitantes aprenderam a confiar nele e na sua câmara. Aquelas são, assume o autor sem ambiguidade, o compromisso possível entre o seu ideal fotográfico e a ideia que os fotografados têm do que deve ser um retrato. Vistas como um todo, as centenas de imagens que Bandeira coligiu no último ano e meio no bairro oeirense constituem tanto uma demanda estética como documentos de uma realidade em vias de desaparecer.
Em dado momento, o interesse de Bandeira pelos Clássicos levou-o a estabelecer entre o edifício Clemente Vicente e a cidadela de Tróia uma ligação que ele mesmo classifica como "improvável". Ajudou-o a construir o símile o facto de os residentes manterem pequenos barcos, tendas, mesas e cadeiras, hortas, pombais e toda a sorte de estranhos objectos numa faixa adjacente à linha de caminho-de-ferro Lisboa-Cascais, esta por sua vez paralela à linha de costa da hoje muito degradada praia do Dafundo. Na faixa de tendas e barcos Bandeira viu um acampamento micénico e na linha de caminho-de-ferro uma muralha valada (“O que é um comboio suburbano senão um muro que se move?”, pergunta). Para completar o quadro, a temida Avenida Ivens, uma longa, concorrida recta sem travessias para peões, desempenhou o papel de planície troiana.
Definida uma geografia, Bandeira começou a alimentar a ideia de fazer posar alguns dos residentes como personagens da Ilíada e do Ciclo Épico. Isso implicava contar a cada um deles, de forma tão completa quanto possível, a história da Guerra de Tróia, do Julgamento de Páris aos regressos dos heróis. Como reagiriam à narrativa, e às questões morais que coloca, pessoas que jamais haviam ouvido falar dos Clássicos mas a quem a experiência de vida – incluindo, em muitos casos, a guerra – emprestava uma particular autoridade? Existiriam pontos de contacto entre a fragilidade, desesperança até, da sua situação e a dos contendores gregos e troianos após dez anos de conflito? A ideia viria a passar a projecto de facto quando a professora Adriana Nogueira, da Universidade do Algarve, sugeriu ao autor que aquele poderia ter cabimento no congresso “Imagines IV”, dedicado ao Mediterrâneo Antigo e o seu papel nas Artes Visuais e Performativas. Durante os meses de Julho e Agosto, Bandeira reuniu uma selecção de 24 imagens, tantas quantos os cantos da Ilíada: é esse grupo de fotografias que agora constitui a exposição “Nem Gregos nem Troianos”.
Nos últimos dias de Agosto, os habitantes do Clemente Vicente tomaram conhecimento de que as obras para a conclusão do Passeio Marítimo de Algés, que vai ligar esta localidade à Cruz Quebrada através do Dafundo, iriam ter início. Com a ajuda dos residentes, que esperam melhorias para a zona, os barcos foram deslocados para o areal por uma escavadora. O restante foi destruído e despejado para um contentor verde com a palavra “Renascimento” pintada. Quando viu o contentor sobre o descampado frente ao edifício Clemente Vicente, Bandeira não pôde deixar de se perguntar: “Aquilo é um cavalo?”»
(Do texto de introdução à exposição)
18.7.14
Viva o Povo Brasileiro
Duas madrugadas atrás a minha perna esquerda acordou-me: doía, doía muito. Tomei analgésicos mas a dor não passava. Lembrei-me da morte de Guimarães Rosa contada por Nelson Rodrigues. Talvez fosse um bocadinho treta (Rodrigues inventava), mas era uma história simples, plausível. O grande homem telefonara à mulher, ou talvez fosse uma amiga, não me lembro, dizendo de uma dor no braço que “não era normal”. Pediu-lhe ajuda. Depois, socorro. Estava nisto e morreu. Também eu me via já morto, sendo a dor na perna o indubitável sinal. Agradeci; esperei: não morri. O erro foi talvez o ter-me alcandorado a termo de comparação com Guimarães Rosa. Não voltei a pegar no sono. De manhã li as notícias sobre os arrufos na Esquerda e achei que talvez fosse disso porque a perna que me doía era a esquerda. Que foi? Tem uma explicação melhor?
Agora leio a morte de João Ubaldo Ribeiro. Leio, leio e não entendo como apenas me doeu uma perna e não me doeram as mãos, os olhos, enfim, o corpo inteiro.
Agora leio a morte de João Ubaldo Ribeiro. Leio, leio e não entendo como apenas me doeu uma perna e não me doeram as mãos, os olhos, enfim, o corpo inteiro.
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