7.10.08

Mutatis mutandis

Há dois mil e seiscentos anos (tanto assim? Como o tempo passa), também em Atenas havia problemas de endividamento. Flagelados por um sem-número de contrariedades – más colheitas, pragas, aumento de taxas de juro, etc. –, os cidadãos não conseguiam pagar os seus ecrãs plasma gigantes e a taxa da Sport TV (para além de luxos como cereais e coisas assim) e viam-se reduzidos pelos seus credores à condição de escravos.

Temendo os episódios sanguinolentos e, sobretudo, as competições de lira que sempre acompanhavam os períodos de ruptura na Grécia antiga, os atenienses, pobres como ricos, concordaram em pedir ao seu compatriota Sólon – um dos “sete sábios” da Antiguidade – que reformasse as leis da cidade e restaurasse por meios pacíficos a paz social. Sólon aceitou, mas impôs uma condição: por um período de dez anos, nenhuma das suas leis poderia ser alterada sem que antes lhe fosse pedido um parecer. Os atenienses acolheram a cláusula com um encolher de ombros e pelas costas riram-se muito e chamaram ao sábio “Sólon Freitas do Amaral”.

O legislador pôs mãos à obra e substituiu a maior parte das leis de Draco, que condenavam um grego à morte por cortar uma unha, por outras menos, enfim, draconianas. Criou novas classes de censo baseadas na capacidade de produção agrícola e não, como até então sucedia, no berço; proibiu a escravidão por dívidas; por fim (preste atenção, se for banqueiro pare de ler aqui mesmo, não diga que não o avisei), anulou todas as dívidas existentes à data. Leu bem: quem devia alguma coisa ficou a dever coisa nenhuma.

Os escravizados por dívidas viram-se livres e ficaram contentes, mas foram os únicos. As grandes famílias nobres perderam privilégios e ficaram possessas; os pobres queriam mais direitos políticos e ficaram chateados; os ricos ficaram um pouco menos ricos – e furiosos.

Então Sólon, de cujo parecer, lembre-se, dependia qualquer mudança, viajou para parte incerta por um período de dez anos.