Hoje de manhã, enquanto no televisor da salinha de espera peroravam qualquer coisa sobre como emagrecer pelo sexo e a forma correcta de medir o pénis (recordo-me de ter ouvido Goucha dizer algo como “não há fita métrica para o meu tamanho”, o que me deixou a pensar em como a vida afectiva dele deve ser um pânico), a assistente do meu ortodontista – há que chamar as coisas pelos nomes – debitou-me, em vez dos 68 que eram de lei, 680 euros no terminal Multibanco.
Detectei o excesso barroco assim que o papelinho assomou à boca da maquineta, como se aquele zero do “680” viesse impresso a vermelho fluorescente. Então balbuciei, com uma bola de ténis entalada na garganta mas rindo muito, “hahaha, isto hoje foi uma inspecçãozita de rotina a puxar para o carote, não há fita métrica que chegue para esta conta”.
A assistente olhou para o pedacinho de papel térmico que eu, lutando contra uma apoplexia que entretanto me assaltara, lhe passara para a mão. Inspeccionou-o por um momento, levou a mão ao queixo pensante e disse tranquilamente:
“Bolas, por 680 euros tínhamos-lhe posto uma coroa”.
Assim andam, leitor, as monarquias.
28.4.09
21.4.09
Hello
Estou de volta, obrigado por não desistir de mim e tal, sei que a vida por aqui não tem sido fácil.
Daqui a pouco almoçarei com a minha filha e levar-lhe-ei a sua primeira reflex Nikon, após o que ela publicará num blogue dúzias de fotos de mim tentando esconder-me debaixo da costeleta de novilho que estou proibido de comer. O meu rapaz também está fino, obrigado por se interessar. Há dias, ao telefone, ele tinha-me dito:
“Este fim-de-semana não vou ficar agarrado ao computador.”
“Não vais mesmo?”
“Não. Vou ficar agarrado à televisão.”
Mais logo eu volto, quem sabe com uma resenha ilustrada das aventuras do meu ectoplasma na pérfida Albion, um conto erótico ao gosto barroco ou uma descrição pormenorizada dos processos de construção naval ao tempo da Restauração Inglesa, ainda não consegui decidir-me mas um desses quatro há-de ser.
Daqui a pouco almoçarei com a minha filha e levar-lhe-ei a sua primeira reflex Nikon, após o que ela publicará num blogue dúzias de fotos de mim tentando esconder-me debaixo da costeleta de novilho que estou proibido de comer. O meu rapaz também está fino, obrigado por se interessar. Há dias, ao telefone, ele tinha-me dito:
“Este fim-de-semana não vou ficar agarrado ao computador.”
“Não vais mesmo?”
“Não. Vou ficar agarrado à televisão.”
Mais logo eu volto, quem sabe com uma resenha ilustrada das aventuras do meu ectoplasma na pérfida Albion, um conto erótico ao gosto barroco ou uma descrição pormenorizada dos processos de construção naval ao tempo da Restauração Inglesa, ainda não consegui decidir-me mas um desses quatro há-de ser.
13.4.09
Eterno retorno
Sei que o compassivo leitor perdoará a ausência. Será breve. Entretanto, e para que as folhas do BV não vão saindo em branco, aqui vai uma selecção de mínimas que eu fui publicando, entre 2005 e 2008, no BV. Se já leu, perdoe. Se não tinha lido ainda, perdoe também.
-----
A pessoa verdadeiramente importante não acredita na vida depois da sua morte.
Um homem sabe que está acabado quando até as mulheres que não o conhecem o abandonam.
Essa de se achar que o incréu vive nas trevas é uma ideia ofensiva. Tivera eu luz que chegasse e protestaria por escrito.
Por muitos gritos de Munch que pintem, haverá sempre alguém com cara de jardim das delícias.
Desaparecem as aldeias, mas os idiotas ficam.
O amor não correspondido é ridículo; o amor correspondido é a mais sublime forma de ridículo.
Existem um princípio e um fim, ligados por uma eternidade.
De todas as pessoas a quem te poderiam ordenar que amasses como a ti mesmo, tinham que escolher o teu vizinho.
Montes de problemas são separados por vales de lágrimas.
Se a Terra não fosse redonda, veríamos o infinito.
Tenho uma vontade de ferro – a preguiça é que ma enferruja.
Em terra de eunucos, quem tem sexo é o pai.
O crítico medíocre é um escritor falhado porque não é capaz de escrever; o bom crítico não consegue escrever porque é incapaz de parar de ler.
Muitas vezes é numa noite de insónia que a gente abre os olhos.
Deus tem a solução, apenas não se lembra onde a pôs.
“Quem não aparece, esquece”, disse o fantasma a Hamlet.
Para o homem deitado, toda a porta é um alçapão.
Alguns sucessos são apenas fracassos vivendo acima das suas possibilidades.
Dois séculos antes de os pitagóricos se terem saído com os números primos, já os lídios tinham as moedas cunhadas.
Jamais se arrependa do que escreve: outros se arrependerão por si.
Viver para sempre facilita o crédito bancário.
Algumas pessoas são como saleiros: só damos por elas quando as levam para outra mesa.
“Malcriado” é como as pessoas que tiveram uma educação se referem a alguém que, com um pouco mais de sorte, podia ter sido criado.
O problema com os castelos no ar é aquela arquitectura tem-te não caias.
Nem mesmo Onan agiu sozinho.
Como o tabaco, a vida é um hábito que não dá para ir reduzindo.
O humorista é um náufrago voluntário. E o seu primeiro dever, em vendo-se arrastado para as costas do sentido, é morrer na praia.
Ninguém é maior do que a sua obra, mas pode chegar perto fazendo uma alimentação equilibrada.
Eles pareciam desfeitos um para o outro.
O Mundo é um grande livro em que tudo está já escrito, mas com uma péssima caligrafia.
Gémeos: o desejo de igualdade levado ao extremo.
Certeza: uma dúvida sem saída.
Seita: uma religião sem caras conhecidas.
A única forma criativa de citar é citar errando.
“Dêem-me um ponto de apoio e moverei a Terra”, disse Arquimedes, sem consciência de que isso colocaria em risco todo o ecossistema.
É escriturando uma carta comercial (e não escrevendo poesia) que se pode de facto sentir aquilo que Pessoa sentia.
Devemos conhecer-nos a nós mesmos se não queremos que outra pessoa receba a nossa correspondência.
Corajoso: aquele que foge na direcção do inimigo.
Dou comigo a ver cada vez menos televisão e isso assusta-me. Não quero perder o contacto com a realidade.
Deus sabe tudo o que aconteceu no passado, tudo o que está a acontecer no presente e tudo o que vai acontecer no futuro, o que pode ajudar a explicar um certo desinteresse.
O medo é uma reacção nervosa; a coragem é o domínio do medo; a razão é o controlo da coragem; a fuga é o comando da razão; o medo é a razão da fuga.
A pessoa que não lê porque não quer podia dar a quem quer ler mas não sabe a educação que tem mas não usa.
Finlândia: um país mítico para onde a maioria dos portugueses crê que vai depois de morrer.
Se a mente do depravado é uma lixeira, a do moralista é um aterro sanitário.
Não sinta vergonha de não achar graça às comédias de Shakespeare: eu mesmo só me rio por respeito.
Morte: pronome pessoal reflexo.
Para o zarolho, todo o amor é à primeira vista.
Vegetariano não tempera a comida, ele rega-a.
Eureka: um dia alguém fez mover o porta-multas e compreendeu que podia limpar o pára-brisas com ele.
Se vai escrever nas entrelinhas, imprima a dois espaços.
Antigamente, de todas as práticas médicas, aquela que mais impressão me fazia era a de tirarem vintes no liceu.
A meio de um noticiário ocorre-me que, se os actores gregos usavam máscaras distintas para a tragédia e para a comédia, era porque o público nem sempre conseguia distinguir uma da outra.
As maiores pérolas humorísticas são produzidas por pessoas com o sentido de humor de uma ostra.
Poeta: alguém que se aventura com a língua mais do que o pudor aconselha.
O microondas matou o banho-maria.
Um português só faz sentido na tropa.
Espertina de café: insónia sem honra.
Um homem conhece-se pelo seu ponto de embraiagem.
As aves raras poisam em lugares comuns.
Se a vida fosse como um livro, que melhor altura para morrer do que a época de Natal?
As folhas caídas transformam-se em romances que serão publicados na Primavera.
Aos 22 anos, a urgência dos sentidos; aos 44, um certo sentido de urgência.
O sinal de stop seria muito mais eficaz se significasse “direito absoluto de parar”.
A perda de prioridade não é um sinal de trânsito: é um sinal dos tempos.
Não julgue um livro pela capa: julgue a editora.
Opinião é um preconceito embrulhado para oferta.
Sempre que me sugerem uma ética das virtudes eu peço para ver a lista. Das virtudes.
Pressionar alguém para que deixe de fumar ou de beber é simplesmente sugerir-lhe que troque a sua forma de morrer por outra ainda menos eficaz.
O que não nos dizem é quase sempre verdadeiro.
“Engordará nem que seja à bomba”, disse a condessa à filha, e mandou preparar-lhe uma carbonária.~
O Mestre é o cómico. Os discípulos são apenas ridículos.
Anselmo só tomou verdadeiramente consciência de que ia para o mundo das trevas quando a Morte vestiu um colete reflector.
É muito importante que se conheça a origem da Tragédia para que se possa calcular os respectivos direitos de autor.
A mulher provocou a Queda, mas homem que é homem levanta-se.
A questão fundamental, quanto a mim, não está tanto em saber se o Neandertal podia falar; mas em saber se, podendo falar, diria alguma coisa de jeito.
Andar a filosofar é patético. Filosofar a andar é peripatético.
As imagens do cataclismo fortaleceram-lhe a determinação: fé, só mesmo numa religião em que até os bons se salvassem.
Não está certo misturar os “não sei” com os “não respondo”. Os primeiros são ignorantes. Os segundos sabem de mais.
Há cada vez mais substantivos sem emprego e adjectivos mal empregados.
Das quatro virtudes cardiais, a temperança é a que mais jeito dá na cozinha.
Para um português, a chuva é uma forma de seca.
Ler muito Hegel provoca geistrite.
Mito urbano: A província existe.
“O que o povo quer é sangue”, gritou brandindo a faca; e para que se apaziguassem as massas inventou-se logo ali a galinha de cabidela.
Era para se chamar Alegoria do Restaurante Indiano, mas nesse dia Platão decidiu jantar n’A Caverna.
O primeiro relógio inteiramente electrónico foi o americano Hamilton Pulsar.
O primeiro relógio inteiramente biológico foi o alemão Immanuel Kant.
Diz-se à boca pequena que o novo vizinho é dentista.
O saque de Constantinopla pelos cruzados foi uma coisa bizantina.
Oposto a um sinal de nonsense há sempre um outro de sentido obrigatório.
Pequenos luxos lisboetas: comer um rei sol na Versalhes.
Não faço questão de que levem o meu humor a sério. Já ficaria satisfeito se levassem as coisas sérias com humor.
No passado, o homem fazia o seu caminho baseado exclusivamente na fé. Depois veio a câmara e instalou semáforos na rua dele.
Se, como afirmam alguns estudos, as maiorias ignaras têm em geral opiniões mais correctas que as minorias bem informadas, então podemos perder a esperança de que não haja vida após a morte.
Existem apenas duas opções na vida de um homem: ir para padre ou não ir para padre. No caso das mulheres, a gama de opções é ainda mais restrita.
A ideia de que um bom solário resolve todos os problemas é uma gralha.
O humor deve ser praticado a uma distância considerável do alvo.
Toda a gente fala para si mesma. A presença de um terceiro é mera convenção social.
A maior parte dos namoros termina quando as raparigas percebem que os namorados são rapazes.
Humor é o processo pelo qual reconhecemos o insuportável absurdo da nossa existência e o transformamos num absurdo suportável.
Todo o homem tem um preço. Nem que seja esquecido nalguma peça de roupa.
O código de Hamurabi: 6339.
Se à terceira não obtiveres resposta, é provável que não estejas acompanhado.
Fundamentalista é aquele que respeita todos os direitos dos outros, à excepção dos fundamentais.
Se não tem arco, é neoclássico. Se tem, é violino.
Se não formos capazes de reconhecer os nossos erros, como poderemos culpar outra pessoa por eles?
Sabemos que um livro de memórias é mau quando acabamos de o ler e não nos lembramos de nada.
Falta menos de um mês para o fim do mundo. Depois faremos um balanço.
Filme de qualidade é aquele em que os actores insistem em não fazer o que nós queremos que eles façam.
A política é a arte conceptual por outros meios.
Não creio que vivamos numa “meritocracia”: a palavra nem sequer existe. E depois, há demasiados idiotas de sucesso.
A melhor forma de se ler um clássico é imaginar que o autor está sentado numa pequena cadeira na sala ao lado, aguardando, mortificado, o nosso julgamento; e que a qualquer momento podemos ir lá fazer-lhe uma pergunta ou dar-lhe um murro nas ventas.
Um livro é uma citação dentro de contexto.
Que lindo que é, o pinhal de Leiria com os seus eucaliptos.
Os homens têm segredos; as mulheres têm mistérios.
Imperativo, sim; categórico, talvez.
Pela emoção de se receber uma carta: todas as contas deviam ser manuscritas.
A família primeiro, pensou o futuro Cã, e matou o irmão.
Há um Sísifo em cada gilette.
Não há na Eternidade com que matar o tempo.
O sono é um adiantamento da morte. As insónias são os juros da vida. Tudo é usura metafísica.
O pior de um mau artista é o seu público.
Nenhuma grande utopia sobrevive sem restaurantes abertos depois das sete da tarde.
O conhecimento adquire-se; a sabedoria paga-se; a ignorância promove-se.
A existência de sequelas faz-me questionar a validade dos fins.
Não nos bastou perder o sentido da hospitalidade. Fomos mais longe: culpámos o hóspede por isso.
Já mais do que um fumador me perguntou (nervosamente) qual a maior diferença entre o antes e o depois. Não sou capaz de lhes mentir. A vida de fumador seria talvez mais curta, mas sempre tinha intervalos.
Sintaxe: difícil jogo de sociedade que consiste em construir frases inteligíveis utilizando apenas palavras.
Quem não percebe a diferença entre um rádio e um transístor não percebe nada de futebol.
Falo muito do que não sei, mas jamais com ligeireza.
Pôr o título à frente do nome é presunção; pô-lo atrás é um erro, a não ser que estejam separados por uma vírgula.
Não é de hoje que a francofonia tem vindo a perder terreno. Aristóteles, por exemplo, não falava uma palavra de francês.
Tudo o que ela dizia era no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Isso tornava a tarefa de a compreender muito difícil, porque terminava as frases antes de as começar.
“Enforquem o rei!”, gritava-se por todo o Nepal, mas não encontraram um lugar alto.
Na meia-idade uma pessoa abdica de tudo, menos do direito de falar a toda a hora da meia-idade.
Não concebo um apocalipse em que o arcanjo Miguel não se pareça com Steven Seagal.
Carga da Brigada Ligeira: cavalgada em direcção a uma morte certa em nome de uma causa duvidosa sob um comando incompetente. E para os cavaleiros também foi muito difícil.
Hoje entrei (inadvertidamente) num WC público de senhoras. É tudo o que imaginava.
Teve nota máxima a Matemática. Coisa genética. Já a mãe tivera cálculos nos rins.
-----
A pessoa verdadeiramente importante não acredita na vida depois da sua morte.
Um homem sabe que está acabado quando até as mulheres que não o conhecem o abandonam.
Essa de se achar que o incréu vive nas trevas é uma ideia ofensiva. Tivera eu luz que chegasse e protestaria por escrito.
Por muitos gritos de Munch que pintem, haverá sempre alguém com cara de jardim das delícias.
Desaparecem as aldeias, mas os idiotas ficam.
O amor não correspondido é ridículo; o amor correspondido é a mais sublime forma de ridículo.
Existem um princípio e um fim, ligados por uma eternidade.
De todas as pessoas a quem te poderiam ordenar que amasses como a ti mesmo, tinham que escolher o teu vizinho.
Montes de problemas são separados por vales de lágrimas.
Se a Terra não fosse redonda, veríamos o infinito.
Tenho uma vontade de ferro – a preguiça é que ma enferruja.
Em terra de eunucos, quem tem sexo é o pai.
O crítico medíocre é um escritor falhado porque não é capaz de escrever; o bom crítico não consegue escrever porque é incapaz de parar de ler.
Muitas vezes é numa noite de insónia que a gente abre os olhos.
Deus tem a solução, apenas não se lembra onde a pôs.
“Quem não aparece, esquece”, disse o fantasma a Hamlet.
Para o homem deitado, toda a porta é um alçapão.
Alguns sucessos são apenas fracassos vivendo acima das suas possibilidades.
Dois séculos antes de os pitagóricos se terem saído com os números primos, já os lídios tinham as moedas cunhadas.
Jamais se arrependa do que escreve: outros se arrependerão por si.
Viver para sempre facilita o crédito bancário.
Algumas pessoas são como saleiros: só damos por elas quando as levam para outra mesa.
“Malcriado” é como as pessoas que tiveram uma educação se referem a alguém que, com um pouco mais de sorte, podia ter sido criado.
O problema com os castelos no ar é aquela arquitectura tem-te não caias.
Nem mesmo Onan agiu sozinho.
Como o tabaco, a vida é um hábito que não dá para ir reduzindo.
O humorista é um náufrago voluntário. E o seu primeiro dever, em vendo-se arrastado para as costas do sentido, é morrer na praia.
Ninguém é maior do que a sua obra, mas pode chegar perto fazendo uma alimentação equilibrada.
Eles pareciam desfeitos um para o outro.
O Mundo é um grande livro em que tudo está já escrito, mas com uma péssima caligrafia.
Gémeos: o desejo de igualdade levado ao extremo.
Certeza: uma dúvida sem saída.
Seita: uma religião sem caras conhecidas.
A única forma criativa de citar é citar errando.
“Dêem-me um ponto de apoio e moverei a Terra”, disse Arquimedes, sem consciência de que isso colocaria em risco todo o ecossistema.
É escriturando uma carta comercial (e não escrevendo poesia) que se pode de facto sentir aquilo que Pessoa sentia.
Devemos conhecer-nos a nós mesmos se não queremos que outra pessoa receba a nossa correspondência.
Corajoso: aquele que foge na direcção do inimigo.
Dou comigo a ver cada vez menos televisão e isso assusta-me. Não quero perder o contacto com a realidade.
Deus sabe tudo o que aconteceu no passado, tudo o que está a acontecer no presente e tudo o que vai acontecer no futuro, o que pode ajudar a explicar um certo desinteresse.
O medo é uma reacção nervosa; a coragem é o domínio do medo; a razão é o controlo da coragem; a fuga é o comando da razão; o medo é a razão da fuga.
A pessoa que não lê porque não quer podia dar a quem quer ler mas não sabe a educação que tem mas não usa.
Finlândia: um país mítico para onde a maioria dos portugueses crê que vai depois de morrer.
Se a mente do depravado é uma lixeira, a do moralista é um aterro sanitário.
Não sinta vergonha de não achar graça às comédias de Shakespeare: eu mesmo só me rio por respeito.
Morte: pronome pessoal reflexo.
Para o zarolho, todo o amor é à primeira vista.
Vegetariano não tempera a comida, ele rega-a.
Eureka: um dia alguém fez mover o porta-multas e compreendeu que podia limpar o pára-brisas com ele.
Se vai escrever nas entrelinhas, imprima a dois espaços.
Antigamente, de todas as práticas médicas, aquela que mais impressão me fazia era a de tirarem vintes no liceu.
A meio de um noticiário ocorre-me que, se os actores gregos usavam máscaras distintas para a tragédia e para a comédia, era porque o público nem sempre conseguia distinguir uma da outra.
As maiores pérolas humorísticas são produzidas por pessoas com o sentido de humor de uma ostra.
Poeta: alguém que se aventura com a língua mais do que o pudor aconselha.
O microondas matou o banho-maria.
Um português só faz sentido na tropa.
Espertina de café: insónia sem honra.
Um homem conhece-se pelo seu ponto de embraiagem.
As aves raras poisam em lugares comuns.
Se a vida fosse como um livro, que melhor altura para morrer do que a época de Natal?
As folhas caídas transformam-se em romances que serão publicados na Primavera.
Aos 22 anos, a urgência dos sentidos; aos 44, um certo sentido de urgência.
O sinal de stop seria muito mais eficaz se significasse “direito absoluto de parar”.
A perda de prioridade não é um sinal de trânsito: é um sinal dos tempos.
Não julgue um livro pela capa: julgue a editora.
Opinião é um preconceito embrulhado para oferta.
Sempre que me sugerem uma ética das virtudes eu peço para ver a lista. Das virtudes.
Pressionar alguém para que deixe de fumar ou de beber é simplesmente sugerir-lhe que troque a sua forma de morrer por outra ainda menos eficaz.
O que não nos dizem é quase sempre verdadeiro.
“Engordará nem que seja à bomba”, disse a condessa à filha, e mandou preparar-lhe uma carbonária.~
O Mestre é o cómico. Os discípulos são apenas ridículos.
Anselmo só tomou verdadeiramente consciência de que ia para o mundo das trevas quando a Morte vestiu um colete reflector.
É muito importante que se conheça a origem da Tragédia para que se possa calcular os respectivos direitos de autor.
A mulher provocou a Queda, mas homem que é homem levanta-se.
A questão fundamental, quanto a mim, não está tanto em saber se o Neandertal podia falar; mas em saber se, podendo falar, diria alguma coisa de jeito.
Andar a filosofar é patético. Filosofar a andar é peripatético.
As imagens do cataclismo fortaleceram-lhe a determinação: fé, só mesmo numa religião em que até os bons se salvassem.
Não está certo misturar os “não sei” com os “não respondo”. Os primeiros são ignorantes. Os segundos sabem de mais.
Há cada vez mais substantivos sem emprego e adjectivos mal empregados.
Das quatro virtudes cardiais, a temperança é a que mais jeito dá na cozinha.
Para um português, a chuva é uma forma de seca.
Ler muito Hegel provoca geistrite.
Mito urbano: A província existe.
“O que o povo quer é sangue”, gritou brandindo a faca; e para que se apaziguassem as massas inventou-se logo ali a galinha de cabidela.
Era para se chamar Alegoria do Restaurante Indiano, mas nesse dia Platão decidiu jantar n’A Caverna.
O primeiro relógio inteiramente electrónico foi o americano Hamilton Pulsar.
O primeiro relógio inteiramente biológico foi o alemão Immanuel Kant.
Diz-se à boca pequena que o novo vizinho é dentista.
O saque de Constantinopla pelos cruzados foi uma coisa bizantina.
Oposto a um sinal de nonsense há sempre um outro de sentido obrigatório.
Pequenos luxos lisboetas: comer um rei sol na Versalhes.
Não faço questão de que levem o meu humor a sério. Já ficaria satisfeito se levassem as coisas sérias com humor.
No passado, o homem fazia o seu caminho baseado exclusivamente na fé. Depois veio a câmara e instalou semáforos na rua dele.
Se, como afirmam alguns estudos, as maiorias ignaras têm em geral opiniões mais correctas que as minorias bem informadas, então podemos perder a esperança de que não haja vida após a morte.
Existem apenas duas opções na vida de um homem: ir para padre ou não ir para padre. No caso das mulheres, a gama de opções é ainda mais restrita.
A ideia de que um bom solário resolve todos os problemas é uma gralha.
O humor deve ser praticado a uma distância considerável do alvo.
Toda a gente fala para si mesma. A presença de um terceiro é mera convenção social.
A maior parte dos namoros termina quando as raparigas percebem que os namorados são rapazes.
Humor é o processo pelo qual reconhecemos o insuportável absurdo da nossa existência e o transformamos num absurdo suportável.
Todo o homem tem um preço. Nem que seja esquecido nalguma peça de roupa.
O código de Hamurabi: 6339.
Se à terceira não obtiveres resposta, é provável que não estejas acompanhado.
Fundamentalista é aquele que respeita todos os direitos dos outros, à excepção dos fundamentais.
Se não tem arco, é neoclássico. Se tem, é violino.
Se não formos capazes de reconhecer os nossos erros, como poderemos culpar outra pessoa por eles?
Sabemos que um livro de memórias é mau quando acabamos de o ler e não nos lembramos de nada.
Falta menos de um mês para o fim do mundo. Depois faremos um balanço.
Filme de qualidade é aquele em que os actores insistem em não fazer o que nós queremos que eles façam.
A política é a arte conceptual por outros meios.
Não creio que vivamos numa “meritocracia”: a palavra nem sequer existe. E depois, há demasiados idiotas de sucesso.
A melhor forma de se ler um clássico é imaginar que o autor está sentado numa pequena cadeira na sala ao lado, aguardando, mortificado, o nosso julgamento; e que a qualquer momento podemos ir lá fazer-lhe uma pergunta ou dar-lhe um murro nas ventas.
Um livro é uma citação dentro de contexto.
Que lindo que é, o pinhal de Leiria com os seus eucaliptos.
Os homens têm segredos; as mulheres têm mistérios.
Imperativo, sim; categórico, talvez.
Pela emoção de se receber uma carta: todas as contas deviam ser manuscritas.
A família primeiro, pensou o futuro Cã, e matou o irmão.
Há um Sísifo em cada gilette.
Não há na Eternidade com que matar o tempo.
O sono é um adiantamento da morte. As insónias são os juros da vida. Tudo é usura metafísica.
O pior de um mau artista é o seu público.
Nenhuma grande utopia sobrevive sem restaurantes abertos depois das sete da tarde.
O conhecimento adquire-se; a sabedoria paga-se; a ignorância promove-se.
A existência de sequelas faz-me questionar a validade dos fins.
Não nos bastou perder o sentido da hospitalidade. Fomos mais longe: culpámos o hóspede por isso.
Já mais do que um fumador me perguntou (nervosamente) qual a maior diferença entre o antes e o depois. Não sou capaz de lhes mentir. A vida de fumador seria talvez mais curta, mas sempre tinha intervalos.
Sintaxe: difícil jogo de sociedade que consiste em construir frases inteligíveis utilizando apenas palavras.
Quem não percebe a diferença entre um rádio e um transístor não percebe nada de futebol.
Falo muito do que não sei, mas jamais com ligeireza.
Pôr o título à frente do nome é presunção; pô-lo atrás é um erro, a não ser que estejam separados por uma vírgula.
Não é de hoje que a francofonia tem vindo a perder terreno. Aristóteles, por exemplo, não falava uma palavra de francês.
Tudo o que ela dizia era no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Isso tornava a tarefa de a compreender muito difícil, porque terminava as frases antes de as começar.
“Enforquem o rei!”, gritava-se por todo o Nepal, mas não encontraram um lugar alto.
Na meia-idade uma pessoa abdica de tudo, menos do direito de falar a toda a hora da meia-idade.
Não concebo um apocalipse em que o arcanjo Miguel não se pareça com Steven Seagal.
Carga da Brigada Ligeira: cavalgada em direcção a uma morte certa em nome de uma causa duvidosa sob um comando incompetente. E para os cavaleiros também foi muito difícil.
Hoje entrei (inadvertidamente) num WC público de senhoras. É tudo o que imaginava.
Teve nota máxima a Matemática. Coisa genética. Já a mãe tivera cálculos nos rins.
30.3.09
Espere

Li algures que um filme de Manoel de Oliveira vai estar, pela primeira vez, presente na programação do Indie Lisboa. Já era tempo, até porque não é a primeira vez que um índio está presente num filme de Manoel de Oliveira, hahaha. [Céus, que piada tão rente-ao-pasto, mas que fazer? Não há tempo para mais, depressa, avancemos antes que o inexorável leitor – ou seria “inoxidável”? Não me lembro – perceba.] A interpretação do meu rebento na recente produção de A Menina do Mar foi, como eu previra, um sucesso retumbante: a assistência aplaudia desesperadamente frente às modernas portas, daquelas que se abrem quando se bate palmas, hahahahahaha. [Mais uma piada como esta e o sorumbático leitor vai espetar a faca de cortar papel no ecrã.] Sabia que Jonas se recusava a rasgar as vestes porque vestia Armani? o Senhor castigou-o fazendo com que o fato cheirasse a peixe. Ha-ha. [Ok. Assinei a minha sentença de extradição para a Islândia. Logo agora, com a crise financeira e isso. E eu que criara o blogue com o alto propósito de discutir Literatura Russa.]
Bom. Pela janela vejo prédios, árvores, carros, algumas lojas, pessoas. Chegou a altura de tentar perceber onde é que eu vivo e se existe um restaurante vegetariano por aqui: não quero correr o risco de um dia passar perto, ando tão sensível. Entretanto, vai um postezinho sobre Turgueniev? Dostoievski? Gogol? Espere, esse era ucraniano.
-----
Foto: o meu pequeno búzio, ao centro, agradece, como o pai lhe ensinou, os aplausos da multidão encurralada. Do lado esquerdo da foto, o deus do mar exibe a sua grande barbicha amarela, ou vomita o almoço, não percebi bem.
24.3.09
Castelo interior
Como Santa Teresa de Ávila disse à carmelita descalça, ponha-se nos meus sapatos, dípode leitor: vai um pai com seu rebento ao supermercado e dá de caras com um homem verde fingindo que é estátua. Achei uma indecência, enganar as crianças dessa maneira – existem técnicas bem mais avançadas, algumas das quais (a modéstia proibe que o diga) inventadas por mim (olhe, já disse e não trouxe corrector, processe-me). O júnior apercebeu-se do que eu ia fazer e ainda se quis interpor entre mim e a execranda criatura, mas tarde chegou. Com a determinação de um Sir Gawain aliviando o Cavaleiro Verde de uma dor de cabeça, ergui os braços na direcção da abóbada celeste e atirei o BU! mais assustador de que fui capaz com apenas um copo de leite e um café no estômago.
O salto que o embusteiro deu, leitor, havia de ter visto.
O pior é que eles eram afinal dois, e após breve conferência decidiram seguir-nos, semelhando autómatos, pelo corredor dos artigos de higiene pessoal. Aí, sim, aí confesso que senti alguma apreensão e apenas a custo resisti à indignidade da fuga através da secção de sapatos de senhora.
23.3.09
História muito tola e no entanto vera
Disputava o príncipe com o rei a única casa de banho do palácio:
“Precisamos de fazer a barba”, dizia o príncipe.
“E nós queremos tomar um banho de imersão”, retorquia o rei.
“Mas nós vamos passar a noute fora com uma cortesã gaiteira”, insistia o príncipe.
“Pois ide como estais, e tende o cuidado de tornar perfumado ao paço”, arreliava-se o rei.
Desta forma encostado aos azulejos, o príncipe permitiu que o rei entrasse na vetusta banheira; após o que lhe afogou a majestade sem grande dificuldade.
Ultrapassada alguma comoção inicial, o povo aclamou o matante como seu governante; e, em sinal de agradecimento à Divina Providência, o novo monarca não voltou a tomar banho de imersão em toda a sua longa vida – ainda hoje luzem no palácio o duche e polibã doirados que em lugar da real banheira ele mandou fossem instalados.
“Precisamos de fazer a barba”, dizia o príncipe.
“E nós queremos tomar um banho de imersão”, retorquia o rei.
“Mas nós vamos passar a noute fora com uma cortesã gaiteira”, insistia o príncipe.
“Pois ide como estais, e tende o cuidado de tornar perfumado ao paço”, arreliava-se o rei.
Desta forma encostado aos azulejos, o príncipe permitiu que o rei entrasse na vetusta banheira; após o que lhe afogou a majestade sem grande dificuldade.
Ultrapassada alguma comoção inicial, o povo aclamou o matante como seu governante; e, em sinal de agradecimento à Divina Providência, o novo monarca não voltou a tomar banho de imersão em toda a sua longa vida – ainda hoje luzem no palácio o duche e polibã doirados que em lugar da real banheira ele mandou fossem instalados.
22.3.09
Dezassete
Vai o meu rapaz actuar, já na quarta-feira próxima, numa exigente produção escolar de A Menina do Mar, de Sophia de Mello Breyner, cabendo-lhe defender nada menos que dois papéis da maior relevância para o desenrolar da trama: o de polvo e o de búzio. A este último cabem duas valorizadas deixas, ao passo que o apetitoso cefalópode brilha mais pelo lado do desempenho somático, naquilo que se quer uma diegese estética da Volúpia-de-Si.
O histriónico leitor decerto aprovará que eu tenha de imediato iniciado a criança na Poética de Aristóteles, assim como n’A Origem da Tragédia, de Nietzsche; os cujos lhe li, como Ambrósio a Agostinho, em voz alta; permanecendo o menino amarrado a uma cadeira, com um adesivo do rato Mickey na boca e a uma distância segura do televisor mais próximo.
Estarei na primeira fila, naturalmente. E quando, cercado por amigos, conhecidos ou simples admiradores que não desdenharei, me perguntarem se a estrondosa crítica saiu na página um do jornal, responderei como o grande António Silva, o dedo indicando as himalaicas alturas:
“Upa, upa! Dezassete!”
O histriónico leitor decerto aprovará que eu tenha de imediato iniciado a criança na Poética de Aristóteles, assim como n’A Origem da Tragédia, de Nietzsche; os cujos lhe li, como Ambrósio a Agostinho, em voz alta; permanecendo o menino amarrado a uma cadeira, com um adesivo do rato Mickey na boca e a uma distância segura do televisor mais próximo.
Estarei na primeira fila, naturalmente. E quando, cercado por amigos, conhecidos ou simples admiradores que não desdenharei, me perguntarem se a estrondosa crítica saiu na página um do jornal, responderei como o grande António Silva, o dedo indicando as himalaicas alturas:
“Upa, upa! Dezassete!”
26.2.09
Um fragmento
“E sucedeu que ao fim de quarenta dias Noé abriu a janelinha da arca que construíra: e enviou um corvo, que voou para lá e para cá até que as águas se sumissem da terra; mas nem a sua mulher, nem o seu filho Sem, nem o seu filho Cão, nem o seu filho Jafete, nem o corvo acharam que isso fizesse qualquer sentido; e falaram-lhe com palavras de repreensão. Então a face de Noé cobriu-se de uma tez avermelhada, embora ele bebesse com moderação, e eis que soltou uma pomba, para que visse se as águas haviam escorrido da face da terra; mas a pomba não encontrou onde poisar a planta do pé, e regressou até ele na arca; pois as águas estavam ainda na face de toda a terra. E eis que Noé estendeu a mão, e apanhou a pomba e a trouxe para dentro da arca, onde lhe mostrou o Guia das Árvores do Mediterrâneo e do Oriente Médio. E ali o estudaram sete dias; e mais uma vez Noé enviou a pomba a partir da arca. E a pomba regressou pela tardinha; e eis que no bico trazia um raminho de azinheira; então Noé obrigou a pomba a estudar o Guia das Árvores do Mediterrâneo e do Oriente Médio durante mais sete dias, e soltou-a; e eis que a pomba regressou pela tardinha; e, eia, no bico trazia um raminho de sobreiro. Noé esperou ainda sete dias enquanto a pomba estudava o Guia das Árvores do Mediterrâneo e do Oriente Médio; e enviou a pomba, que não regressou porque estava com medo de Noé e preferiu ir morar com uma tia que vivia numa oliveira a apenas alguns estádios daquele local. Noé tirou a cobertura da arca para ver se a pomba ali se escondera; e eia, eis que a face da terra estava enxuta; no segundo mês, aos vinte e sete dias do mês, a terra estava enxuta.”
24.2.09
A deeper understanding of flamingos
Quando a dor súbita no tornozelo esquerdo me força ao pé-coxinho, é natural que me perguntem o que se passa comigo, em particular se estiver a tentar atravessar uma grande avenida com tráfego intenso ou a meio da minha elogiada imitação de dançarino cossaco. Mas eu esquiço um sorriso corajoso, oh, a gota, já passa. Um figurão, não faz ideia o efeito que isso tem nas mulheres.
(Antes de saber que padecia disso, imaginava que gota era coisa que inglês de inícios do século XIX apanhava em caçadas ao tigre na Índia, imagine a ignorância. Afinal apanha-se em casas de banho públicas.)
Então sinto-me como o capitão Toby em The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman, vítima de um calhau perdido que o atingira na virilha durante o cerco de Namur. Mas só até um certo ponto, naturalmente, o meu caso e o dele não têm comparação.
22.2.09
Não creio
Ah, os 40 – essa idade em que deitamos para trás das costas os complexos em relação ao nosso corpo e passamos a sentir apenas vergonha dele. Está o flagelo nutricionista a surtir efeito? Não sei, pantagruélico leitor, nem me importa. Queria despachar tudo o que é balança para a face escura da Lua, mas não vai dar, a minha mãe nasceu em Outubro.
Enfim, decidi que nos próximos dias estarei actualizando a lista de blogues aí à direita. Isso vai talvez fazer-me perder um pouco de cintura. Eu queria ter usado um esquema intrincado, mas reflecti um pouco e concluí que dificilmente os hermeneutas se dariam ao trabalho de o tentar decifrar. Eles preferem andar por aí a conferir quem grafa The Wasteland por The Waste Land e rir muito disso enquanto sorvem as suas aguinhas com gás por palhinhas e vêem qual deles melhor imita o olhar penetrante da vista tapada de Joyce.
Na semana passada, um amigo comum mas simpático apresentou-me ao professor Campos, sabe, o inventor da paisagem. Combinámos dar um destes dias um passeio no seu jardim, se o leitor autorizar, claro, se não iremos antes para o jardim dele, para tirar umas fotos e me contar como foi lembrar-se de inventar algo tão extraordinário. Espero convite formal amanhã ou no dia seguinte, mas não tenho grande confiança no meu carteiro: em vinte anos de profissão, a única pessoa que ele alguma vez conseguiu encontrar em casa foi o Judeu Errante. O professor não usa telemóvel (tem nojo dos gnomos que vivem dentro dos auriculares) e por e-mail não sei se será viável, hoje até o Gmail me falhou na hora de enviar o boneco para o jornal.
Haverá um fim para tudo isto? Ou uma peça de Beckett na televisão em que quatro encapuçados atravessem a um ritmo regular e sem jamais se tocarem as linhas que unem os cantos de um quadrado traçado no palco?
Hoje? Não creio.
Enfim, decidi que nos próximos dias estarei actualizando a lista de blogues aí à direita. Isso vai talvez fazer-me perder um pouco de cintura. Eu queria ter usado um esquema intrincado, mas reflecti um pouco e concluí que dificilmente os hermeneutas se dariam ao trabalho de o tentar decifrar. Eles preferem andar por aí a conferir quem grafa The Wasteland por The Waste Land e rir muito disso enquanto sorvem as suas aguinhas com gás por palhinhas e vêem qual deles melhor imita o olhar penetrante da vista tapada de Joyce.
Na semana passada, um amigo comum mas simpático apresentou-me ao professor Campos, sabe, o inventor da paisagem. Combinámos dar um destes dias um passeio no seu jardim, se o leitor autorizar, claro, se não iremos antes para o jardim dele, para tirar umas fotos e me contar como foi lembrar-se de inventar algo tão extraordinário. Espero convite formal amanhã ou no dia seguinte, mas não tenho grande confiança no meu carteiro: em vinte anos de profissão, a única pessoa que ele alguma vez conseguiu encontrar em casa foi o Judeu Errante. O professor não usa telemóvel (tem nojo dos gnomos que vivem dentro dos auriculares) e por e-mail não sei se será viável, hoje até o Gmail me falhou na hora de enviar o boneco para o jornal.
Haverá um fim para tudo isto? Ou uma peça de Beckett na televisão em que quatro encapuçados atravessem a um ritmo regular e sem jamais se tocarem as linhas que unem os cantos de um quadrado traçado no palco?
Hoje? Não creio.
21.2.09
Passando sede
...no Deserto das Comunicações, Bandeira consultou o guru Un*x para saber qual o servidor de correio electrónico mais indicado para si.
“O da Netcabo falha-me; o do Kanguru recusa-se a aceitar correio se eu estiver ligado por outro fornecedor que não a Optimus; e agora as mulheres desprezam-me”, lamentou-se, cofiando a longa barba que não tinha.
O guru Un*x reflectiu durante algum tempo, entretendo-se a fazer estalar parasitas do couro cabeludo entre as unhas dos polegares. Então fez girar a cadeirinha de rodas cerca de trinta graus na direcção do suplicante e disse:
“Gmail.”
Bandeira olhou o guru Un*x com surpresa. “Mas à Netcabo e à Optimus eu pago uma quantia mensal de não pouca monta”, disse.
A isto respondeu o guru: “Um dia também pagarás o Gmail – apenas não sabes onde ou como.”
Bandeira compreendeu e curvou-se em sinal de reverência. Pisando latas de Coca-Cola, copos de café em plástico, caixas de pizza em decomposição e edições antigas da Dr. Dobbs, recuou até à porta do Templo dos Servidores; abriu o seu portátil; criou uma conta no Google Mail; e informou os três frequentadores do seu blogue que o endereço a utilizar passa a ser o que consta no canto superior direito.
“O da Netcabo falha-me; o do Kanguru recusa-se a aceitar correio se eu estiver ligado por outro fornecedor que não a Optimus; e agora as mulheres desprezam-me”, lamentou-se, cofiando a longa barba que não tinha.
O guru Un*x reflectiu durante algum tempo, entretendo-se a fazer estalar parasitas do couro cabeludo entre as unhas dos polegares. Então fez girar a cadeirinha de rodas cerca de trinta graus na direcção do suplicante e disse:
“Gmail.”
Bandeira olhou o guru Un*x com surpresa. “Mas à Netcabo e à Optimus eu pago uma quantia mensal de não pouca monta”, disse.
A isto respondeu o guru: “Um dia também pagarás o Gmail – apenas não sabes onde ou como.”
Bandeira compreendeu e curvou-se em sinal de reverência. Pisando latas de Coca-Cola, copos de café em plástico, caixas de pizza em decomposição e edições antigas da Dr. Dobbs, recuou até à porta do Templo dos Servidores; abriu o seu portátil; criou uma conta no Google Mail; e informou os três frequentadores do seu blogue que o endereço a utilizar passa a ser o que consta no canto superior direito.
14.2.09
O senhor Roberto
O senhor Roberto trancou o pequeno Opel. Era noite escura, o bairro perigoso, e, a meio dos cento e cinquenta metros que o separavam da entrada do prédio, teve um pressentimento:
“Vou morrer.”
Quarenta e dois anos depois, na Unidade de Cuidados Intensivos, uma enfermeira ainda chegou a tempo de ouvir as suas últimas palavras:
“Eu sabia.”
“Vou morrer.”
Quarenta e dois anos depois, na Unidade de Cuidados Intensivos, uma enfermeira ainda chegou a tempo de ouvir as suas últimas palavras:
“Eu sabia.”
10.2.09
Júpiter
O cego ia arrancando uns fadunchos tristes da sanfona. Mostraram-lhe uma nota de cinco e apostaram em como ele não era capaz de tocar uma mozartada. Olhou-os com alguma sobranceria e respondeu que por cinco euros nem os Kiss tocava. Aceitou uma nota de vinte. Deu-lhe dois esticões, como que a confirmar que não se rasgava, dobrou-a em quatro e enfiou-a no bolso das calças. Então bafejou os dedos, ajeitou a sanfona e arrancou com a Júpiter. Soaram cordas, metais e madeiras na estação assombrada, gente descia da rua, comboios chegavam apinhados e partiam vazios em piloto automático.
No final foi muito aplaudido, e ele, com vergonha, agradecia e ia explicando que estava meio enferrujado e tal.
No final foi muito aplaudido, e ele, com vergonha, agradecia e ia explicando que estava meio enferrujado e tal.
7.2.09
Novas Aventuras do Rufino
O Rufino gostava quando os pais o levavam a passear de carro, embora nas últimas centenas de quilómetros lhe custasse um bocadinho suportar o calor do tubo de escape.
Não havia dia que o Rufino fosse à praia com os pais que não se perdesse: eles tinham aprendido que deviam fugir sempre na direcção do Sol.
Em menino, o Rufino trazia sempre a pala do boné virada para trás. Foi apenas aos dez anos de idade que os médicos lhe endireitaram a cabeça.
Todos os dias a mãe do Rufino o mandava à mercearia comprar duas toneladas de arroz, e todos os dias o menino apanhava com o chinelo por deixar cair metade pelo caminho.
Cedo o Rufino procurou conforto nos livros; a mãe, porém, insistia em que ele dormisse apoiando a cabeça na almofada das agulhas.
O Rufino não teve brinquedos. O pai dele nunca lhe trazia um presente que não houvesse comprado a pensar no futuro, como frascos de arsénico e esquifes em pinho.
O Rufino encontrava refrigério na leitura de BD, mas uma matrícula assim surgia muito raramente.
Os pais do Rufino recorreram a um conselheiro matrimonial, mas nem assim foram capazes de se entender sobre qual dos dois tivera a culpa.
O Rufino tinha uma casa de banho só para si, mas nem sempre o vizinho lhe abria a porta.
Na adolescência, Rufino reflectiu sobre a sua orientação sexual e concluiu que era para baixo.
O Rufino chegou a fazer parte de uma banda Rock, mas ao cabo de um ano um dos restantes membros ficou sóbrio e percebeu que ele não era uma groupie.
O Rufino tentou o método socrático, mas as candidatas a namorada estranhavam tanta pergunta.
Quando finalmente acabou de ler Ulysses, o Rufino sofreu uma pancada na cabeça e perdeu a memória de tudo o que acontecera nos três meses anteriores.
O Rufino tentou o Tarot, mas as cartas vinham sempre devolvidas.
O Rufino leu toda a obra de Hegel no alemão original. Isso levá-lo-ia mais tarde a tentar aprender a língua.
O Rufino tentou comunicar com o Além usando uma tábua ouija. Na primeira sessão, apanhou um espírito fanhoso; na segunda, um analfabeto; na terceira, Kant. Nenhum dos três se percebia.
O primeiro puzzle gigante que o Rufino tentou resolver consistia numa foto do oceano Pacífico.
O Rufino tentou o solipsismo, mas as outras pessoas não paravam de existir.
O Rufino era o único membro do grupo de teatro amador lá da empresa a quem o ponto dava deixas erradas.
O Rufino não gostou muito da experiência no teatro; ele fazia de pancadas de Molière.
O Rufino é um homem simples. Dá-se por contente em ter cinco dedos em cada uma das três mãos.
Os colegas de trabalho achavam o Rufino um tipo cómico, em especial pelas caras que fazia quando ficava preso na trituradora.
Quando alguém quer descrever o Rufino, não diz simplesmente que é de estatura média: di-lo “um gigante minorquinha” ou “um anão enoooorme”.
O Rufino tentou a agricultura, mas ao fim do dia não via resultados.
O Rufino não falha uma dessas meias-maratonas domingueiras. Chega sempre em segundo na edição do ano seguinte, logo depois deste que se assina.
A carta mais simpática que o Rufino recebeu até hoje continha ameaças de Robert Mugabe.
O Rufino teve que desistir de visitar jardins botânicos porque as flores o atacavam.
O Rufino tem pés chatos. Pelo menos é o que diz o resto do corpo.
O Rufino é alérgico a apenas um tipo de comida, mas nunca sabe qual será da próxima vez.
O Rufino sabe ler a palavra “URGÊNCIAS” em trinta e sete idiomas.
Quando o Rufino por fim concluiu os dois anos da rigorosíssima dieta, a obesidade tornou-se não apenas saudável, como chique.
O Rufino teve problemas de fígado por usar after-shave com álcool.
O Rufino declarou-se à funcionária da repartição de Finanças. Ela respondeu, sem desviar os olhos do monitor, “nem que você fosse o último contribuinte do mundo”. E triplicou-lhe o imposto em dívida.
Quando o Rufino paga em dinheiro, exigem-lhe bilhete de identidade.
O Rufino não tem animais de estimação. O cão dele não o estima, o papagaio cinzento odeia-o e o cágado tentou enforcar-se num aloé.
Quando o cão leva o Rufino à rua, obriga-o a apanhar também o cocó dos cães seus amigos.
O Rufino é o único ser humano vivo que pode ser enterrado dentro da lei.
O Rufino tem sexo com alguma regularidade, mas não o usa.
O Rufino é o único habitante da ecúmena contra quem decretaram uma fatwa por se tentar converter ao Islão.
O Rufino fundou uma escola filosófica baseada no desapego aos bens materiais, mas os seus discípulos obrigavam-no a pagar uma mensalidade absurda.
O Rufino foi considerado responsável, e cumpriu pena, pela síncope em português das consoantes N e L intervocálicas. Ele acabaria sendo bastante maltratado pelos restantes prisioneiros de delito comum, muito sensíveis a violações da língua.
Não havia dia que o Rufino fosse à praia com os pais que não se perdesse: eles tinham aprendido que deviam fugir sempre na direcção do Sol.
Em menino, o Rufino trazia sempre a pala do boné virada para trás. Foi apenas aos dez anos de idade que os médicos lhe endireitaram a cabeça.
Todos os dias a mãe do Rufino o mandava à mercearia comprar duas toneladas de arroz, e todos os dias o menino apanhava com o chinelo por deixar cair metade pelo caminho.
Cedo o Rufino procurou conforto nos livros; a mãe, porém, insistia em que ele dormisse apoiando a cabeça na almofada das agulhas.
O Rufino não teve brinquedos. O pai dele nunca lhe trazia um presente que não houvesse comprado a pensar no futuro, como frascos de arsénico e esquifes em pinho.
O Rufino encontrava refrigério na leitura de BD, mas uma matrícula assim surgia muito raramente.
Os pais do Rufino recorreram a um conselheiro matrimonial, mas nem assim foram capazes de se entender sobre qual dos dois tivera a culpa.
O Rufino tinha uma casa de banho só para si, mas nem sempre o vizinho lhe abria a porta.
Na adolescência, Rufino reflectiu sobre a sua orientação sexual e concluiu que era para baixo.
O Rufino chegou a fazer parte de uma banda Rock, mas ao cabo de um ano um dos restantes membros ficou sóbrio e percebeu que ele não era uma groupie.
O Rufino tentou o método socrático, mas as candidatas a namorada estranhavam tanta pergunta.
Quando finalmente acabou de ler Ulysses, o Rufino sofreu uma pancada na cabeça e perdeu a memória de tudo o que acontecera nos três meses anteriores.
O Rufino tentou o Tarot, mas as cartas vinham sempre devolvidas.
O Rufino leu toda a obra de Hegel no alemão original. Isso levá-lo-ia mais tarde a tentar aprender a língua.
O Rufino tentou comunicar com o Além usando uma tábua ouija. Na primeira sessão, apanhou um espírito fanhoso; na segunda, um analfabeto; na terceira, Kant. Nenhum dos três se percebia.
O primeiro puzzle gigante que o Rufino tentou resolver consistia numa foto do oceano Pacífico.
O Rufino tentou o solipsismo, mas as outras pessoas não paravam de existir.
O Rufino era o único membro do grupo de teatro amador lá da empresa a quem o ponto dava deixas erradas.
O Rufino não gostou muito da experiência no teatro; ele fazia de pancadas de Molière.
O Rufino é um homem simples. Dá-se por contente em ter cinco dedos em cada uma das três mãos.
Os colegas de trabalho achavam o Rufino um tipo cómico, em especial pelas caras que fazia quando ficava preso na trituradora.
Quando alguém quer descrever o Rufino, não diz simplesmente que é de estatura média: di-lo “um gigante minorquinha” ou “um anão enoooorme”.
O Rufino tentou a agricultura, mas ao fim do dia não via resultados.
O Rufino não falha uma dessas meias-maratonas domingueiras. Chega sempre em segundo na edição do ano seguinte, logo depois deste que se assina.
A carta mais simpática que o Rufino recebeu até hoje continha ameaças de Robert Mugabe.
O Rufino teve que desistir de visitar jardins botânicos porque as flores o atacavam.
O Rufino tem pés chatos. Pelo menos é o que diz o resto do corpo.
O Rufino é alérgico a apenas um tipo de comida, mas nunca sabe qual será da próxima vez.
O Rufino sabe ler a palavra “URGÊNCIAS” em trinta e sete idiomas.
Quando o Rufino por fim concluiu os dois anos da rigorosíssima dieta, a obesidade tornou-se não apenas saudável, como chique.
O Rufino teve problemas de fígado por usar after-shave com álcool.
O Rufino declarou-se à funcionária da repartição de Finanças. Ela respondeu, sem desviar os olhos do monitor, “nem que você fosse o último contribuinte do mundo”. E triplicou-lhe o imposto em dívida.
Quando o Rufino paga em dinheiro, exigem-lhe bilhete de identidade.
O Rufino não tem animais de estimação. O cão dele não o estima, o papagaio cinzento odeia-o e o cágado tentou enforcar-se num aloé.
Quando o cão leva o Rufino à rua, obriga-o a apanhar também o cocó dos cães seus amigos.
O Rufino é o único ser humano vivo que pode ser enterrado dentro da lei.
O Rufino tem sexo com alguma regularidade, mas não o usa.
O Rufino é o único habitante da ecúmena contra quem decretaram uma fatwa por se tentar converter ao Islão.
O Rufino fundou uma escola filosófica baseada no desapego aos bens materiais, mas os seus discípulos obrigavam-no a pagar uma mensalidade absurda.
O Rufino foi considerado responsável, e cumpriu pena, pela síncope em português das consoantes N e L intervocálicas. Ele acabaria sendo bastante maltratado pelos restantes prisioneiros de delito comum, muito sensíveis a violações da língua.
3.2.09
1X22111XX1X21
A experiência com o título do poste em baixo prova à saciedade (já tenho ouvido dizer à sociedade, não me parece mal; e também já ouvi dizer sabíamos de entre mão e gostei, embora o sentido da coisa me haja escapado, e – mas tergiverso, desculpe, desculpe), a experiência com o título em baixo prova à saciedade, dizia, que coroasse eu textos com matrizes de Totobola ou códigos postais e o fleumático leitor nem pestanejaria.
Reflectirei um pouco sobre o que pensar disso.
Reflectirei um pouco sobre o que pensar disso.
Subscrever:
Mensagens (Atom)