18.4.11

Recapitulação II

O inspector dobrou a gabardina, poisou-a cuidadosamente sobre as costas da cadeira, encheu o peito de ar e disse, ao mesmo tempo que expirava:
«Foi o Marcelo.»
«O Marcelo, inspector…?», escandalizou-se o guarda Caetano.
«O Marcelo, Caetano.»
Tomás entrou de rompante no gabinete, corado ainda do opíparo almoço.
«Viva, inspector! Viva, Caetano!»
«O Américo, Tomás?», perguntou o inspector.
«Pensei que estava consigo.»
«Comigo? Não o vejo desde ontem. Preciso que você vá com ele e com o Caetano.»
«Fazer o quê, inspector?»
«Buscar o Marcelo», suspirou o guarda. Tomás voltou a sua incredulidade para o cívico:
«O Marcelo, Caetano?»

9.2.11

Mínimas

O verdadeiro céptico não é o que duvida de tudo; é o que procura a solução depois de a ter encontrado.

25.1.11

Não Há Crise

Keynes está de volta, avise a mulher dele
Por José Bandeira, especialista

 Instruções para a Economia portuguesa (válidas desde 1995 até KLR650).

Voz: Bem vindo à Linha Economia. Para saber se a TAEG é uma companhia aérea low cost, pressione “1”. Se pretende uma entrevista para emprego, pressione “2” noutro telefone qualquer. Para falar com o presidente do Banco Central Europeu, pressione “3”. Para conhecer o valor do défice, digite “1129745084534781,21”. Para insultar um representante da Moody’s, pressione “*****”. Para falar com um técnico, pressione a sua tia. [Eu pressionando a minha tia]
Técnico: Bom dia. Eu dizia-lhe como me chamo, mas nem isso sei. Em que posso ajudá-lo?
Eu: Eh… bom dia. Aqui Bandeira. Parece-me que tenho a Economia avariada.
Técnico: Estou a ver. Posso saber de onde está a ligar?
Eu: [indo até à janela e olhando para os Pais Natal pendurados nas varandas desde o ano passado] Portugal, tenho quase a certeza.
Técnico: Por favor indique o 13º e o 1298º dígitos do seu código de acesso.
Eu: O que é isso?
Técnico: Correcto. Senhor Bandeira, verificou se a Economia está ligada?
Eu: Julgo que sim. Pelo menos tem um monte de luzes vermelhas acesas, ou talvez se trate de um pequeno incêndio.
Técnico: Muito bem. Experimentou clicar em “A Minha Economia” no Ambiente de Trabalho?
Eu: Sim. Aparece aquele jogo das minas.
Técnico: Hmm… ok, parece-me bem. Clique por favor no ícone “Painel de Especialistas”.
Eu: [clicando no ícone] Não acontece nada.
Técnico: Parece estar a funcionar correctamente. Dê-me a sua morada que nós far-lhe-emos chegar um gráfico com toda a informação de que necessita. [nota: consultar gráfico nesta página]
Eu: Mas preciso da minha morada, não tenho outra onde viver.
Técnico: [com um tom de algum desdém] Compreendo. Talvez consigamos resolver a coisa apenas com o seu endereço. [Eu fornecendo o meu endereço]
Técnico: Com o gráfico segue uma foto da Scarlett Johanson nua. Fazemos isso para que os utentes não prestem atenção ao gráfico. Se preferir, temos uma versão com o Brad Pitt. Posso ajudá-lo em mais alguma coisa?
Eu: Bem… quero dizer… então a Economia está em condições? Posso ficar descansado?
Técnico: Sim, sim. Não há crise. [Clic]


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(Texto publicado no nº 4 da revista Companhias.)

21.1.11

Une petite histoire bourgeoise

A FNAC, ou Fédération Nationale d’Achats des Cadres, foi fundada em 1954 por André Essel e e Max Théret, dois membros do movimento Jeunes Socialistes. O seu intuito expresso era o de permitir aos operários a aquisição de bens de retalho a preços acessíveis (soube isso por obscuros documentos que consultei, dias e noites a fio e durante vinte anos, na Bibliothèque Nationale – ou talvez por uma rapidinha na Wikipédia, não me lembro bem). Todos os produtos eram testados num centro independente e aqueles que não atingissem os padrões mínimos iam para uma lista negra. Os funcionários eram treinados de forma a conhecer a fundo a sua área e poder fornecer aos membros da classe trabalhadora todas as informações de que estes necessitassem.

Hélas, todos sabemos o quanto os operários mudaram desde então.

4.1.11

Ditongo Alentejano

“Sou uma mulher simples, mas não sou cega nem surda, Manel. É essa moça da cidade que veio morar aqui para a aldeia. Está fazendo de ti um tonto.”
O pastor afundou-se um pouco mais na samarra.
“Não digas disparates, Dores.”
“Estás vendo? Já nem pronuncias o –e em posição átona final como –i.”
“Tolice. Estou chupando uma azeitona.”
“E o –i em lugar do –e pretónico? E a ditongação de –e em –ei?”
Manel dobrou-se devagar e aconchegou as achas da lareira, tentando ganhar um pouco de tempo. Como não se apercebera que andava ditongando o –e?

20.8.10

21.7.10

PORCA! PORCA!

Mesmo em Portugal, a experiência de conduzir ouvindo uma senhora a gritar “PORCA! PORCA!” na faixa do lado tem o seu quê de aviltante. Sobretudo quando se possui carta há apenas duas ou três semanas, como sucede com a minha filha. Se eu teria ficado incomodado, imagine a menina, para mais estando o automóvel dela tão lavadinho. Que canhestra manobra poderia ter levado uma senhora com ar de quem esteve presente na inauguração do Martinho da Arcada a comportar-se como um motorista de táxi do aeroporto de Lisboa a quem houvessem pedido uma corrida para, sei lá, a Portela de Sacavém?

A idosa acabou por mudar de direcção e o meu trémulo rebento lá seguiu o seu caminho, procurando controlar os nervos e retirar algum sentido de tão afrontoso trato por parte da colega automobilista. Eis senão quando outro condutor se lembrou de abrir o vidro eléctrico do lugar do passageiro do carro dele e gritar: “PORCA! PORCA!”.

Há que admiti-lo: seria de mais até mesmo para mim, que já conduzi em Itália (aqui o leitor estremece). Aterrorizada, a menina ponderou encostar o carro à berma, ligar os quatro piscas, vestir o colete, colocar o triângulo à distância regulamentar – perdoemos-lhe essas ingenuidades, praticamente acabou de tirar a carta – e pedir boleia para o resto do caminho. Parecia-lhe tão mais seguro. Foi aí que o olhar dela se prendeu na porta. “Não estava muito bem fechada, pai”, disse-me com aquela candura que me dá sempre vontade de a fazer co-titular da minha conta bancária.

Então expliquei-lhe como em finais do séc. XIX ficou cientificamente provado que algumas consoantes, a uma velocidade superior a 40 km/h, são difíceis de discernir quando gritadas de um outro objecto em andamento a mais de quatro metros de distância (ficou também provado que, a velocidades acima de 50 km/h, os ocupantes das viaturas explodem; o mesmo sucedendo debaixo de água, mas por motivos completamente diferentes. A explicação não tem aqui cabimento porque é demasiado técnica e deixa tudo numa imundície).

A menina, eu nem precisava de o dizer, ficou muito contente. Até porque, não se tratando propriamente de um elogio, a locução “PORTA! PORTA!” está longe de poder ser classificada como injuriosa. Em tribunal, renderia quando muito um double cheeseburguer. Em todo o caso, sei-a agora muito mais preparada para outro tipo de locuções, quiçá não tão coloridas mas bem menos simpáticas, como “És ceguinha ou quê, pá?” ou “Os seus documentos, por favor”.

29.6.10

Uma carta a Queiroz

Um tipo chamado Phil Woosnam, antigo jogador e treinador galês hoje naturalizado americano porque não se conseguia lembrar de como se dizia “futebol” em inglês, sintetizou na perfeição a filosofia do jogo. Ele dizia que “se a bola se mexe, devemos dar-lhe um pontapé; se não se mexe, devemos pontapeá-la até que se mexa”.

Não sei dar ao professor Queiroz, muita honra como vai o prazer é todo meu guardarei este momento para sempre no meu coração, maior ajuda do que isso que leu nesse parágrafo aí em cima. Conto que seja suficiente para, mais logo, bater a selecção adversária. A cuja é a Espanha, lembrei-me agora mesmo.

Allez les bleus!
ou lá o que é que se diz nestas ocasiões, eu estarei torcendo uma vuvuzela por vocês.

25.6.10

Das festas

Ando tão babado por a minha filha ter passado no exame de condução que Sete Rios vai finalmente justificar o nome que tem. Arreceio-me até de, com a emoção, dar alguma informação errada, mas aqui vai.

Em primeiro lugar, não esquecer que Brasil e Portugal jogam às 17:53 na África do Sul (hora local, em Portugal continental serão 17:30). O meu prognóstico para o jogo, construído a partir da análise científica de todos os dados disponíveis, do lançamento de búzios e de uma pergunta que fiz da varanda a um transeunte, é empate sem golos. Em segundo lugar, lembre-se de que Eugénio Oneguine vai passar pelo São Carlos às oito. É uma boa oportunidade para, finalmente, assistir ali a uma ópera em que se percebe tudo o que os intérpretes dizem. Last but not least, se perdeu Brel nos Açores ontem, ainda está a tempo de o ver, hoje e amanhã, no Jardim de Inverno do S. Luiz. Não vá, não, e daqui por trinta anos, quando lhe perguntarem “Lembras-te daquela coisa extraordinária do Nuno Costa Santos e tal”, vai corar muito e dizer que está com a memória fraquinha e ninguém vai acreditar porque seria praticamente impossível ter-se esquecido.