14.10.09

Ginásio Blues (I)

Venho fazendo, olímpico leitor, “treino acompanhado”. Ao que percebo, aconselham isso aos clientes cujo grau de descoordenação espacial pode resultar em processo contra o ginásio. Se existe uma probabilidade elevada de o seu nariz tocar o tapete rolante onde décimas de segundo antes estavam os seus Nike novinhos em folha, tem “treino acompanhado” tatuado na testa.

O problema é que a gente sente-se tão… enfim… acompanhada. Fiz um monte de exercícios que só percebi que eram exercícios quando o treinador me pediu para tentar não adormecer tantas vezes. O pior momento foi talvez quando me passou para as mãos uns humilhantes “pesos”. Pareciam daqueles ossos de borracha para cães, mas mais leves e em tons rosa. Fez-me sentar de frente para um espelho (há espelhos para onde quer que se vire, fazem de propósito para que sinta vergonha) e explicou-me que devia executar movimentos ritmados para fora e para dentro com os braços, como se estivesse a abrir e fechar as portas duplas de um armário mas sem a parte útil de retirar alguma coisa lá de dentro.

Só por si aquilo dos ossos cor-de-rosa já era embaraçoso, mas não tanto quanto o que se seguiu. Ouvi aproximando-se rapidamente por trás de mim o que me pareceu ser a respiração aflitiva de um rinoceronte com asma, ou um expresso inter-cidades com uma roda empenada e um grupo de poetas no interior ensaiando para uma sessão de leitura ao vivo, eu não podia ter a certeza. Era afinal um sujeito grande, parrudo, aquilo a que na minha juventude se dava o nome de “quarto de leite Vigor”, e quase me desarticulou a omoplata direita com a deslocação de ar que provocou quando passou por mim (não sou um homem baixo, mas não se esqueça de que estava sentado). Sacou rapidamente de um par de halteres de ar pesadíssimo que estavam encaixados numa estrutura metálica e, urrando a cada gesto como um urso a quem acabam de informar que o bosque onde ele planta umas couves vai ser aplanado para que uma multinacional sueca construa no local um centro de bricolage e artigos para o lar, começou a erguer e baixar os pesos como se estes mais não fossem que simples esferovite pintada.

Comecei a suar solidariamente. Quando o Sansão por fim parou, olhei primeiro para os meus ossinhos cor-de-rosa; depois, para os colossais halteres do, eh, colega. Então aproveitei um momento em que o treinador estava a dar atenção a uma senhora que tinha dúvidas sobre a flacidez dos glúteos. Apontei os halteres e, pondo o ar mais casual de que fui capaz, perguntei:

Já não vai precisar desses?

23.9.09

Ruídos

Saudade de ruídos: do transístor, da Singer, da dobadoura,
da Underwood com a falha no ó.

24.8.09

Autárquicas

A celebrada baixa pombalina teria decerto merecido o elogio de Hipodamo de Mileto, o pioneiro projectista das cidades geométricas e do planeamento urbano; mas também a reprovação dos seus contemporâneos – uma cidade onde um estranho facilmente se orienta é uma cidade mais fácil de conquistar.

14.8.09

Dos valores

Em Lady Windermere’s Fan, Oscar Wilde fez Lorde Darlington declarar que um cínico é aquele que conhece o preço de tudo e o valor de coisa nenhuma. Pela pena de pato de Shakespeare – ou, parafraseando o próprio Wilde, de outro inglês com o mesmo nome –, Tróilo (só o nome já diz tudo, não acha?) garantia a Heitor que Helena devia toda a sua valia ao facto de ser a causa directa de uma guerra gloriosa, não o contrário. E o cicerone do paço de Vila Viçosa rematava entusiasmadas descrições de raríssimas peças de mobiliário com um abanar de cabeça, acompanhado por um comovido “não tem valor”.

3.8.09

À la Bierce ou Esopo Remendado

“Pode tirar-me tudo menos o Direito à Indignação”, indignava-se um Homem Indignado. “Não posso tirar-lho, mas posso taxá-lo”, respondeu o Governante Insensível. E quanto mais o Homem Indignado com isto se indignava, mais o Governante Insensível, com a ajuda de um Indignómetro, via o lado da receita subir.

16.7.09

Urgências

No sinal luminoso lia-se “URGÊNCIAS”, mas a recepcionista decidiu que o meu problema não merecia atenção clínica, muito menos àquelas horas perdidas, e sugeriu a tasquinha-aberta-24-horas ali ao virar da esquina ou qualquer coisa tipo oriental que metesse agulhas, pedras quentes e mentes vazias. Eu retorqui que, desde que se pague, num hospital privado tudo é do foro clínico – dores existenciais, roupa que repentinamente deixou de nos servir e angústias relacionadas com Literatura. Então ela entregou-me a uma ortopedista a quem faltavam apenas duas noites para a reforma (problemas de ossos, percebi pelos estalidos; mas isso agora não interessa, estamos a falar de mim, ok?).

Conversámos bastante sobre tudo e sobre nada. Ela explicou-me que “a ortopedia foi o maior avanço da humanidade desde que alguém percebeu que as arestas desgastadas de um berlinde o arredondavam e que dessa forma rolava bem melhor”. Nunca fui muito de jogos, mas achei isso interessante.

Saí do hospital sentindo-me outro. Um tal Nando que bebe J&B e trabalha num gabinete de contabilidade da baixa. O J&B tudo bem, a parte mais chata ainda é essa da contabilidade. Caramba, logo eu, que em contas sou um nabo elevado à décima quinta potência.

25.6.09

O Universo Elegante e outros contos

Desculpe qualquer conversa que me escape sobre mecânica quântica, cosmologia, supercordas, horizonte de acontecimentos, singularidade, entropia e coisas que se lhes semelhem. O desgosto com a crise deu-me para ler sobre o assunto, já vou no milésimo calhamaço – o que terminei agora, The Fabric of the Cosmos: Space, Time, and the Texture of Reality, tem praticamente 600 páginas neste universo (noutros pode ter ou não). E no entanto, só ultimamente comecei a ter noção de que, por exemplo, menos que dez dimensões espaciais é coisa para meninos e que se pode passar através de um túnel de verme sem se ter nojinho dele (e ainda ganhar tempo com isso).

Deixe que me orgulhe de dizer que eu mesmo já ilustrara, para os livros do Carlos Fiolhais e do professor Dias de Deus (ambos excelentes terráqueos e bons amigos, saudades de uma almoçarada, para a semana terei um pouco de tempo e muitas perguntas) os Grandes Mistérios da Física, tanto da astronomicamente grande (como a Relatividade Geral, Restrita e Não sabe / Não responde) como da ridiculamente pequena (conhecida nas cantinas das faculdades como “Física da Partícula de Napoleão”).
Mas não ligue, isto passa-me. Até Freud disse que às vezes um buraco negro é apenas um buraco negro. Ou se não o disse neste, disse-o num universo paralelo qualquer.

23.6.09

A Áustria não existe. Ok?

Eu nunca tinha assistido a uma peça de Schnitzler. Eu jamais lera uma frase escrita por Schnitzler. Eu não sabia como pronunciar correctamente “Schnitzler”. Sempre suspeitei de que esse Schnitzler nem sequer tinha existido, até porque me diziam que havia nascido austríaco e eu não acredito na existência da Áustria. Sei que isso cobre com o infame véu da dúvida ontológica as vidas e feitos de um monte de celebridades, mas, e então? Repare como Freud, outro “austríaco”, considerava Schnitzler (numa carta que, muito convenientemente, lhe “escreveu”), uma espécie de “versão literária” de si mesmo. Conspirações existem, e quanto mais descaradas, cândido leitor, quanto mais desavergonhadas, mais eficazes. Acredite.

O monólogo durou duas horas que, não fossem aquelas cadeiras (ok, o problema pode ser da minha espinha de fancaria, mas ser-se rezingão é um privilégio que vem com a idade), durariam um instante apenas, porque Rita Durão fez esquecer o tempo que passava. E felizmente o Universo é cíclico, ou ela não poderia ter repetido aquele papel todas as noites. Oh, bolas. Revelei o fim? Desculpe.
[Eu visitando a página da Cornucópia e batendo com a cabeça repetidamente numa porta]
Eu queria ter escrito sobre este assunto antes, queria que fosse ver a Rita Durão, mas apenas agora me apercebo, com pena, de que a peça já saiu de cena. Aqui me detenho. Que fiasco. Enfim, como Beckett, falhar outra vez, falhar melhor. A título de consolação, saiba que o texto, em tradução de José Maria Vieira Mendes, está editado em português pela Cotovia. Pode ler um resumo na página deles.

E por favor, vamos parar com essas invenções de “Áustria”, “Wittgenstein”, “Popper”, “Klimt”, “Mozart”, “Segunda Escola de Viena”, etc. Ok? Caramba, existe um limite para a puerilidade.

22.6.09

Entropia

A Segunda Lei da Termodinâmica diz-nos (e simplificarei para não intimidar o leitor que, ao contrário do que sucede comigo, não toma o cafezinho da manhã na cantina de Cornell) que a entropia de um sistema isolado – entendida aqui, por derivação de sentido, como o seu grau de desordem – tende a aumentar com o tempo até atingir um valor máximo, que será o de equilíbrio.

No caso do meu automóvel, esse momento mágico acontece quando surge no vidro traseiro a mensagem “lava-me, porco”.

18.6.09

Cultúr éireann

Imagine, plurilingue leitor, um micaelense imitando o sotaque algarvio num teatro de Oslo repleto de espectadores inuit. Terá então uma ideia do quanto Jimmy Joyced!, o monólogo apresentado pelo brilhante Donal O’Kelly no Jardim de Inverno do S. Luiz, era perfeitamente inteligível – pelo menos para a parte da assistência constituída pelo representante da embaixada da Irlanda.

A ideia era celebrarmos Bloomsday, mas Donal tinha uma pronúncia irlandesa tão densa que um pouquinho mais de massa e seria um buraco negro. Nem mesmo na Babel pós-intervenção divina eu ouvi semelhante algaravia, se exceptuar o doido do Simões do 7146º (e último) andar. Hoje, na era da Ciência, sabemos que aquele brlghbrl tinha algo a ver com a rarefacção de oxigénio.

Mas ok, deu para perceber que O’Kelly é um excelente actor, dotado de enorme expressividade e senhor de uma voz muito flexível. Isso tornou a minha incapacidade para perceber dois terços do que ele dizia ainda mais dolorosa, e sublimei a frustração pensando em como irlandeses não deviam usar franjinha em climas quentes porque ela fica toda suada e aos caracolinhos, como as do cabelo das meninas vitorianas antes da invenção do banho diário pelo Dr. Doosh.

Felizmente eu tivera o cuidado de ler, na meia hora anterior, as Obras Completas de James Joyce (incluindo, naturalmente, Orgulho e Preconceito, A Abadia de Northanger e Emma), para além do útil The Bluffer’s Guide to Icelandic Literature. Isso – e ouvir Björk cantando as suas bonitas baladas celtas – ajudou-me a entrar no espírito irlandês e a ir reconstruindo o que podia das conversas de Jimmy Joyce com o pai meio doido, o traumático episódio religioso com a mãe, o encontro com o modelo de Bloom, o passeio com Nora Barnacle, a medalha de bronze que ganhou no Eurofestival da Canção e que tanto o desiludiu, etc., etc..

De tempos a tempos ouvia-se uma gargalhada bem lá no fundo da sala, emitida pelo representante da embaixada irlandesa (ou por uma gravação de Brigitte Bardot assistindo à execução de um comerciante de casacos de pele, não tenho a certeza, mas acho pouco provável). As almas remanescentes guardaram todo o tempo um respeitoso silêncio, mesmo quando os gestos do histrião denotavam um grau de comicidade que parecia seguro premiar com pelo menos uma risadinha. Mas olhe, talvez tenha sido melhor assim, quero dizer, mais absurdo: no final toda a gente gostou muito, o representante da embaixada da Irlanda limpava as lágrimas dos óculos [eu tentando lembrar-me se ele tinha óculos] e na rua aglomerava-se um pequeno grupo de apoiantes de Mussavi perguntando, em inglês escrito com sotaque universal em papéis verde-brancos, “Where is my vote?”: como aconteceu com o monólogo de Dolan, ninguém entendeu os resultados daquelas eleições.

Imaginei O’Kelly gastando algumas horas no seu quarto de hotel a tentar perceber o que se passara no S. Luiz e achando, pelo menos enquanto durava o lote de Jameson do minibar, que os portugueses se riem, afinal, como os escandinavos – sem pestanejar nem mexer os lábios, os mais divertidos fazendo até que estão mortos ou disputando campeonatos de ver-quem-mexe-a-boca-primeiro, sabe como é, como mimos franceses mas completamente diferente.

Na noitinha do dia seguinte, outro monólogo, o da menina Else (pequena grande Rita Durão!), percebeu-se do princípio ao fim, mas eu recuso-me a falar disso enquanto a Cornucópia mantiver aquelas cadeiras – ou enquanto amanhã não chegar, o que acontecer primeiro.

Bandeira de Papel


Cravo e Ferradura, DN, 18.6.2009

9.6.09

Conhecer o porteiro

Mais logo verei – e ouvirei – Don Giovanni caindo nos infernos. E foram já tantas as vezes que o vi – e ouvi – cair nos infernos, que começo a convencer-me de que aquilo é um sítio de onde não é tão difícil assim sair e voltar a entrar.