Calhou-me ontem usar a caixa Multibanco da estação de serviço de Torres Vedras para ver se conseguia transferir dinheiro da conta de alguém muito rico para a minha. Não foi possível, provavelmente o sistema estava em baixo, acontece-me sempre isso. Do lado esquerdo do teclado, um autocolante prevenia os incautos:
ATM protegido
As notas serão inutilizadas em caso de abertura indevida.
Imaginei o meliante, imerso no seu indispensável barrete encardido, no acto de acorrentar a caixa à Ford Transit roubada; a cuja, traseira meio enfiada no lado ilegal da montra estilhaçada, aguardaria em delicado ponto de embraiagem a conclusão da tarefa. Então um colega de bando, notando o autocolante, interromperia a intervenção urbanística:
“Lamento, mas este ATM está protegido, old sport. As notas serão inutilizadas em caso de abertura indevida. Que sorte madrasta.”
E os assaltantes abandonariam cabisbaixamente o objecto da sua cupidez, após o que procurariam uma mercearia que a essa hora ainda estivesse aberta e rapinariam o recheio da caixa registadora. Frugal, na melhor das hipóteses, mas decerto não adulterável, ainda que em caso de abertura indevida.
9.1.10
31.12.09
Da conversão da Rússia
Em criança, eu pensava que a Rússia dos czares era uma nação atrasada porque aquilo a que chamamos “Revolução de Outubro” acontecera em Novembro. Sei agora que a décalage se deve a questões religiosas com não despiciendas consequências geórgicas, mas desde então tenho muita atenção com isso das datas. Jamais dou parabéns atempados a aniversariantes e nunca celebro uma efeméride sem antes proceder a uma investigação escrupulosa que, em regra, me toma vários anos e consome variadíssimos subsídios.
Compreenderá o benquisto leitor, tendo em conta o que acima escrevi, que me atrase um pouco nos desejos de felizes seja o que for, mas este ano abrirei excepção e gritarei à janela (fechada se a temperatura baixar dos oito graus),
Um 2010 supimpa para todos os leitores do BV!
Já o não-leitor do BV terá de esperar que eu conclua as minhas indagações e publique a monografia, mas previno-o desde já que a coisa está preta: tudo indica que hoje são, não 31 de Dezembro de 2009, mas 4 de Setembro de 1990, o que faz do dia de amanhã, quanta coincidência!, o do meu 27º aniversário. Estarei aceitando parabéns e lembranças entre as três e meia da tarde e as oito, após o que tentarei explicar aos meus filhos que, não tendo eles nascido ainda, inexiste qualquer justificação para alimentação, quanto mais para prendas e mesadas, as cujas exigirei de volta. Serei magnânimo, porém: não terei em conta, nem a inflação, nem compensações devidas por eventual estado de sucata dos objectos devolvidos.
Compreenderá o benquisto leitor, tendo em conta o que acima escrevi, que me atrase um pouco nos desejos de felizes seja o que for, mas este ano abrirei excepção e gritarei à janela (fechada se a temperatura baixar dos oito graus),
Um 2010 supimpa para todos os leitores do BV!
Já o não-leitor do BV terá de esperar que eu conclua as minhas indagações e publique a monografia, mas previno-o desde já que a coisa está preta: tudo indica que hoje são, não 31 de Dezembro de 2009, mas 4 de Setembro de 1990, o que faz do dia de amanhã, quanta coincidência!, o do meu 27º aniversário. Estarei aceitando parabéns e lembranças entre as três e meia da tarde e as oito, após o que tentarei explicar aos meus filhos que, não tendo eles nascido ainda, inexiste qualquer justificação para alimentação, quanto mais para prendas e mesadas, as cujas exigirei de volta. Serei magnânimo, porém: não terei em conta, nem a inflação, nem compensações devidas por eventual estado de sucata dos objectos devolvidos.
14.12.09
Anarquia
Um Rei Republicano fez um Golpe de Estado contra Si Mesmo e derrubou a Monarquia Absoluta; o Povo, agradecido, nomeou-o Presidente Vitalício. No dia da Tomada de Posse, porém, Conspiradores Monárquicos lançaram um Contra-Golpe e restauraram-no no Trono da Nação. O Povo, reconhecido, pediu ao Rei que mandasse decapitar o Cabecilha da Rebelião Republicana. Sua Majestade graciosamente acedeu ao desejo do Povo, instalando-se então uma Anarquia.
17.11.09
4.11.09
28.10.09
15.10.09
14.10.09
Ginásio Blues (I)
Venho fazendo, olímpico leitor, “treino acompanhado”. Ao que percebo, aconselham isso aos clientes cujo grau de descoordenação espacial pode resultar em processo contra o ginásio. Se existe uma probabilidade elevada de o seu nariz tocar o tapete rolante onde décimas de segundo antes estavam os seus Nike novinhos em folha, tem “treino acompanhado” tatuado na testa.
O problema é que a gente sente-se tão… enfim… acompanhada. Fiz um monte de exercícios que só percebi que eram exercícios quando o treinador me pediu para tentar não adormecer tantas vezes. O pior momento foi talvez quando me passou para as mãos uns humilhantes “pesos”. Pareciam daqueles ossos de borracha para cães, mas mais leves e em tons rosa. Fez-me sentar de frente para um espelho (há espelhos para onde quer que se vire, fazem de propósito para que sinta vergonha) e explicou-me que devia executar movimentos ritmados para fora e para dentro com os braços, como se estivesse a abrir e fechar as portas duplas de um armário mas sem a parte útil de retirar alguma coisa lá de dentro.
Só por si aquilo dos ossos cor-de-rosa já era embaraçoso, mas não tanto quanto o que se seguiu. Ouvi aproximando-se rapidamente por trás de mim o que me pareceu ser a respiração aflitiva de um rinoceronte com asma, ou um expresso inter-cidades com uma roda empenada e um grupo de poetas no interior ensaiando para uma sessão de leitura ao vivo, eu não podia ter a certeza. Era afinal um sujeito grande, parrudo, aquilo a que na minha juventude se dava o nome de “quarto de leite Vigor”, e quase me desarticulou a omoplata direita com a deslocação de ar que provocou quando passou por mim (não sou um homem baixo, mas não se esqueça de que estava sentado). Sacou rapidamente de um par de halteres de ar pesadíssimo que estavam encaixados numa estrutura metálica e, urrando a cada gesto como um urso a quem acabam de informar que o bosque onde ele planta umas couves vai ser aplanado para que uma multinacional sueca construa no local um centro de bricolage e artigos para o lar, começou a erguer e baixar os pesos como se estes mais não fossem que simples esferovite pintada.
Comecei a suar solidariamente. Quando o Sansão por fim parou, olhei primeiro para os meus ossinhos cor-de-rosa; depois, para os colossais halteres do, eh, colega. Então aproveitei um momento em que o treinador estava a dar atenção a uma senhora que tinha dúvidas sobre a flacidez dos glúteos. Apontei os halteres e, pondo o ar mais casual de que fui capaz, perguntei:
Já não vai precisar desses?
O problema é que a gente sente-se tão… enfim… acompanhada. Fiz um monte de exercícios que só percebi que eram exercícios quando o treinador me pediu para tentar não adormecer tantas vezes. O pior momento foi talvez quando me passou para as mãos uns humilhantes “pesos”. Pareciam daqueles ossos de borracha para cães, mas mais leves e em tons rosa. Fez-me sentar de frente para um espelho (há espelhos para onde quer que se vire, fazem de propósito para que sinta vergonha) e explicou-me que devia executar movimentos ritmados para fora e para dentro com os braços, como se estivesse a abrir e fechar as portas duplas de um armário mas sem a parte útil de retirar alguma coisa lá de dentro.
Só por si aquilo dos ossos cor-de-rosa já era embaraçoso, mas não tanto quanto o que se seguiu. Ouvi aproximando-se rapidamente por trás de mim o que me pareceu ser a respiração aflitiva de um rinoceronte com asma, ou um expresso inter-cidades com uma roda empenada e um grupo de poetas no interior ensaiando para uma sessão de leitura ao vivo, eu não podia ter a certeza. Era afinal um sujeito grande, parrudo, aquilo a que na minha juventude se dava o nome de “quarto de leite Vigor”, e quase me desarticulou a omoplata direita com a deslocação de ar que provocou quando passou por mim (não sou um homem baixo, mas não se esqueça de que estava sentado). Sacou rapidamente de um par de halteres de ar pesadíssimo que estavam encaixados numa estrutura metálica e, urrando a cada gesto como um urso a quem acabam de informar que o bosque onde ele planta umas couves vai ser aplanado para que uma multinacional sueca construa no local um centro de bricolage e artigos para o lar, começou a erguer e baixar os pesos como se estes mais não fossem que simples esferovite pintada.
Comecei a suar solidariamente. Quando o Sansão por fim parou, olhei primeiro para os meus ossinhos cor-de-rosa; depois, para os colossais halteres do, eh, colega. Então aproveitei um momento em que o treinador estava a dar atenção a uma senhora que tinha dúvidas sobre a flacidez dos glúteos. Apontei os halteres e, pondo o ar mais casual de que fui capaz, perguntei:
Já não vai precisar desses?
23.9.09
24.8.09
Autárquicas
A celebrada baixa pombalina teria decerto merecido o elogio de Hipodamo de Mileto, o pioneiro projectista das cidades geométricas e do planeamento urbano; mas também a reprovação dos seus contemporâneos – uma cidade onde um estranho facilmente se orienta é uma cidade mais fácil de conquistar.
14.8.09
Dos valores
Em Lady Windermere’s Fan, Oscar Wilde fez Lorde Darlington declarar que um cínico é aquele que conhece o preço de tudo e o valor de coisa nenhuma. Pela pena de pato de Shakespeare – ou, parafraseando o próprio Wilde, de outro inglês com o mesmo nome –, Tróilo (só o nome já diz tudo, não acha?) garantia a Heitor que Helena devia toda a sua valia ao facto de ser a causa directa de uma guerra gloriosa, não o contrário. E o cicerone do paço de Vila Viçosa rematava entusiasmadas descrições de raríssimas peças de mobiliário com um abanar de cabeça, acompanhado por um comovido “não tem valor”.
3.8.09
À la Bierce ou Esopo Remendado
“Pode tirar-me tudo menos o Direito à Indignação”, indignava-se um Homem Indignado. “Não posso tirar-lho, mas posso taxá-lo”, respondeu o Governante Insensível. E quanto mais o Homem Indignado com isto se indignava, mais o Governante Insensível, com a ajuda de um Indignómetro, via o lado da receita subir.
16.7.09
Urgências
No sinal luminoso lia-se “URGÊNCIAS”, mas a recepcionista decidiu que o meu problema não merecia atenção clínica, muito menos àquelas horas perdidas, e sugeriu a tasquinha-aberta-24-horas ali ao virar da esquina ou qualquer coisa tipo oriental que metesse agulhas, pedras quentes e mentes vazias. Eu retorqui que, desde que se pague, num hospital privado tudo é do foro clínico – dores existenciais, roupa que repentinamente deixou de nos servir e angústias relacionadas com Literatura. Então ela entregou-me a uma ortopedista a quem faltavam apenas duas noites para a reforma (problemas de ossos, percebi pelos estalidos; mas isso agora não interessa, estamos a falar de mim, ok?).
Conversámos bastante sobre tudo e sobre nada. Ela explicou-me que “a ortopedia foi o maior avanço da humanidade desde que alguém percebeu que as arestas desgastadas de um berlinde o arredondavam e que dessa forma rolava bem melhor”. Nunca fui muito de jogos, mas achei isso interessante.
Saí do hospital sentindo-me outro. Um tal Nando que bebe J&B e trabalha num gabinete de contabilidade da baixa. O J&B tudo bem, a parte mais chata ainda é essa da contabilidade. Caramba, logo eu, que em contas sou um nabo elevado à décima quinta potência.
Conversámos bastante sobre tudo e sobre nada. Ela explicou-me que “a ortopedia foi o maior avanço da humanidade desde que alguém percebeu que as arestas desgastadas de um berlinde o arredondavam e que dessa forma rolava bem melhor”. Nunca fui muito de jogos, mas achei isso interessante.
Saí do hospital sentindo-me outro. Um tal Nando que bebe J&B e trabalha num gabinete de contabilidade da baixa. O J&B tudo bem, a parte mais chata ainda é essa da contabilidade. Caramba, logo eu, que em contas sou um nabo elevado à décima quinta potência.
30.6.09
25.6.09
O Universo Elegante e outros contos
Desculpe qualquer conversa que me escape sobre mecânica quântica, cosmologia, supercordas, horizonte de acontecimentos, singularidade, entropia e coisas que se lhes semelhem. O desgosto com a crise deu-me para ler sobre o assunto, já vou no milésimo calhamaço – o que terminei agora, The Fabric of the Cosmos: Space, Time, and the Texture of Reality, tem praticamente 600 páginas neste universo (noutros pode ter ou não). E no entanto, só ultimamente comecei a ter noção de que, por exemplo, menos que dez dimensões espaciais é coisa para meninos e que se pode passar através de um túnel de verme sem se ter nojinho dele (e ainda ganhar tempo com isso).
Deixe que me orgulhe de dizer que eu mesmo já ilustrara, para os livros do Carlos Fiolhais e do professor Dias de Deus (ambos excelentes terráqueos e bons amigos, saudades de uma almoçarada, para a semana terei um pouco de tempo e muitas perguntas) os Grandes Mistérios da Física, tanto da astronomicamente grande (como a Relatividade Geral, Restrita e Não sabe / Não responde) como da ridiculamente pequena (conhecida nas cantinas das faculdades como “Física da Partícula de Napoleão”).
Mas não ligue, isto passa-me. Até Freud disse que às vezes um buraco negro é apenas um buraco negro. Ou se não o disse neste, disse-o num universo paralelo qualquer.
Deixe que me orgulhe de dizer que eu mesmo já ilustrara, para os livros do Carlos Fiolhais e do professor Dias de Deus (ambos excelentes terráqueos e bons amigos, saudades de uma almoçarada, para a semana terei um pouco de tempo e muitas perguntas) os Grandes Mistérios da Física, tanto da astronomicamente grande (como a Relatividade Geral, Restrita e Não sabe / Não responde) como da ridiculamente pequena (conhecida nas cantinas das faculdades como “Física da Partícula de Napoleão”).
Mas não ligue, isto passa-me. Até Freud disse que às vezes um buraco negro é apenas um buraco negro. Ou se não o disse neste, disse-o num universo paralelo qualquer.
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