8.6.09
Humanos, demasiado humanos
Como na Atenas clássica, escolhemos ontem os cidadãos que queremos a todo o custo ver fora do país por alguns anos. Mas vá, somos mais humanos: reduzimos o período de ostracismo para metade e sempre lhes damos algum dinheirito para se irem aguentando lá no estrangeiro.
1.6.09
I forget
O túmulo siciliano de Ésquilo não faz qualquer menção à sua dramaturgia: exalta apenas a coragem que demonstrou, em Maratona, contra “os medos de longos cabelos”. É como se na lápide de Samuel Beckett, que a pedira de uma cor qualquer desde que fosse cinzenta, constasse algo como
Jogou críquete pela Universidade de Dublin, tendo sido fundamental em duas vitórias sobre Northamptonshire; tem uma entrada no afamado Wisden Cricketer’s Almanack.
Ele decerto teria aprovado isso, mas não se lembrou.
-----
Nota: esqueça a importância de Maratona para a afirmação de Atenas, uma cidade que até então vinha apenas mencionada de passagem no “catálogo das naus” da Ilíada e em meia dúzia de mitos obscuros; esqueça o orgulho de Ésquilo na glória da sua cidade; não é disso que estou a falar. Eu não sei sequer do que estou a falar. I forget.
Jogou críquete pela Universidade de Dublin, tendo sido fundamental em duas vitórias sobre Northamptonshire; tem uma entrada no afamado Wisden Cricketer’s Almanack.
Ele decerto teria aprovado isso, mas não se lembrou.
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Nota: esqueça a importância de Maratona para a afirmação de Atenas, uma cidade que até então vinha apenas mencionada de passagem no “catálogo das naus” da Ilíada e em meia dúzia de mitos obscuros; esqueça o orgulho de Ésquilo na glória da sua cidade; não é disso que estou a falar. Eu não sei sequer do que estou a falar. I forget.
25.5.09
A segunda namorada de Heisenberg
No ano de 1925, o jovem físico Wolfgang Pauli lamentava-se: “A Física está, neste momento, completamente errada. Para mim, pelo menos, é demasiado difícil. Eu antes queria ser um comediante e nunca ter ouvido falar de Física na minha vida”.
Apenas um mês passara sobre o queixume de Pauli quando o seu colega Heisenberg apresentou ao mundo a Mecânica Matricial, primeira formulação verdadeiramente hilariante da teoria quântica e também o nome da segunda namorada dele.
Pauli, entusiasmado, abandonou de imediato as pretensões à comédia, que ele até aí supusera ser muito mais divertida que a Física de Partículas. “Caramba, como estava enganado”, pensava rindo como um louco, e febrilmente anotava tiradas de stand-up physics na ardósia negra do laboratório da universidade.
Apenas um mês passara sobre o queixume de Pauli quando o seu colega Heisenberg apresentou ao mundo a Mecânica Matricial, primeira formulação verdadeiramente hilariante da teoria quântica e também o nome da segunda namorada dele.
Pauli, entusiasmado, abandonou de imediato as pretensões à comédia, que ele até aí supusera ser muito mais divertida que a Física de Partículas. “Caramba, como estava enganado”, pensava rindo como um louco, e febrilmente anotava tiradas de stand-up physics na ardósia negra do laboratório da universidade.
14.5.09
4.5.09
Haverá expressão mais sem sentido que "passo de corrida"?
Eu queria muito responder a comentários e escrever um poste bem longo e sem gralhas. Contar como, para evitar problemas como o que relatei dois postes abaixo, passei a usar exclusivamente cartões Multibanco de outras pessoas. Ou como ando muito contente por o meu filho gostar cada vez mais de peixe (mas será que o raio do oceanário nunca fecha para férias?). Ou ainda como, durante o longo fim-de-semana, meditei sobre algumas questões metafísicas de grande profundidade, tendo concluído que devemos agir sempre como se no dia seguinte todo o comércio estivesse encerrado.
E contudo, hélas, não posso. Urge resolver questões do foro burocrático; e pelas 14:30, mais hora, menos hora, tenho a consulta em que a doutora A. me vai dizer se estes últimos quatro meses de renúncias – suporta e abstém-te, diriam os estóicos – valeram a pena, ou se terei mesmo que deixar de praticar parkour (e a sua versão de salão, a canasta).
Ocorre-me agora escrever
todo o início é precipitado; todo o fim é prematuro
porque o poste não apenas não ficou tão curtinho assim, como ainda não terminou. Falta esse parágrafo aí em baixo, onde eu digo que
Mais logo, dependendo de me ter ou não dependurado do arrevesado ramo de alguma olaia, eu volto, perseverante leitor.
E contudo, hélas, não posso. Urge resolver questões do foro burocrático; e pelas 14:30, mais hora, menos hora, tenho a consulta em que a doutora A. me vai dizer se estes últimos quatro meses de renúncias – suporta e abstém-te, diriam os estóicos – valeram a pena, ou se terei mesmo que deixar de praticar parkour (e a sua versão de salão, a canasta).
Ocorre-me agora escrever
todo o início é precipitado; todo o fim é prematuro
porque o poste não apenas não ficou tão curtinho assim, como ainda não terminou. Falta esse parágrafo aí em baixo, onde eu digo que
Mais logo, dependendo de me ter ou não dependurado do arrevesado ramo de alguma olaia, eu volto, perseverante leitor.
3.5.09
28.4.09
Abra e não feche, mesmo que doa
Hoje de manhã, enquanto no televisor da salinha de espera peroravam qualquer coisa sobre como emagrecer pelo sexo e a forma correcta de medir o pénis (recordo-me de ter ouvido Goucha dizer algo como “não há fita métrica para o meu tamanho”, o que me deixou a pensar em como a vida afectiva dele deve ser um pânico), a assistente do meu ortodontista – há que chamar as coisas pelos nomes – debitou-me, em vez dos 68 que eram de lei, 680 euros no terminal Multibanco.
Detectei o excesso barroco assim que o papelinho assomou à boca da maquineta, como se aquele zero do “680” viesse impresso a vermelho fluorescente. Então balbuciei, com uma bola de ténis entalada na garganta mas rindo muito, “hahaha, isto hoje foi uma inspecçãozita de rotina a puxar para o carote, não há fita métrica que chegue para esta conta”.
A assistente olhou para o pedacinho de papel térmico que eu, lutando contra uma apoplexia que entretanto me assaltara, lhe passara para a mão. Inspeccionou-o por um momento, levou a mão ao queixo pensante e disse tranquilamente:
“Bolas, por 680 euros tínhamos-lhe posto uma coroa”.
Assim andam, leitor, as monarquias.
Detectei o excesso barroco assim que o papelinho assomou à boca da maquineta, como se aquele zero do “680” viesse impresso a vermelho fluorescente. Então balbuciei, com uma bola de ténis entalada na garganta mas rindo muito, “hahaha, isto hoje foi uma inspecçãozita de rotina a puxar para o carote, não há fita métrica que chegue para esta conta”.
A assistente olhou para o pedacinho de papel térmico que eu, lutando contra uma apoplexia que entretanto me assaltara, lhe passara para a mão. Inspeccionou-o por um momento, levou a mão ao queixo pensante e disse tranquilamente:
“Bolas, por 680 euros tínhamos-lhe posto uma coroa”.
Assim andam, leitor, as monarquias.
21.4.09
Hello
Estou de volta, obrigado por não desistir de mim e tal, sei que a vida por aqui não tem sido fácil.
Daqui a pouco almoçarei com a minha filha e levar-lhe-ei a sua primeira reflex Nikon, após o que ela publicará num blogue dúzias de fotos de mim tentando esconder-me debaixo da costeleta de novilho que estou proibido de comer. O meu rapaz também está fino, obrigado por se interessar. Há dias, ao telefone, ele tinha-me dito:
“Este fim-de-semana não vou ficar agarrado ao computador.”
“Não vais mesmo?”
“Não. Vou ficar agarrado à televisão.”
Mais logo eu volto, quem sabe com uma resenha ilustrada das aventuras do meu ectoplasma na pérfida Albion, um conto erótico ao gosto barroco ou uma descrição pormenorizada dos processos de construção naval ao tempo da Restauração Inglesa, ainda não consegui decidir-me mas um desses quatro há-de ser.
Daqui a pouco almoçarei com a minha filha e levar-lhe-ei a sua primeira reflex Nikon, após o que ela publicará num blogue dúzias de fotos de mim tentando esconder-me debaixo da costeleta de novilho que estou proibido de comer. O meu rapaz também está fino, obrigado por se interessar. Há dias, ao telefone, ele tinha-me dito:
“Este fim-de-semana não vou ficar agarrado ao computador.”
“Não vais mesmo?”
“Não. Vou ficar agarrado à televisão.”
Mais logo eu volto, quem sabe com uma resenha ilustrada das aventuras do meu ectoplasma na pérfida Albion, um conto erótico ao gosto barroco ou uma descrição pormenorizada dos processos de construção naval ao tempo da Restauração Inglesa, ainda não consegui decidir-me mas um desses quatro há-de ser.
13.4.09
Eterno retorno
Sei que o compassivo leitor perdoará a ausência. Será breve. Entretanto, e para que as folhas do BV não vão saindo em branco, aqui vai uma selecção de mínimas que eu fui publicando, entre 2005 e 2008, no BV. Se já leu, perdoe. Se não tinha lido ainda, perdoe também.
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A pessoa verdadeiramente importante não acredita na vida depois da sua morte.
Um homem sabe que está acabado quando até as mulheres que não o conhecem o abandonam.
Essa de se achar que o incréu vive nas trevas é uma ideia ofensiva. Tivera eu luz que chegasse e protestaria por escrito.
Por muitos gritos de Munch que pintem, haverá sempre alguém com cara de jardim das delícias.
Desaparecem as aldeias, mas os idiotas ficam.
O amor não correspondido é ridículo; o amor correspondido é a mais sublime forma de ridículo.
Existem um princípio e um fim, ligados por uma eternidade.
De todas as pessoas a quem te poderiam ordenar que amasses como a ti mesmo, tinham que escolher o teu vizinho.
Montes de problemas são separados por vales de lágrimas.
Se a Terra não fosse redonda, veríamos o infinito.
Tenho uma vontade de ferro – a preguiça é que ma enferruja.
Em terra de eunucos, quem tem sexo é o pai.
O crítico medíocre é um escritor falhado porque não é capaz de escrever; o bom crítico não consegue escrever porque é incapaz de parar de ler.
Muitas vezes é numa noite de insónia que a gente abre os olhos.
Deus tem a solução, apenas não se lembra onde a pôs.
“Quem não aparece, esquece”, disse o fantasma a Hamlet.
Para o homem deitado, toda a porta é um alçapão.
Alguns sucessos são apenas fracassos vivendo acima das suas possibilidades.
Dois séculos antes de os pitagóricos se terem saído com os números primos, já os lídios tinham as moedas cunhadas.
Jamais se arrependa do que escreve: outros se arrependerão por si.
Viver para sempre facilita o crédito bancário.
Algumas pessoas são como saleiros: só damos por elas quando as levam para outra mesa.
“Malcriado” é como as pessoas que tiveram uma educação se referem a alguém que, com um pouco mais de sorte, podia ter sido criado.
O problema com os castelos no ar é aquela arquitectura tem-te não caias.
Nem mesmo Onan agiu sozinho.
Como o tabaco, a vida é um hábito que não dá para ir reduzindo.
O humorista é um náufrago voluntário. E o seu primeiro dever, em vendo-se arrastado para as costas do sentido, é morrer na praia.
Ninguém é maior do que a sua obra, mas pode chegar perto fazendo uma alimentação equilibrada.
Eles pareciam desfeitos um para o outro.
O Mundo é um grande livro em que tudo está já escrito, mas com uma péssima caligrafia.
Gémeos: o desejo de igualdade levado ao extremo.
Certeza: uma dúvida sem saída.
Seita: uma religião sem caras conhecidas.
A única forma criativa de citar é citar errando.
“Dêem-me um ponto de apoio e moverei a Terra”, disse Arquimedes, sem consciência de que isso colocaria em risco todo o ecossistema.
É escriturando uma carta comercial (e não escrevendo poesia) que se pode de facto sentir aquilo que Pessoa sentia.
Devemos conhecer-nos a nós mesmos se não queremos que outra pessoa receba a nossa correspondência.
Corajoso: aquele que foge na direcção do inimigo.
Dou comigo a ver cada vez menos televisão e isso assusta-me. Não quero perder o contacto com a realidade.
Deus sabe tudo o que aconteceu no passado, tudo o que está a acontecer no presente e tudo o que vai acontecer no futuro, o que pode ajudar a explicar um certo desinteresse.
O medo é uma reacção nervosa; a coragem é o domínio do medo; a razão é o controlo da coragem; a fuga é o comando da razão; o medo é a razão da fuga.
A pessoa que não lê porque não quer podia dar a quem quer ler mas não sabe a educação que tem mas não usa.
Finlândia: um país mítico para onde a maioria dos portugueses crê que vai depois de morrer.
Se a mente do depravado é uma lixeira, a do moralista é um aterro sanitário.
Não sinta vergonha de não achar graça às comédias de Shakespeare: eu mesmo só me rio por respeito.
Morte: pronome pessoal reflexo.
Para o zarolho, todo o amor é à primeira vista.
Vegetariano não tempera a comida, ele rega-a.
Eureka: um dia alguém fez mover o porta-multas e compreendeu que podia limpar o pára-brisas com ele.
Se vai escrever nas entrelinhas, imprima a dois espaços.
Antigamente, de todas as práticas médicas, aquela que mais impressão me fazia era a de tirarem vintes no liceu.
A meio de um noticiário ocorre-me que, se os actores gregos usavam máscaras distintas para a tragédia e para a comédia, era porque o público nem sempre conseguia distinguir uma da outra.
As maiores pérolas humorísticas são produzidas por pessoas com o sentido de humor de uma ostra.
Poeta: alguém que se aventura com a língua mais do que o pudor aconselha.
O microondas matou o banho-maria.
Um português só faz sentido na tropa.
Espertina de café: insónia sem honra.
Um homem conhece-se pelo seu ponto de embraiagem.
As aves raras poisam em lugares comuns.
Se a vida fosse como um livro, que melhor altura para morrer do que a época de Natal?
As folhas caídas transformam-se em romances que serão publicados na Primavera.
Aos 22 anos, a urgência dos sentidos; aos 44, um certo sentido de urgência.
O sinal de stop seria muito mais eficaz se significasse “direito absoluto de parar”.
A perda de prioridade não é um sinal de trânsito: é um sinal dos tempos.
Não julgue um livro pela capa: julgue a editora.
Opinião é um preconceito embrulhado para oferta.
Sempre que me sugerem uma ética das virtudes eu peço para ver a lista. Das virtudes.
Pressionar alguém para que deixe de fumar ou de beber é simplesmente sugerir-lhe que troque a sua forma de morrer por outra ainda menos eficaz.
O que não nos dizem é quase sempre verdadeiro.
“Engordará nem que seja à bomba”, disse a condessa à filha, e mandou preparar-lhe uma carbonária.~
O Mestre é o cómico. Os discípulos são apenas ridículos.
Anselmo só tomou verdadeiramente consciência de que ia para o mundo das trevas quando a Morte vestiu um colete reflector.
É muito importante que se conheça a origem da Tragédia para que se possa calcular os respectivos direitos de autor.
A mulher provocou a Queda, mas homem que é homem levanta-se.
A questão fundamental, quanto a mim, não está tanto em saber se o Neandertal podia falar; mas em saber se, podendo falar, diria alguma coisa de jeito.
Andar a filosofar é patético. Filosofar a andar é peripatético.
As imagens do cataclismo fortaleceram-lhe a determinação: fé, só mesmo numa religião em que até os bons se salvassem.
Não está certo misturar os “não sei” com os “não respondo”. Os primeiros são ignorantes. Os segundos sabem de mais.
Há cada vez mais substantivos sem emprego e adjectivos mal empregados.
Das quatro virtudes cardiais, a temperança é a que mais jeito dá na cozinha.
Para um português, a chuva é uma forma de seca.
Ler muito Hegel provoca geistrite.
Mito urbano: A província existe.
“O que o povo quer é sangue”, gritou brandindo a faca; e para que se apaziguassem as massas inventou-se logo ali a galinha de cabidela.
Era para se chamar Alegoria do Restaurante Indiano, mas nesse dia Platão decidiu jantar n’A Caverna.
O primeiro relógio inteiramente electrónico foi o americano Hamilton Pulsar.
O primeiro relógio inteiramente biológico foi o alemão Immanuel Kant.
Diz-se à boca pequena que o novo vizinho é dentista.
O saque de Constantinopla pelos cruzados foi uma coisa bizantina.
Oposto a um sinal de nonsense há sempre um outro de sentido obrigatório.
Pequenos luxos lisboetas: comer um rei sol na Versalhes.
Não faço questão de que levem o meu humor a sério. Já ficaria satisfeito se levassem as coisas sérias com humor.
No passado, o homem fazia o seu caminho baseado exclusivamente na fé. Depois veio a câmara e instalou semáforos na rua dele.
Se, como afirmam alguns estudos, as maiorias ignaras têm em geral opiniões mais correctas que as minorias bem informadas, então podemos perder a esperança de que não haja vida após a morte.
Existem apenas duas opções na vida de um homem: ir para padre ou não ir para padre. No caso das mulheres, a gama de opções é ainda mais restrita.
A ideia de que um bom solário resolve todos os problemas é uma gralha.
O humor deve ser praticado a uma distância considerável do alvo.
Toda a gente fala para si mesma. A presença de um terceiro é mera convenção social.
A maior parte dos namoros termina quando as raparigas percebem que os namorados são rapazes.
Humor é o processo pelo qual reconhecemos o insuportável absurdo da nossa existência e o transformamos num absurdo suportável.
Todo o homem tem um preço. Nem que seja esquecido nalguma peça de roupa.
O código de Hamurabi: 6339.
Se à terceira não obtiveres resposta, é provável que não estejas acompanhado.
Fundamentalista é aquele que respeita todos os direitos dos outros, à excepção dos fundamentais.
Se não tem arco, é neoclássico. Se tem, é violino.
Se não formos capazes de reconhecer os nossos erros, como poderemos culpar outra pessoa por eles?
Sabemos que um livro de memórias é mau quando acabamos de o ler e não nos lembramos de nada.
Falta menos de um mês para o fim do mundo. Depois faremos um balanço.
Filme de qualidade é aquele em que os actores insistem em não fazer o que nós queremos que eles façam.
A política é a arte conceptual por outros meios.
Não creio que vivamos numa “meritocracia”: a palavra nem sequer existe. E depois, há demasiados idiotas de sucesso.
A melhor forma de se ler um clássico é imaginar que o autor está sentado numa pequena cadeira na sala ao lado, aguardando, mortificado, o nosso julgamento; e que a qualquer momento podemos ir lá fazer-lhe uma pergunta ou dar-lhe um murro nas ventas.
Um livro é uma citação dentro de contexto.
Que lindo que é, o pinhal de Leiria com os seus eucaliptos.
Os homens têm segredos; as mulheres têm mistérios.
Imperativo, sim; categórico, talvez.
Pela emoção de se receber uma carta: todas as contas deviam ser manuscritas.
A família primeiro, pensou o futuro Cã, e matou o irmão.
Há um Sísifo em cada gilette.
Não há na Eternidade com que matar o tempo.
O sono é um adiantamento da morte. As insónias são os juros da vida. Tudo é usura metafísica.
O pior de um mau artista é o seu público.
Nenhuma grande utopia sobrevive sem restaurantes abertos depois das sete da tarde.
O conhecimento adquire-se; a sabedoria paga-se; a ignorância promove-se.
A existência de sequelas faz-me questionar a validade dos fins.
Não nos bastou perder o sentido da hospitalidade. Fomos mais longe: culpámos o hóspede por isso.
Já mais do que um fumador me perguntou (nervosamente) qual a maior diferença entre o antes e o depois. Não sou capaz de lhes mentir. A vida de fumador seria talvez mais curta, mas sempre tinha intervalos.
Sintaxe: difícil jogo de sociedade que consiste em construir frases inteligíveis utilizando apenas palavras.
Quem não percebe a diferença entre um rádio e um transístor não percebe nada de futebol.
Falo muito do que não sei, mas jamais com ligeireza.
Pôr o título à frente do nome é presunção; pô-lo atrás é um erro, a não ser que estejam separados por uma vírgula.
Não é de hoje que a francofonia tem vindo a perder terreno. Aristóteles, por exemplo, não falava uma palavra de francês.
Tudo o que ela dizia era no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Isso tornava a tarefa de a compreender muito difícil, porque terminava as frases antes de as começar.
“Enforquem o rei!”, gritava-se por todo o Nepal, mas não encontraram um lugar alto.
Na meia-idade uma pessoa abdica de tudo, menos do direito de falar a toda a hora da meia-idade.
Não concebo um apocalipse em que o arcanjo Miguel não se pareça com Steven Seagal.
Carga da Brigada Ligeira: cavalgada em direcção a uma morte certa em nome de uma causa duvidosa sob um comando incompetente. E para os cavaleiros também foi muito difícil.
Hoje entrei (inadvertidamente) num WC público de senhoras. É tudo o que imaginava.
Teve nota máxima a Matemática. Coisa genética. Já a mãe tivera cálculos nos rins.
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A pessoa verdadeiramente importante não acredita na vida depois da sua morte.
Um homem sabe que está acabado quando até as mulheres que não o conhecem o abandonam.
Essa de se achar que o incréu vive nas trevas é uma ideia ofensiva. Tivera eu luz que chegasse e protestaria por escrito.
Por muitos gritos de Munch que pintem, haverá sempre alguém com cara de jardim das delícias.
Desaparecem as aldeias, mas os idiotas ficam.
O amor não correspondido é ridículo; o amor correspondido é a mais sublime forma de ridículo.
Existem um princípio e um fim, ligados por uma eternidade.
De todas as pessoas a quem te poderiam ordenar que amasses como a ti mesmo, tinham que escolher o teu vizinho.
Montes de problemas são separados por vales de lágrimas.
Se a Terra não fosse redonda, veríamos o infinito.
Tenho uma vontade de ferro – a preguiça é que ma enferruja.
Em terra de eunucos, quem tem sexo é o pai.
O crítico medíocre é um escritor falhado porque não é capaz de escrever; o bom crítico não consegue escrever porque é incapaz de parar de ler.
Muitas vezes é numa noite de insónia que a gente abre os olhos.
Deus tem a solução, apenas não se lembra onde a pôs.
“Quem não aparece, esquece”, disse o fantasma a Hamlet.
Para o homem deitado, toda a porta é um alçapão.
Alguns sucessos são apenas fracassos vivendo acima das suas possibilidades.
Dois séculos antes de os pitagóricos se terem saído com os números primos, já os lídios tinham as moedas cunhadas.
Jamais se arrependa do que escreve: outros se arrependerão por si.
Viver para sempre facilita o crédito bancário.
Algumas pessoas são como saleiros: só damos por elas quando as levam para outra mesa.
“Malcriado” é como as pessoas que tiveram uma educação se referem a alguém que, com um pouco mais de sorte, podia ter sido criado.
O problema com os castelos no ar é aquela arquitectura tem-te não caias.
Nem mesmo Onan agiu sozinho.
Como o tabaco, a vida é um hábito que não dá para ir reduzindo.
O humorista é um náufrago voluntário. E o seu primeiro dever, em vendo-se arrastado para as costas do sentido, é morrer na praia.
Ninguém é maior do que a sua obra, mas pode chegar perto fazendo uma alimentação equilibrada.
Eles pareciam desfeitos um para o outro.
O Mundo é um grande livro em que tudo está já escrito, mas com uma péssima caligrafia.
Gémeos: o desejo de igualdade levado ao extremo.
Certeza: uma dúvida sem saída.
Seita: uma religião sem caras conhecidas.
A única forma criativa de citar é citar errando.
“Dêem-me um ponto de apoio e moverei a Terra”, disse Arquimedes, sem consciência de que isso colocaria em risco todo o ecossistema.
É escriturando uma carta comercial (e não escrevendo poesia) que se pode de facto sentir aquilo que Pessoa sentia.
Devemos conhecer-nos a nós mesmos se não queremos que outra pessoa receba a nossa correspondência.
Corajoso: aquele que foge na direcção do inimigo.
Dou comigo a ver cada vez menos televisão e isso assusta-me. Não quero perder o contacto com a realidade.
Deus sabe tudo o que aconteceu no passado, tudo o que está a acontecer no presente e tudo o que vai acontecer no futuro, o que pode ajudar a explicar um certo desinteresse.
O medo é uma reacção nervosa; a coragem é o domínio do medo; a razão é o controlo da coragem; a fuga é o comando da razão; o medo é a razão da fuga.
A pessoa que não lê porque não quer podia dar a quem quer ler mas não sabe a educação que tem mas não usa.
Finlândia: um país mítico para onde a maioria dos portugueses crê que vai depois de morrer.
Se a mente do depravado é uma lixeira, a do moralista é um aterro sanitário.
Não sinta vergonha de não achar graça às comédias de Shakespeare: eu mesmo só me rio por respeito.
Morte: pronome pessoal reflexo.
Para o zarolho, todo o amor é à primeira vista.
Vegetariano não tempera a comida, ele rega-a.
Eureka: um dia alguém fez mover o porta-multas e compreendeu que podia limpar o pára-brisas com ele.
Se vai escrever nas entrelinhas, imprima a dois espaços.
Antigamente, de todas as práticas médicas, aquela que mais impressão me fazia era a de tirarem vintes no liceu.
A meio de um noticiário ocorre-me que, se os actores gregos usavam máscaras distintas para a tragédia e para a comédia, era porque o público nem sempre conseguia distinguir uma da outra.
As maiores pérolas humorísticas são produzidas por pessoas com o sentido de humor de uma ostra.
Poeta: alguém que se aventura com a língua mais do que o pudor aconselha.
O microondas matou o banho-maria.
Um português só faz sentido na tropa.
Espertina de café: insónia sem honra.
Um homem conhece-se pelo seu ponto de embraiagem.
As aves raras poisam em lugares comuns.
Se a vida fosse como um livro, que melhor altura para morrer do que a época de Natal?
As folhas caídas transformam-se em romances que serão publicados na Primavera.
Aos 22 anos, a urgência dos sentidos; aos 44, um certo sentido de urgência.
O sinal de stop seria muito mais eficaz se significasse “direito absoluto de parar”.
A perda de prioridade não é um sinal de trânsito: é um sinal dos tempos.
Não julgue um livro pela capa: julgue a editora.
Opinião é um preconceito embrulhado para oferta.
Sempre que me sugerem uma ética das virtudes eu peço para ver a lista. Das virtudes.
Pressionar alguém para que deixe de fumar ou de beber é simplesmente sugerir-lhe que troque a sua forma de morrer por outra ainda menos eficaz.
O que não nos dizem é quase sempre verdadeiro.
“Engordará nem que seja à bomba”, disse a condessa à filha, e mandou preparar-lhe uma carbonária.~
O Mestre é o cómico. Os discípulos são apenas ridículos.
Anselmo só tomou verdadeiramente consciência de que ia para o mundo das trevas quando a Morte vestiu um colete reflector.
É muito importante que se conheça a origem da Tragédia para que se possa calcular os respectivos direitos de autor.
A mulher provocou a Queda, mas homem que é homem levanta-se.
A questão fundamental, quanto a mim, não está tanto em saber se o Neandertal podia falar; mas em saber se, podendo falar, diria alguma coisa de jeito.
Andar a filosofar é patético. Filosofar a andar é peripatético.
As imagens do cataclismo fortaleceram-lhe a determinação: fé, só mesmo numa religião em que até os bons se salvassem.
Não está certo misturar os “não sei” com os “não respondo”. Os primeiros são ignorantes. Os segundos sabem de mais.
Há cada vez mais substantivos sem emprego e adjectivos mal empregados.
Das quatro virtudes cardiais, a temperança é a que mais jeito dá na cozinha.
Para um português, a chuva é uma forma de seca.
Ler muito Hegel provoca geistrite.
Mito urbano: A província existe.
“O que o povo quer é sangue”, gritou brandindo a faca; e para que se apaziguassem as massas inventou-se logo ali a galinha de cabidela.
Era para se chamar Alegoria do Restaurante Indiano, mas nesse dia Platão decidiu jantar n’A Caverna.
O primeiro relógio inteiramente electrónico foi o americano Hamilton Pulsar.
O primeiro relógio inteiramente biológico foi o alemão Immanuel Kant.
Diz-se à boca pequena que o novo vizinho é dentista.
O saque de Constantinopla pelos cruzados foi uma coisa bizantina.
Oposto a um sinal de nonsense há sempre um outro de sentido obrigatório.
Pequenos luxos lisboetas: comer um rei sol na Versalhes.
Não faço questão de que levem o meu humor a sério. Já ficaria satisfeito se levassem as coisas sérias com humor.
No passado, o homem fazia o seu caminho baseado exclusivamente na fé. Depois veio a câmara e instalou semáforos na rua dele.
Se, como afirmam alguns estudos, as maiorias ignaras têm em geral opiniões mais correctas que as minorias bem informadas, então podemos perder a esperança de que não haja vida após a morte.
Existem apenas duas opções na vida de um homem: ir para padre ou não ir para padre. No caso das mulheres, a gama de opções é ainda mais restrita.
A ideia de que um bom solário resolve todos os problemas é uma gralha.
O humor deve ser praticado a uma distância considerável do alvo.
Toda a gente fala para si mesma. A presença de um terceiro é mera convenção social.
A maior parte dos namoros termina quando as raparigas percebem que os namorados são rapazes.
Humor é o processo pelo qual reconhecemos o insuportável absurdo da nossa existência e o transformamos num absurdo suportável.
Todo o homem tem um preço. Nem que seja esquecido nalguma peça de roupa.
O código de Hamurabi: 6339.
Se à terceira não obtiveres resposta, é provável que não estejas acompanhado.
Fundamentalista é aquele que respeita todos os direitos dos outros, à excepção dos fundamentais.
Se não tem arco, é neoclássico. Se tem, é violino.
Se não formos capazes de reconhecer os nossos erros, como poderemos culpar outra pessoa por eles?
Sabemos que um livro de memórias é mau quando acabamos de o ler e não nos lembramos de nada.
Falta menos de um mês para o fim do mundo. Depois faremos um balanço.
Filme de qualidade é aquele em que os actores insistem em não fazer o que nós queremos que eles façam.
A política é a arte conceptual por outros meios.
Não creio que vivamos numa “meritocracia”: a palavra nem sequer existe. E depois, há demasiados idiotas de sucesso.
A melhor forma de se ler um clássico é imaginar que o autor está sentado numa pequena cadeira na sala ao lado, aguardando, mortificado, o nosso julgamento; e que a qualquer momento podemos ir lá fazer-lhe uma pergunta ou dar-lhe um murro nas ventas.
Um livro é uma citação dentro de contexto.
Que lindo que é, o pinhal de Leiria com os seus eucaliptos.
Os homens têm segredos; as mulheres têm mistérios.
Imperativo, sim; categórico, talvez.
Pela emoção de se receber uma carta: todas as contas deviam ser manuscritas.
A família primeiro, pensou o futuro Cã, e matou o irmão.
Há um Sísifo em cada gilette.
Não há na Eternidade com que matar o tempo.
O sono é um adiantamento da morte. As insónias são os juros da vida. Tudo é usura metafísica.
O pior de um mau artista é o seu público.
Nenhuma grande utopia sobrevive sem restaurantes abertos depois das sete da tarde.
O conhecimento adquire-se; a sabedoria paga-se; a ignorância promove-se.
A existência de sequelas faz-me questionar a validade dos fins.
Não nos bastou perder o sentido da hospitalidade. Fomos mais longe: culpámos o hóspede por isso.
Já mais do que um fumador me perguntou (nervosamente) qual a maior diferença entre o antes e o depois. Não sou capaz de lhes mentir. A vida de fumador seria talvez mais curta, mas sempre tinha intervalos.
Sintaxe: difícil jogo de sociedade que consiste em construir frases inteligíveis utilizando apenas palavras.
Quem não percebe a diferença entre um rádio e um transístor não percebe nada de futebol.
Falo muito do que não sei, mas jamais com ligeireza.
Pôr o título à frente do nome é presunção; pô-lo atrás é um erro, a não ser que estejam separados por uma vírgula.
Não é de hoje que a francofonia tem vindo a perder terreno. Aristóteles, por exemplo, não falava uma palavra de francês.
Tudo o que ela dizia era no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Isso tornava a tarefa de a compreender muito difícil, porque terminava as frases antes de as começar.
“Enforquem o rei!”, gritava-se por todo o Nepal, mas não encontraram um lugar alto.
Na meia-idade uma pessoa abdica de tudo, menos do direito de falar a toda a hora da meia-idade.
Não concebo um apocalipse em que o arcanjo Miguel não se pareça com Steven Seagal.
Carga da Brigada Ligeira: cavalgada em direcção a uma morte certa em nome de uma causa duvidosa sob um comando incompetente. E para os cavaleiros também foi muito difícil.
Hoje entrei (inadvertidamente) num WC público de senhoras. É tudo o que imaginava.
Teve nota máxima a Matemática. Coisa genética. Já a mãe tivera cálculos nos rins.
30.3.09
Espere

Li algures que um filme de Manoel de Oliveira vai estar, pela primeira vez, presente na programação do Indie Lisboa. Já era tempo, até porque não é a primeira vez que um índio está presente num filme de Manoel de Oliveira, hahaha. [Céus, que piada tão rente-ao-pasto, mas que fazer? Não há tempo para mais, depressa, avancemos antes que o inexorável leitor – ou seria “inoxidável”? Não me lembro – perceba.] A interpretação do meu rebento na recente produção de A Menina do Mar foi, como eu previra, um sucesso retumbante: a assistência aplaudia desesperadamente frente às modernas portas, daquelas que se abrem quando se bate palmas, hahahahahaha. [Mais uma piada como esta e o sorumbático leitor vai espetar a faca de cortar papel no ecrã.] Sabia que Jonas se recusava a rasgar as vestes porque vestia Armani? o Senhor castigou-o fazendo com que o fato cheirasse a peixe. Ha-ha. [Ok. Assinei a minha sentença de extradição para a Islândia. Logo agora, com a crise financeira e isso. E eu que criara o blogue com o alto propósito de discutir Literatura Russa.]
Bom. Pela janela vejo prédios, árvores, carros, algumas lojas, pessoas. Chegou a altura de tentar perceber onde é que eu vivo e se existe um restaurante vegetariano por aqui: não quero correr o risco de um dia passar perto, ando tão sensível. Entretanto, vai um postezinho sobre Turgueniev? Dostoievski? Gogol? Espere, esse era ucraniano.
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Foto: o meu pequeno búzio, ao centro, agradece, como o pai lhe ensinou, os aplausos da multidão encurralada. Do lado esquerdo da foto, o deus do mar exibe a sua grande barbicha amarela, ou vomita o almoço, não percebi bem.
24.3.09
Castelo interior
Como Santa Teresa de Ávila disse à carmelita descalça, ponha-se nos meus sapatos, dípode leitor: vai um pai com seu rebento ao supermercado e dá de caras com um homem verde fingindo que é estátua. Achei uma indecência, enganar as crianças dessa maneira – existem técnicas bem mais avançadas, algumas das quais (a modéstia proibe que o diga) inventadas por mim (olhe, já disse e não trouxe corrector, processe-me). O júnior apercebeu-se do que eu ia fazer e ainda se quis interpor entre mim e a execranda criatura, mas tarde chegou. Com a determinação de um Sir Gawain aliviando o Cavaleiro Verde de uma dor de cabeça, ergui os braços na direcção da abóbada celeste e atirei o BU! mais assustador de que fui capaz com apenas um copo de leite e um café no estômago.
O salto que o embusteiro deu, leitor, havia de ter visto.
O pior é que eles eram afinal dois, e após breve conferência decidiram seguir-nos, semelhando autómatos, pelo corredor dos artigos de higiene pessoal. Aí, sim, aí confesso que senti alguma apreensão e apenas a custo resisti à indignidade da fuga através da secção de sapatos de senhora.
23.3.09
História muito tola e no entanto vera
Disputava o príncipe com o rei a única casa de banho do palácio:
“Precisamos de fazer a barba”, dizia o príncipe.
“E nós queremos tomar um banho de imersão”, retorquia o rei.
“Mas nós vamos passar a noute fora com uma cortesã gaiteira”, insistia o príncipe.
“Pois ide como estais, e tende o cuidado de tornar perfumado ao paço”, arreliava-se o rei.
Desta forma encostado aos azulejos, o príncipe permitiu que o rei entrasse na vetusta banheira; após o que lhe afogou a majestade sem grande dificuldade.
Ultrapassada alguma comoção inicial, o povo aclamou o matante como seu governante; e, em sinal de agradecimento à Divina Providência, o novo monarca não voltou a tomar banho de imersão em toda a sua longa vida – ainda hoje luzem no palácio o duche e polibã doirados que em lugar da real banheira ele mandou fossem instalados.
“Precisamos de fazer a barba”, dizia o príncipe.
“E nós queremos tomar um banho de imersão”, retorquia o rei.
“Mas nós vamos passar a noute fora com uma cortesã gaiteira”, insistia o príncipe.
“Pois ide como estais, e tende o cuidado de tornar perfumado ao paço”, arreliava-se o rei.
Desta forma encostado aos azulejos, o príncipe permitiu que o rei entrasse na vetusta banheira; após o que lhe afogou a majestade sem grande dificuldade.
Ultrapassada alguma comoção inicial, o povo aclamou o matante como seu governante; e, em sinal de agradecimento à Divina Providência, o novo monarca não voltou a tomar banho de imersão em toda a sua longa vida – ainda hoje luzem no palácio o duche e polibã doirados que em lugar da real banheira ele mandou fossem instalados.
22.3.09
Dezassete
Vai o meu rapaz actuar, já na quarta-feira próxima, numa exigente produção escolar de A Menina do Mar, de Sophia de Mello Breyner, cabendo-lhe defender nada menos que dois papéis da maior relevância para o desenrolar da trama: o de polvo e o de búzio. A este último cabem duas valorizadas deixas, ao passo que o apetitoso cefalópode brilha mais pelo lado do desempenho somático, naquilo que se quer uma diegese estética da Volúpia-de-Si.
O histriónico leitor decerto aprovará que eu tenha de imediato iniciado a criança na Poética de Aristóteles, assim como n’A Origem da Tragédia, de Nietzsche; os cujos lhe li, como Ambrósio a Agostinho, em voz alta; permanecendo o menino amarrado a uma cadeira, com um adesivo do rato Mickey na boca e a uma distância segura do televisor mais próximo.
Estarei na primeira fila, naturalmente. E quando, cercado por amigos, conhecidos ou simples admiradores que não desdenharei, me perguntarem se a estrondosa crítica saiu na página um do jornal, responderei como o grande António Silva, o dedo indicando as himalaicas alturas:
“Upa, upa! Dezassete!”
O histriónico leitor decerto aprovará que eu tenha de imediato iniciado a criança na Poética de Aristóteles, assim como n’A Origem da Tragédia, de Nietzsche; os cujos lhe li, como Ambrósio a Agostinho, em voz alta; permanecendo o menino amarrado a uma cadeira, com um adesivo do rato Mickey na boca e a uma distância segura do televisor mais próximo.
Estarei na primeira fila, naturalmente. E quando, cercado por amigos, conhecidos ou simples admiradores que não desdenharei, me perguntarem se a estrondosa crítica saiu na página um do jornal, responderei como o grande António Silva, o dedo indicando as himalaicas alturas:
“Upa, upa! Dezassete!”
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